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TRAGÉDIA SOCIAL
REPRODUÇÃO/PRIME VIDEO

Marina Ruy Barbosa em Tremembé; série de sucesso já tem segunda temporada confirmada para 2026
De Tremembé a Ângela Diniz, histórias baseadas em crimes reais têm atraído a audiência dos brasileiros, sobretudo no streaming. Nos últimos anos, podcasts e séries do gênero que fizeram sucesso estão em uma crescente, inclusive com renovações para 2026. E apesar de parecer um fenômeno recente e até importado, o chamado "true crime" faz parte da tradição do audiovisual brasileiro de uma maneira muito particular.
O pesquisador Pedro Henrique Alves Silva, do Doutorado em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF), ressalta que há diferenças fundamentais que fazem um true crime ser, de fato, brasileiro. Segundo ele, apesar de também funcionar como entretenimento --o que o aproxima das obras norte-americanas-- há um quê de crítica social nas nossas produções.
"Se pensarmos em um modelo estadunidense típico, ele tende à individualização psicológica do criminoso, focalizando a mente do assassino e o próprio crime como objetos de fascínio mórbido. Um exemplo recente é a antologia Monstro, criada por Ryan Murphy e Ian Brennan. Já as produções brasileiras atuais situam o crime dentro de estruturas de desigualdade, falhas sistêmicas e violências institucionalizadas", diz ele ao Notícias da TV.
As raízes do true crime brasileiro remontam a uma tradição que atravessa diferentes mídias. Desde o cinema, com Os Estranguladores do Rio (ou Os Estranguladores), de 1908, dirigido por Francisco Marzullo e apontado como o primeiro grande sucesso de bilheteria do cinema nacional, além dos dois filmes do mesmo ano intitulados O Crime da Mala, um dirigido por Francisco Madrigano e outro por Antônio Tibiriçá. Todas retratavam crimes reais.
O radiojornalismo policial também estabeleceu algumas das principais bases estéticas e "éticas" do gênero no Brasil, especialmente por meio de figuras como o repórter Gil Gomes que, com uma narração dramatizada e música de suspense, criaram um modelo que ainda persiste. A televisão sensacionalista dos anos 1990 consolidou o true crime como fenômeno de massa.
O primeiro Aqui Agora (1991-1996) chegou a ameaçar a liderança de audiência da Globo na Grande São Paulo com câmeras na mão e perseguições ao vivo. Um modelo que persiste em programas como Cidade Alerta e Brasil Urgente, e motivaram até mesmo o retorno do Aqui Agora no SBT. Além do Linha Direta, que segundo o pesquisador "sofisticou o formato com reconstituições, pesquisa documental e a linha telefônica para denúncias, responsável por cerca de 400 prisões" --ele também tentou retornar à Globo em 2023.
Contudo, foi nas plataformas de streaming que aconteceram transformações importantes no ecossistema do true crime brasileiro. "Tremembé, de Vera Egito, é interessante porque tensiona essas separações tão maniqueístas. Ao privilegiar o pós-crime em sua estrutura narrativa, a série se opõe a representar o ato criminal como espetáculo, dedicando-se ao cotidiano prisional. Isso não significa que ela se afaste completamente do sensacionalismo, mas há uma escolha deliberada de focar nas consequências e no sistema, não apenas no choque da violência", aponta Alves Silva.
O próprio funcionamento dos streamings pode explicar essa nova fase do true crime. A estrutura propicia a maratona entre os usuários, e a ausência de intervalos também permite novos ritmos narrativos e durações variáveis por episódio. Assim como a recorrência de adaptações de podcast para streaming, também representa uma tendência marcante do mercado atual.
O podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, originou a série da HBO protagonizada por Marjorie Estiano. Já O Caso Evandro migrou de podcast independente para o Globoplay, e também virou série na plataforma. A Mulher da Casa Abandonada, por sua vez, seguiu os mesmos passos: saiu da Folha de S.Paulo e se tornou produção do Prime Video.
Quanto ao público, em uma dimensão de gênero, observa-se que as mulheres ainda representam a maior parte da audiência de true crime. Essa fatia dos espectadores, ao mesmo tempo em que é o principal alvo de crimes violentos, também figura entre os maiores consumidores do gênero nas plataformas.
Segundo o pesquisador, esse interesse pode estar relacionado a diferentes motivações, que envolvem estratégias de sobrevivência, a tentativa de compreender criminosos e a busca por justiça. "Raça, classe e gênero operam como estruturas de seleção e invisibilização no true crime, reproduzindo hierarquias sociais", ressalta.
"A violência contra corpos negros e periféricos é simultaneamente onipresente no noticiário policial sensacionalista e invisível no true crime de 'prestígio' das plataformas. Exceções notáveis revelam a regra. A Vítima Invisível: O Caso Eliza Samudio [2024] é um reconhecimento explícito dessa dinâmica: o próprio título nomeia a invisibilização de uma mulher de classe trabalhadora 'eclipsada' pela celebridade do goleiro Bruno", lembra Alves Silva.
