ROMEU BENEDICTO
REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

O ator Romeu Benedicto, de Guerreiros do Sol, também está em Os Donos do Jogo, na Netflix
Os Donos do Jogo chegou à Netflix na última semana e já alcançou bons números na plataforma. A primeira leva de episódios da série nacional, que transforma em ficção as sangrentas disputas dentro do universo da contravenção no Rio de Janeiro, deixou algumas pontas soltas e pistas que podem render uma segunda temporada, ainda não confirmada. Entre elas, o lado mais político do jogo do bicho --que mesmo decisivo, poucos notaram.
O ator Romeu Benedicto (de Guerreiros do Sol) é quem dá vida ao deputado Mandele Neto, que surge na trama de maneira discreta como o parlamentar interessado em legalizar o jogo do bicho. E deixa os bicheiros, sobretudo o novato Profeta (André Lamoglia), no mínimo curiosos com a proposta.
"No nosso cenário político brasileiro, não é difícil vermos essas referências, a todo momento nos deparamos com agentes políticos que foram eleitos exatamente para o jogo", conta Benedicto em entrevista ao Notícias da TV.
Para o ator, é comum se deparar com situações na vida real em que os interesses defendidos por representantes eleitos, que deveriam agir em nome do povo, acabam sendo particulares e voltados à manutenção do poder, muitas vezes associados ao crime organizado. O seu personagem em Os Donos do Jogo é descrito como um desses parlamentares, diretamente envolvidos com os negócios escusos da contravenção.
"Eu já havia assistido ao documentário Vale o Escrito e fiquei muito impressionado com as rivalidades entre as famílias, principalmente motivadas pela dominação de territórios e estabelecimento do poder, bem parecido ao nosso cenário político. E o mais curioso é que o que mantinha tudo isso é a esperança de ganho fácil de dinheiro com um jogo", explica Benedicto.
Apesar de tentar não atribuir nenhum juízo de valor ao seu personagem ou à posição que os protagonistas da trama ocupam, o ator acredita que essas figuras revelam um desvio moral profundo, desconectado do que seria certo em uma sociedade justa. "Um fenômeno social que foi enraizando no poder, que viu uma forma de dominação, alimentada pelo próprio povo e suas mazelas. O poder alimentando a chamada falsa consciência", opina o ator.
Para o ator, o público é que precisa se enxergar, direta ou indiretamente, nos personagens retratados na tela. "Aí ele opina, decide, julga e reflete", observa. Segundo Benedicto, o primeiro exercício é encontrar o objetivo do personagem, seu raciocínio e o que o move.
"Aí começa a diversão em brincar com essa sombra do narcisismo, do egoísmo, da malandragem, que são coisas humanas e por isso existem verdadeiramente em qualquer um de nós, e em níveis de consciência diferentes", completa.
Ao comentar o enredo de Os Donos do Jogo, o ator afirma que a série, ao retratar a disputa de poder entre as famílias da cúpula do jogo do bicho, "nos mostra o embrião dessa simbiose entre diversão popular, política, poder e crime, e como se institucionalizou e ramificou no Rio de Janeiro".
Para ele, esse contexto acaba servindo de modelo para o que considera "o padrão da máfia brasileira". "A arte escancara, expõe e mostra o ser humano sempre com a intenção de levar vantagem em tudo, seja pela influência, pelo poder, pela truculência. Cabe a nós refletirmos qual é a sociedade que queremos", declara.
Romeu Benedicto ainda elogia a condução do projeto por Heitor Dhalia (de DNA do Crime), descrevendo Os Donos do Jogo como "uma produção muito bem executada e conduzida com cuidado". Segundo o ator, a obra dialoga diretamente com o público, "especialmente com o carioca".
Apesar do requinte, ele destaca que a série tem uma essência popular. "Além disso, ela perpassa pela paixão popular brasileira, o Carnaval, e principalmente no Rio, o jogo do bicho, de certa forma, assume um pano de fundo inserido a essa paixão. Por tudo isso, é uma obra maravilhosa, tanto pela sua execução quanto pelo seu significado, é uma obra universal", defende.
© 2025 Notícias da TV | Proibida a reprodução
Mais lidas
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.