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MUNDO CÃO

Aqui Agora de volta: A quem interessa mais sensacionalismo policial na TV?

DIVULGAÇÃO/SBT

Os apresentadores Dani Brandi, Marco Pagetti e Geraldo Luís no SBT

Marco Pagetti, Geraldo Luís e Daniele Brandi estão à frente do "novo" Aqui Agora

GIOVANNA RIBEIRO

giovanna@noticiasdatv.com

Publicado em 10/8/2025 - 8h10

Depois de 17 anos fora do ar, o Aqui Agora foi resgatado pelo SBT na última segunda-feira (4), com direito a Geraldo Luís como "arma secreta". Apresentador e atração, de fato, têm muito em comum. Ambos são elementos que ninguém pediu para retornarem à TV aberta --apenas Rinaldi Faria, superintendente de Criação e Produção da emissora.

O Aqui Agora ocupa o fim de tarde da emissora com repórteres veteranos, pautas recicladas de programas policiais da concorrência e a boa e velha fórmula sensacionalista. Que o próprio ajudou a popularizar, três décadas antes. E nociva, como sempre.

Para a professora Ariane Diniz Holzbach, do curso de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), o olhar "maniqueísta" com que programas como o Aqui Agora enxergam a realidade --ou seja, na existência de bandidos e mocinhos, vilão contra vítima-- é capaz de impactar o olhar da sociedade e até modificar os fatos.

"A maneira com que jornais e programas como o Aqui Agora transmitem a informação tem um papel crucial na maneira como aquela informação vai se transformar em um registro histórico no futuro. Como aquele fenômeno vai ser observado no futuro pelas gerações seguintes", explica ela.

A professora ainda destaca que, na construção desse discurso tão particular dos programas sensacionalistas, há uma linha tênue entre o que são apenas recursos midiáticos, como o uso de adjetivos fortes, e a desinformação.

"A estratégia retórica é tão fortemente atrelada a um acontecimento hipotético que, muitas vezes, acaba se transformando em verdade, e isso se torna uma fake news. Por exemplo, uma situação violenta que aconteceu e a polícia prendeu um suspeito. Invariavelmente, esses programas tratam o suspeito como culpado, sem ter havido um julgamento", diz ela.

"Quando esses programas culpabilizam uma pessoa que ainda não foi julgada e eventualmente é inocente, o programa está transmitindo a informação errada, está transformando em culpado uma pessoa que não foi julgada e que eventualmente pode ser inocente", conclui Ariane.

Espetacularização da violência

O Aqui Agora não reina sozinho no âmbito das atrações que exploram a violência e casos escabrosos. Muito pelo contrário, ele disputa. Os já consolidados Brasil Urgente e Cidade Alerta também estão, todos os dias, oferecendo um cardápio vasto da desgraça alheia para o público interessado em insegurança pública.

Os programas policiais, ao destacarem casos singulares, também podem causar uma falsa sensação de que tragédias são mais comuns do que os dados frios realmente apontam. Tudo é amplificado. E a obsessão com a segurança caminha de braços dados com um apelo coletivo por policiamento ainda mais duro.

"Tais programas promovem uma espetacularização da violência, inclusive por meio de fatos inventados e narrativas falsas. O efeito é o aumento da sensação de insegurança, como se houvesse uma ameaça cotidiana de ser submetido a episódios semelhantes de violência", explica Antonio Martins, professor de Direito Penal e Criminologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo o professor, o sensacionalismo estimula respostas movidas mais pela emoção do que pela razão, muitas vezes com base no desejo de vingança. As narrativas desumanizam quem comete crimes, retratando essas pessoas como ameaças permanentes. Elas passam a ser vistas quase como predadoras, contra os quais a sociedade precisa se defender a qualquer custo.

Esse tipo de abordagem traz diversas consequências. No sistema penal, por exemplo, cresce a aposta em políticas que aumentam o aparato policial e o encarceramento em massa. Isso acaba sobrecarregando as prisões, gerando superlotação e constantes violações de direitos humanos.

"Isto conduz ao apoio a medidas de segurança pública excessivamente duras e ineficazes, que representam uma restrição desproporcional da liberdade e tendem a violar direitos fundamentais, cujo objetivo consiste tão somente na apresentação de uma resposta com apelo midiático, apta a gerar uma falsa sensação de maior segurança", explica Martins.

Paralelamente, há um aumento nos investimentos em tecnologias de segurança e controle social. Essa prioridade reforça uma visão punitiva, mas não enfrenta as causas reais da violência, mantendo o problema sem solução.

Enquanto isso, o gasto excessivo com segurança contrasta com a falta de investimento em educação e em políticas para reduzir a desigualdade. Medidas que poderiam, de fato, melhorar a segurança pública e diminuir os índices de criminalidade.

"Quem mais sofre com a falta de uma gestão responsável dos recursos e a carência de investimentos em políticas educacionais e diminuição da desigualdade são as próprias áreas periféricas mais afetadas pela exposição da violência", conclui Antonio Martins.


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