'CRUEL'

Caco Barcellos revela drama familiar antes de viagem arriscada ao Irã

REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Caco Barcellos no Irã

Caco Barcellos no Irã; jornalista experiente não teve medo de chegar perto do rosto da guerra

GIOVANNA RIBEIRO, do Rio de Janeiro

giovanna@noticiasdatv.com

Publicado em 6/6/2026 - 6h10

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Nem mesmo um veterano do jornalismo como Caco Barcellos escapa dos conflitos que a profissão --quando vivida da maneira mais intensa possível --pode causar na vida pessoal. Durante o Rio2C, evento de inovação que aconteceu no Rio de Janeiro na última semana, ele contou como sua incursão pelo Irã em plena guerra impactou a relação com sua filha, Alice.

No painel intitulado Caco Barcellos: Profissão Repórter, o jornalista de 76 anos conversou com a colega Sara Pavani sobre a cobertura da guerra no Irã exibida pelo Fantástico em abril. As dores o levaram a usar bengala na viagem ao Oriente Médio, detalhe que chamou a atenção --e gerou elogios do público.

"Foi difícil, porque a minha filha, que tem seus 27 anos, disse: 'Ah pai, por que você está indo para essa guerra? Caramba, você fez tanta coisa na vida e tal'. Ela foi meio cruel comigo. Falei: 'Pô, deixa de ser cruel, minha filha. Acho que eu tenho que contar essa história'", confessou ele.

"Ela disse 'Mas por quê? Tem tantas histórias para contar'. E eu respondi: 'Não, você tem razão. Mas caramba, se eu pensar assim, começar a selecionar as histórias... Tudo é possível. Você nunca vai contar uma história [assim], pode desistir de todas'. Se eu acho que é interessante, tento o máximo possível seguir em frente", disse o jornalista.

A reportagem exibida pelo programa dominical da Globo mostrou os impactos da guerra sobre a população civil. Barcellos e os demais integrantes da equipe do Profissão Repórter entraram no país e acompanharam de perto os efeitos dos bombardeios feitos pelo governos dos Estados Unidos --na figura do presidente Donald Trump-- e de Israel.

A equipe comandada por Caco Barcellos cruzou cerca de 300 quilômetros pela Turquia, entre montanhas cobertas de neve, até chegar à fronteira com o Irã. No posto de controle, ainda em território turco, as gravações chegaram a ser interrompidas por autoridades.

Apesar do conflito com sua filha e dos desafios com a própria saúde, o jornalista não se arrependeu da empreitada. "É necessário. O país está envelhecendo, no seu conjunto. Temos que continuar ativos. Não ficar pedindo socorro. Eu aprendi com a minha mãe a não pedir nada. A minha mãe está com 99 anos", celebrou.

"Eu pensei da seguinte maneira: 'Olha, a perna realmente está ruim, está doendo muito'. Teve um erro médico grave, um rompimento de um nervo, que manda energia lá para o pé. Estou tentando recuperar isso. Aí eu falei: 'Minha filha, tem dois caminhos. Ou eu fico aqui nessa sala bem confortável, gemendo de dor, ou vou gemer de dor lá [no Irã] e ser útil'", contou.

A equipe da Globo visitou prédios atingidos por mísseis e chegou a acompanhar o funeral de um general da Marinha iraniana morto em um ataque no estreito de Ormuz. Apenas três equipes estrangeiras foram autorizadas a circular pelo país na comitiva oficial: a brasileira, uma russa e uma britânica.

Contudo, Barcellos minimizou o que considera uma falsa sensação de exclusividade ou pioneirismo. "Eu discordo um pouco dessa história de 'é o único repórter do Brasil, só três repórteres do mundo que conseguiram entrar'. Tem um mérito aí pelo nosso esforço. Lutamos por esse acesso, acho que desde dezembro do ano passado. Mas penso o seguinte: quantos tentaram ir? Eu estou convencido de que a maioria não quer ir", desabafou.

No Rio2C, que acontecia na capital fluminense, o jornalista ainda lembrou os recentes conflitos e chacinas provocados pelo poder público do Estado do Rio de Janeiro. "Já que estamos aqui no Rio de Janeiro: encontrem dois repórteres agora [noticiando o que acontece] em alguma comunidade do Rio. Eles não têm interesse também. Então, o nosso mérito está mais voltado ao fato de que os outros não vão e nós decidimos ir", disse ele.

"Da mesma forma aqui, onde estão os repórteres? Estão no outro lado do Rio de Janeiro. Esse Túnel Rebouças que divide a cidade entre os privilegiados e os não privilegiados. E a imprensa, de modo geral, sem criticar algum veículo específico ou algum colega, mas a realidade é essa. É uma cidade em que se observa isso", relatou.

Em novembro do ano passado, uma megaoperação deixou mais de 120 mortos no Rio de Janeiro. Caco Barcellos foi pessoalmente até o Complexo da Penha e presenciou os esforços de moradores para retirar, reunir e reconhecer dezenas de corpos em plena via pública. A operação foi orquestrada pelo governo do Estado para desmontar o domínio do Comando Vermelho (CV) na localidade, tornando-se a mais letal já registrada na história do Rio.

"Onde estão os interesses das corporações de mídia? Aqui é o mesmo que acontece no cenário internacional. Então, somos os únicos três grupos que se interessaram [em ir ao Irã]. O que a gente tem de diferente dos outros?", provocou o jornalista.

Apesar dos problemas de saúde, Caco Barcellos seguirá à frente do Profissão Repórter. No entanto, em 2026, o programa, que ainda não retornou à grade da emissora, foi "rebaixado" e voltará a ser um quadro do Fantástico. O jornalista experiente está na Globo desde 1982.

O Profissão Repórter foi concebido, dirigido e apresentado pelo veterano. Estreou como um especial do Globo Repórter e, em seguida, como quadro do Fantástico. Em junho de 2008, ganhou seu lugar fixo na grade da Globo.


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