Segundo o pesquisador, a lógica de representação de criminosos como monstros opera de forma diferente a depender de marcadores sociais. Homens brancos de classe alta recebem análises psicológicas sofisticadas sobre "o que deu errado", enquanto homens racializados e periféricos são naturalizados como violentos.
"Além disso, os mesmos vieses de raça e classe que estruturam a seleção de casos persistem: crimes envolvendo vítimas brancas de classe média/alta geram pressão institucional, enquanto violências contra periferias permanecem naturalizadas", conta.
Logo, o fenômeno do true crime está longe de algo a ser ignorado, visto que, além de um espelho de feridas sociais e potência econômica dentro do audiovisual, ele é um produto que, assim como qualquer obra, pode impactar posições institucionais, bem como a opinião de tomadores de decisões.
O Caso Evandro acessou autos processuais e revelou gravações que demonstravam tortura durante interrogatórios, o que teria contribuído para que a 1ª Câmara Criminal do TJPR absolvesse os acusados ao reconhecer que eles haviam sido torturados para produzir confissões falsas. O ministro Dias Toffoli mencionou especificamente a produção e elogiou sua importância.
Já o podcast Praia dos Ossos teria colaborado para outro marco relevante: em 2023, o STF declarou inconstitucional a "legítima defesa da honra" como argumento em casos de feminicídio, tese que havia absolvido Doca Street pelo assassinato de Ângela Diniz. Embora múltiplos fatores tenham convergido para essa decisão, a ampla circulação da narrativa recontextualizada mexeu com debates públicos que pressionaram pela revisão.
Até mesmo a nova versão do Linha Direta, apresentada por Pedro Bial, demonstrou impacto de outra forma. Na temporada de 2023, pelo menos três prisões ocorreram em decorrência da exibição dos primeiros episódios do programa, efeito associado à estrutura participativa da atração, na qual a linha telefônica transforma a audiência em uma espécie de "rede de vigilância".
No entanto, quanto ao impacto nas percepções de segurança pública, os efeitos são contraditórios. O foco desproporcional em crimes violentos, embora constituam uma parcela pequena do total de delitos, pode distorcer percepções sociais.
"A popularização do true crime brasileiro tem dado sinais da capacidade de intervenção em processos institucionais. Algumas dessas obras parecem operar como agentes de transformação, ainda que limitados e contraditórios, em sistemas judiciário, policial e legislativo", fala Alves Silva.
Mesmo diante de uma aparente sensação de excesso, há, na verdade, uma escassez de true crime, diante de um mercado tão efervescente. Segundo um levantamento realizado neste ano pela Parrot Analytics, a oferta de séries de true crume nacionais ainda é menor do que a demanda do público brasileiro. Aproximadamente 74% da procura por séries sobre crimes reais na América Latina se concentra em títulos norte-americanos.
Todavia, as séries produzidas localmente costumam ter um desempenho melhor do que as importadas em seus países de origem. O Brasil é o território com o maior engajamento da região. Ou seja, por incrível que pareça, o gênero ainda é negligenciado fora dos Estados Unidos --o que para roteiristas e produtores, representa tanto um sinal de alerta quanto uma oportunidade.
Também segundo pesquisa da Parrot Analytics, as séries documentais cresceram 63% entre janeiro de 2018 e março de 2021, sendo o true crime o maior subgênero da categoria e o que cresce mais rápido entre todos os outros, incluindo esportes.
No Brasil, podcasts como A Mulher da Casa Abandonada atingiram os rankings das principais plataformas, além de ter alcançado um público de 3 milhões de ouvintes por episódio. Em 2025, o podcast Modus Operandi teve mais de 18 milhões de reproduções no Spotify --o programa teve tanto sucesso que ganhou um livro.
O estouro da série Tremembé, que já está com a segunda temporada confirmada para 2026, desencadeou uma verdadeira corrida nos bastidores do audiovisual brasileiro. Produtoras independentes foram acionadas por plataformas de streaming interessadas em repetir a fórmula.
Segundo a colunista Carla Bittencourt, do Portal Leo Dias, plataformas concorrentes e a própria Amazon começaram a vasculhar o mercado em busca de tramas com forte apelo popular, baseadas em casos reais de grande repercussão, preferencialmente já conhecidos do público, como ocorreu com os crimes retratados na série.
A ideia é entregar conteúdos que provoquem debate, identificação imediata e viralizem. A estratégia, de fato, parece certeira. O teaser da segunda temporada de Tremembé, que agora contará com o caso do ex-jogador de futebol Robinho, condenado por estupro, já tomou conta das redes sociais. 2026 promete ser (mais um) ano de true crime no Brasil.
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