LÉSBICAS, SANGUE E PAIXÃO

Monstro: A História de Lizzie Borden quebra as regras do true crime (e isso é ótimo)

DIVULGAÇÃO/NETFLIX

Duas mulheres de trajes de época observam algo discretamente por trás de uma cortina ornamentada com franjas e borlas: à esquerda, uma mulher de cabelo castanho apanhado e vestido azul-escuro olha com curiosidade e boca entreaberta; à direita, em primeiro

Ella Beatty e Vicky Krieps em Monstro: A História de Lizzie Borden: série é ode à imaginação

DANIEL FARAD

vilela@noticiasdatv.com

Publicado em 24/9/2026 - 14h00

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Os fãs mais fervorosos de true crime torceram o nariz para Monstro: A História de Lizzie Borden, mas não poderia haver sinal melhor para a Netflix. Afinal, a série antológica de Ryan Murphy --de Nip/Tuck (2003-2010) e American Horror Story-- recupera uma coisa que já estava perdida há tempos no gênero: a capacidade de imaginar outros passados (e também futuros) possíveis.

A trama não é exatamente perfeita, tem vários problemas, mas consegue contorná-los da maneira mais Ryan Murphy possível. Em alguns momentos, a produção chega a ser mais parecida com a própria American Horror Story do que as demais temporadas da antologia Monstro.

A história de Lizzie Borden (Ella Beatty) parece um recado direto do showrunner para o audiovisual: a realidade é muito chata, assim como a profusão de produções true crime que tomaram conta do streaming nos últimos anos. Nem tudo precisa ser uma investigação detalhada, nem tudo precisa seguir à risca o que aconteceu de fato.

Antes de tudo, Monster é uma celebração do próprio ato de fabular. Como ironizava o escritor Vladimir Nabokov (1899-1977), a arte nasceu no exato instante em que um ser humano gritou "lobo" sem que houvesse perigo algum --uma lembrança de que a literatura e, por extensão, a narrativa audiovisual são construídas sobre a fascinante arte de mentir.

A graça de Monstro são justamente as liberdades tomadas por Murphy que irritaram (e muito) os fãs do true crime. Um dos maiores prazeres de assistir à série reside não na busca pela verdade, mas pelas referências deixadas por lá: elas vão de Midsommar - O Mal Não Espera a Noite (2019) até o cinema soviético, com A Cor da Romã (1969), de Sergei Parajanov (1924-1990).

Não à toa, um dos momentos mais interessantes da série é justamente uma metáfora, na cena em Bridget (Vicky Krieps) revê a sua ética quanto aos assassinatos principais. Ela pinta os cabelos de vermelho com a ajuda de uma romã, num paralelo com a mitologia grega: Perséfone aceita viver no Inferno após ser raptada por Hades justamente ao comer três sementes da fruta.

Monstro pode até pecar por às vezes ser didática demais --como no monólogo em que Aileen (Sarah Paulson) reclama da opressão quando as mulheres--, mas acerta justamente por ser exagerada, fantasiosa, alucinada. Não há lições de moral, não há adrenalina do "baseado em fatos": o que existe é a boa, velha e cada vez mais rara ficção.


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