A gente manda.
Você recebe.
Depois manda a real pra todo mundo.
LÍVIA GAUDÊNCIO
REPRODUÇÃO/GLOBOPLAY e DIVULGAÇÃO

Raul Seixas (Ravel Andrade) na série do Globoplay: Lívia Gaudêncio está entre roteiristas
Única mulher na sala de roteiristas de Raul Seixas: Eu Sou, do Globoplay, Lívia Gaudêncio se conectou com o cantor justamente pela sua vertente mais mística e anárquica. A escritora chegou a sonhar com a música Por Quem os Sinos Dobram? durante o trabalho nos bastidores --e, não à toa, foi responsável por algumas das cenas mais lisérgicas da produção.
"Acho que minha maior contribuição neste trabalho foi na ampliação dos aspectos simbólicos e imagéticos da trama", explica a roteirista, em entrevista exclusiva ao Notícias da TV.
"Só pra citar uma sequência que eu propus, como exemplo, quando Raul está em crise em seu casamento, ele participa de um ritual iniciático e sente a aliança queimar em seu dedo. Depois disso, ele vê o teto se abrir para ele e um cometa cruzar o céu estrelado, coroando a resolução interna que ele já tomou de abandonar a relação", complementa.
Lívia estava em Portugal fazendo mestrado quando surgiu o convite para se juntar ao time de roteiristas. "Entrei para colaborar com meu olhar feminino sobre a construção da narrativa. Poderia ter sido uma experiência intimidadora ser a única mulher da equipe, mas tive muita sorte de trabalhar ao lado de homens sensíveis e generosos", diz.
Além da série, a profissional dirige a Gautu Filmes e produz obras de temática feminina, como a websérie Steam Girls:
Tudo que pensamos é fruto da elaboração das nossas experiências de vida, seja através de livros, viagens, filmes, pessoas, sonhos, traumas etc. Qualquer pessoa, quando cria histórias, acessa seu repertório pessoal. Sinto que criar essas longas narrativas de amplo alcance é só uma versão coletiva e aprofundada do processo de criar histórias cotidianas para os meus filhos.
A roteirista também destaca a experiência de liderar e atuar no curta Onde Está Você Agora?, realizado com equipe majoritariamente feminina:
Conciliar tantas funções dentro do mesmo trabalho foi um grande desafio e, justamente por este motivo, quis me cercar de pessoas sensíveis e competentes para que eu pudesse me entregar à personagem dentro do set. A decisão por priorizar mulheres na equipe foi um ato político. Nós ainda somos sub-representadas nas posições de liderança no mercado audiovisual e recebemos 76% dos salários dos homens.
Ao abordar temas como a perda gestacional e o cuidado com uma mãe com Alzheimer, Lívia buscou inspiração tanto em vivências pessoais quanto em relatos de outras mulheres.
"Para construir o roteiro, acessei memórias da minha avó paterna, que faleceu com Alzheimer, e conversei com diversas mulheres que viveram um aborto espontâneo ou cuidaram de pessoas com a doença. Mas meu foco com o filme é mostrar os sonhos como uma possibilidade mais expandida de experiência da mente", avalia.
Por fim, Lívia ressalta que a luta por visibilidade e respeito como roteirista e diretora em um mercado ainda dominado por homens segue como desafio.
Minhas escolhas artísticas têm sido bastante pautadas no protagonismo feminino e na desconstrução de estereótipos de gênero dentro das histórias. Tento priorizar equipes femininas, produzi o Levante! Festival Internacional de Mulheres em Cena e participo de grupos que discutem maneiras de minimizar as desigualdades de gênero. Criar histórias é a minha forma de estar no mundo, impulsionada pelo desejo criativo que supera qualquer dificuldade.
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