A gente manda.
Você recebe.
Depois manda a real pra todo mundo.
RENATO RIBEIRO
REPRODUÇÃO/GE TV

Sofia Miranda da GE TV; repórter viralizou após receber uma arma das mãos de um mariachi
Renato Ribeiro, atual diretor de Conteúdo e Esporte da Globo, admite que precisou de uma preparação "física e mental" para comandar os 39 dias de cobertura da Copa do Mundo 2026. Afinal, a emissora líder de audiência não entra mais em campo sozinha e precisa disputar a atenção --já dispersa e menos apaixonada por futebol do que há décadas-- de um público que agora pode assistir aos jogos por plataformas concorrentes.
Antes de o Brasil entrar em campo pela primeira vez no torneio, no último sábado (13), a Globo até tirou "um coelho da cartola" para tentar impedir que seu público trocasse a emissora pelo SBT ou pela CazéTV durante a Copa do Mundo. Everaldo Marques usou a carta da tradição e da superstição ao ressaltar que a líder de audiência é a única TV que acompanha os títulos da Seleção Brasileira desde 1970.
Durante painel no Web Summit Rio, que aconteceu na última semana, Renato Ribeiro também "apelou" para a experiência como chancela de qualidade na transmissão da emissora. "Por que a Copa do Mundo é tão importante para a gente? Porque é uma tradição que vem desde 1970, que a gente transmitiu pela primeira vez ao vivo no Brasil em cores, mas a maior parte dos aparelhos ainda via em preto e branco. E, ao longo dessas décadas, a Copa se tornou um fenômeno cultural do Brasil", valorizou o chefão.
"A Copa do Mundo não é só futebol, é um negócio muito maior do que isso. É um ritual de todo brasileiro. É uma memória afetiva e coletiva ao mesmo tempo. Acho que a gente faz a nossa vida nesses ciclos de quatro anos. Todo mundo lembra ou imagina o tetra, o penta, ou mesmo o 7 a 1 [da derrota para a Alemanha em 2014]. Lembra o momento da sua vida naquela época, como é que estava a sua vida", refletiu.
Contudo, apesar de romantizar a experiência coletiva de assistir ao campeonato mundial que coroou a Seleção Brasileira por cinco vezes como a melhor do mundo, o executivo reconheceu que tradição e memória afetiva, sozinhas, já não ganham título na disputa pela audiência. Sobretudo diante de uma nova geração hiperconectada, desapegada da TV aberta e que não vê o Brasil ser campeão há 24 anos.
"A Copa do Mundo é tipo uma música, um cheiro que te remete a emoções da sua vida naquela na época. E a Globo ajudou a construir a Copa como um fenômeno cultural. Ajudou a gente a criar essa tradição de quatro em quatro anos, de o país parar, para juntos torcermos pela Seleção Brasileira. A gente tá esfregando as mãos assim [de ansiedade], depois de muito tempo, muitos anos planejando", confessou o chefão.
Para 2026, a líder de audiência resolveu se armar contra a maior novidade do Mundial. O pequeno gigante Casimiro Miguel, rosto da CazéTV, que chega para sua segunda Copa do Mundo com o direito de transmissão de todas as partidas do Mundial --superando as cotas tanto da Globo quanto do SBT.
A emissora de Silvio Santos (1930-2024), por sua vez, também apostou na tradição, puxando Galvão Bueno, a voz do tetra e do penta, para sua transmissão. Uma alternativa na TV aberta contra a Globo, que até pode roubar alguns espectadores mais apegados ao tempo real --considerando o delay do YouTube, do streaming e da TV paga.
"Eu falei da tradição, mas só a tradição não sustenta. Então, a gente tem também que surpreender o público, encantar o público. Na verdade, a Copa de 2026, para a gente, são várias Copas em uma. A gente tem a Copa da emoção, que é da TV Globo, que fala para as massas, fala para as multidões, é a TV aberta, a força da TV aberta. A gente tem a Copa para quem é apaixonado por Copa e se dispõe a pagar por isso, que é a Copa do SporTV, que tem análise, profundidade", enumerou Ribeiro.
Entre as armas mais inusitadas contra a CazéTV está a Ge TV, alternativa no YouTube, focada no público mais jovem e potencial consumidor do estilo "resenha" do grupo de Casimiro Miguel. "A gente tem uma Copa da diversão, a nossa filha mais nova, a Ge TV, que vai aí para o seu nono, décimo mês. É uma Copa diferente também, para um outro tipo de público", ressaltou o chefão.
Às vésperas da Copa do Mundo, uma jovem repórter da Ge TV protagonizou um momento que ilustra muito bem a tentativa quase ofensiva de ainda usar o trator da tradição, mas com a irreverência das novas plataformas como combustível. Sofia Miranda viralizou após receber uma arma de fogo das mãos de um músico mariachi ao vivo no México. A jornalista segurou o objeto e reagiu com bom humor, comentando: "É pesado".
"A gente tem a Copa agora, que está acontecendo em tempo real do hard news, que é o [site] GE, onde nascem os furos da nossa cobertura. E a gente tem a Copa das redes sociais. Onde está a conversa da Copa, e a gente se propõe também a fazer parte dessa conversa e ser a conversa que está acontecendo nas redes sociais. Então, são várias Copas em uma, com a linguagem adequada para cada uma. Para todos os brasileiros", disse Ribeiro.
"Quando a gente teve a ideia de trazer o Ronaldinho Gaúcho, não numa função de comentarista --o que seria um erro de escalação, botar ele como comentarista--, mas como um 'embaixador' para fazer os rolês aleatórios, que é o espírito dele... Isso tudo para despertar o riso, para as pessoas se divertirem com ele. E vai surpreender muito as pessoas ao longo da Copa, e até a gente mesmo, com a expectativa de se ele vai aparecer ou não, a gente vai brincar com isso", revelou o executivo.
Renato Ribeiro reconheceu que existem outras formas de falar com o público amplo que a Copa do Mundo atrai. Ele citou como exemplo o documentário Convocadas, no qual a equipe do Globoplay acompanhou, durante um ano, cinco mulheres de jogadores de futebol. Segundo o executivo, o objetivo da produção era atingir um tipo de espectador que não necessariamente acompanha futebol no dia a dia, mas que consome a Copa do Mundo.
O diretor também destacou a parceria inédita com uma agência de publicidade, a Play9, que envolveu 2.026 influenciadores --uma estratégia de comunicação que a emissora não utilizava para alcançar novas audiências.
"E isso também é uma forma de se conectar com outro tipo de público também, que a gente quer ao mesmo tempo falar com a TV aberta e também com o digital, provocar situações no digital com isso. Isso é uma forma de falar com o público", defendeu Ribeiro.
A estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026 até foi fria dentro de campo --com um empate contra o Marrocos--, mas aqueceu a audiência da TV brasileira. Globo, SBT e CazéTV se deram bem com suas respectivas transmissões e viram os índices crescerem, provando o ponto de Ribeiro: o Brasil ainda para quando a Seleção Brasileira está em ação no Mundial.
A Globo liderou com folga durante a transmissão da partida. Enquanto a bola rolava em Nova Jersey, das 19h04 às 21h05, a emissora marcou 31,8 pontos na Grande São Paulo, de longe a maior audiência da TV brasileira neste ano.
Com Galvão Bueno, o SBT também se deu muito bem com a transmissão e consolidou 11,1 pontos durante a partida, bem acima dos 8,0 pontos apontados pelos dados prévios na noite de sábado.
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