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Suzy (Giullia Buscacio) e Mirna (Mel Maia); irmãs e herdeiras do jogo do bicho se tornam rivais
Depois do sucesso de Vale o Escrito (2023), que revelou as engrenagens e os confrontos sangrentos do jogo do bicho no Rio de Janeiro com uma autenticidade surpreendente, Os Donos do Jogo, nova série da Netflix, tenta transportar o mesmo universo para oito episódios de ação. Mas, de maneira contraditória, acaba lembrando o público de que a realidade continua sendo um roteiro muito mais fascinante do que a ficção.
Vale o Escrito é uma série documental do Globoplay que investiga as origens do jogo do bicho, sua estrutura de poder e as disputas entre famílias contraventoras nas últimas décadas. A produção aborda como esse aparato se consolidou, em especial a partir dos anos 1970, com a formação da chamada "cúpula da contravenção", grupo responsável por dividir territórios e organizar o negócio ilegal das apostas.
São retratadas figuras centrais da contravenção: chefes de famílias que atuam como patronos, inclusive de escolas de samba, e como eles usam seu poder nas comunidades, a partir da violência, da influência social e da impunidade. O formato chocou com entrevistas inéditas de bicheiros, herdeiros, familiares, jornalistas e historiadores.
Já em Os Donos do Jogo, a história é centrada em Profeta, interpretado por André Lamoglia. Filho de um bicheiro (Adriano Garib) baixo clero de Campos dos Goytacazes (RJ), ele tem planos de crescer na contravenção carioca e se sentar na mesa de decisões onde outras grandes famílias seguram as rédeas.
Segundo o diretor Heitor Dhalia (também responsável por DNA do Crime), a série tenta ser um "Game of Thrones do bicho", fugindo das referências óbvias com o que foi revelado dois anos antes no documentário da Globo. Todavia, as comparações não se dão por acaso.
Assim como as gêmeas rivais Shanna e Tamara Garcia, que seguem em disputa pela herança do bicheiro Maninho Garcia, Os Donos do Jogo explora a rivalidade entre as irmãs Suzana (Giullia Buscacio) e Mirna (Mel Maia). Bem como a questão de que, para conseguir um lugar na cúpula, elas precisam de maridos que assumam os negócios e representem seus interesses.
No caso de Suzana, surge a figura de Búfalo (Xamã). O novo herdeiro do pai das irmãs, todavia, terá que lidar justamente com a fúria da cunhada, em sociedade com o ambicioso Profeta --seu interesse romântico e sobretudo, parceiro de negócios.
A produção tem muitos acertos --não à toa, tem gerado boa repercussão nas redes e na audiência da plataforma. E apesar de claramente se inspirar nas histórias reais, temperadas ao longo da trama, até para não reproduzir de maneira literal, ela busca modernizar o debate, trocando o velho jogo do bicho pelos novos vícios nacionais, como bets, e até esquemas com criptomoedas e golpes digitais. Na trama, as maquininhas caça-níqueis, o auge da modernidade do bicho, já são coisa ultrapassada.
O problema é que, ao mirar o contemporâneo, a série perde justamente o destaque que torna o jogo do bicho algo tão curioso: a dose de brasilidade que conseguiu transformar os líderes contraventores em personalidades carismáticas. É o maior diferencial de se adaptar essa história nas telas, e não transformá-la em mais uma produção nacional sobre tráfico ou milícia. Vale dizer que Os Donos do Jogo é tudo, inclusive bem feito, menos carismático.
Enquanto o documentário da Globo mergulhava no submundo do poder nascido a partir de um jogo popular, Os Donos do Jogo adota uma jornada de herói estilo Rocky Balboa, centrada em um protagonista ambicioso que tenta vencer inimigos gigantes. É uma escolha segura, mas se distancia da crueza que marca o imaginário popular em torno dos bicheiros. É como se voltasse seu olhar mais para "fora", ou para uma ideia de mafioso estrangeira, do que para "dentro".
A estética também contribui para o estranhamento. A fotografia polida, quase de cartão-postal, não combina com um universo periférico e cheio de camadas. E até a justificativa de que os novos bicheiros já não são os contraventores dos anos 1970, e agora de fato se concentram em apartamentos da zona sul ou em casarões da Barra da Tijuca, não resolve esse incômodo. É tudo muito esterilizado.
Com isso, a série não teve ousadia para se equiparar à vida real. Mesmo com atuações consistentes e um elenco acima da média, Os Donos do Jogo joga limpo demais. O resultado é uma produção sólida e bem conduzida, mas que fala mais com quem busca cenas de ação corretas e bem executadas do que com quem se interessa pelas tramas da máfia brasileira.
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