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ESCRAVOS DA FÉ

Quase censurada, série da HBO Arautos do Evangelho enfrenta batalha na Justiça

DIVULGAÇÃO/HBO MAX

Escravos da Fé: Os Arautos do Evangelho na HBO

Escravos da Fé: Os Arautos do Evangelho na HBO; série ouviu ex-integrantes do grupo religioso

GIOVANNA RIBEIRO

giovanna@noticiasdatv.com

Publicado em 29/3/2026 - 16h00

A série documental Escravos da Fé: Os Arautos do Evangelho estreou na HBO Max no último dia 11 sem fazer muito alarde. Contudo, mesmo com uma campanha de divulgação discreta, a obra logo chamou a atenção dos espectadores ao abordar uma história polêmica que continua a se desenrolar fora da plataforma por meio de decisões judiciais.

Ao anunciar o lançamento do documentário para 2026, ainda em novembro do ano passado, a Endemol Shine Brasil, produtora da série, divulgou que a obra abordaria denúncias de abuso e manipulação psicológica envolvendo os Arautos do Evangelho --temas que vêm sendo expostos na imprensa há pelo menos dez anos.

Diante do anúncio, representantes do grupo religioso acionaram a Justiça para tentar impedir a veiculação do documentário. O argumento utilizado foi o de que os fatos narrados são alvo de um processo criminal sigiloso conduzido pela Promotoria de Caieiras, em São Paulo, cidade onde a congregação possui uma basílica e mantém o centro de suas operações.

"A série já estava pronta, mas em dezembro a gente recebeu um pedido de não exibição, proibindo o lançamento da série. A gente não poderia estrear. E, em fevereiro, a gente conseguiu reverter com uma liminar e estreamos a série", explicou Adriana Cechetti, representante da Warner Bros. Discovery, em entrevista exclusiva ao Notícias da TV.

"Todas as séries documentais são acompanhadas de perto, desde o começo, por um time jurídico. Então, tudo que a gente faz é respaldado, como nesse caso de Arautos, que as denúncias começaram em 2016. Então, a gente tem pesquisas internas, a gente começou a mapear esse tema já há um tempo. Até porque a gente tem que checar todos os fatos, se aquelas pessoas estão falando a verdade", completou a executiva.

Fundada em 1999 pelo monsenhor João Scognamiglio Clá Dias (1939-2024), ex-membro da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), a associação Arautos do Evangelho foi reconhecida pelo papa João Paulo 2º (1920-2005) em 2001.

De orientação católica tradicionalista, a entidade afirma estar presente em mais de 70 países. Seus membros são facilmente identificados pelo hábito marrom e branco com uma grande cruz no peito, assemelhando-se a cavaleiros medievais --estética que, como mostra a produção da HBO, está diretamente ligada às práticas arcaicas aplicadas entre seus fiéis.

Com três episódios, o documentário utiliza depoimentos de ex-integrantes e familiares sobre supostos abusos psicológicos, físicos e sexuais, além dos métodos coercitivos --inclusive judiciais-- aplicados pelo grupo, expondo a estrutura de poder, a devoção extrema e o estilo de vida nos colégios associados aos Arautos.

"Esse processo ainda não terminou. O processo segue, porque os Arautos podiam recorrer da decisão da Justiça, da última decisão, e eles recorreram. Ou seja, eles seguem tentando agora tirar o conteúdo do ar. Então, digamos que é uma batalha que segue. Mas acreditamos na Justiça e na liberdade de de imprensa, na liberdade de expressão, para que a audiência tenha a oportunidade de assistir à série e o direito de ter acesso a essas informações", defendeu a executiva.

Em 2017, após a morte de Lívia Natsue Salvador Uchida  --membro do grupo que caiu da sacada de seu quarto dentro da instituição--, o Vaticano instaurou uma investigação para apurar denúncias de práticas de exorcismo e cultos a figuras não reconhecidas pela Igreja Católica. Já em 2019, o papa Francisco (1936-2025) determinou uma intervenção na associação após identificar "problemas persistentes" em seus modos de vida.

"A liminar dos Arautos saiu no dia 19 de dezembro. Entre o Natal e o Ano-Novo, o time jurídico falou: 'Estaremos aqui a postos e faremos o que for possível para garantir a exibição dessa série que é de extrema importância para a sociedade'. Então, eu acho legal, assim, como realizadora, ter esse apoio mesmo incondicional das plataformas", declarou Allan Lico, representante da Endemol Shine Brasil, à reportagem.

A série também detalha a movimentação financeira suspeita da instituição e a suposta indução de jovens a atingirem "metas" abusivas. Apesar do imbróglio jurídico, Escravos da Fé chega em um momento propício para o gênero, após o sucesso de O Testamento: O Segredo de Anita Harley, no Globoplay.

"Eu acho que isso fortalece esse núcleo de não ficção e de documentários. Eu, como diretora, fico muito feliz de ver como essas peças, como esses documentários, o próprio Testamento [de Anita Harley], os Escravos da Fé e outros produções da HBO ao longo desse tempo todo, vêm ganhando cada vez mais adesão por parte da audiência", afirmou a diretora Cassia Dian.

Ela ressaltou ainda o cuidado no tratamento com as vítimas e na abordagem visual do tema. "A gente tem uma pesquisadora na série que tinha contato com essas vítimas já há muitos anos. E quando a gente embarca, de fato, no processo de pré-produção, passa a conversar com essas vítimas para que elas de fato venham e exponham aí as suas denúncias nessa série", contou.

"Eu acho que a maior preocupação que a gente tinha lá atrás era não tornar essas cenas de um sensacionalismo muito escrachado, porque a gente está tocando em temas muito sensíveis quando fala de abuso de menores e adolescentes, quando fala de castigos físicos... Então, a gente não quis que fosse tão gráfico, não quis expor dessa maneira. A gente procurou um caminho mais sutil e mais sensível para expor isso visualmente e imageticamente falando", concluiu Cassia.

A diretora ainda destacou a composição da equipe, formada em sua maioria por mulheres. "Esse é um cuidado que a gente tomou, inclusive na escolha de toda a equipe que está com a gente. Temos uma equipe predominantemente feminina, aliás, em todas as cadeiras de direção. Não que os homens não possam ter sensibilidade, mas é importante dizer que a gente tinha ali também uma equipe predominantemente feminina na direção de arte, na fotografia, na luz, na direção de produção, na produção executiva...", finalizou.


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