25 ANOS DEPOIS

Fruto de otimismo, Os Normais dribla programas de humor e resiste ao tempo

Reprodução/Memória Globo

Foto de Rui (Luiz Fernanda Guimarães) e Vani (Fernanda Torres) em episódio de Os Normais

Rui (Luiz Fernanda Guimarães) e Vani (Fernanda Torres): Os Normais completou 25 anos em junho

MATHEUS QUEIROZ

matheus@noticiasdatv.com

Publicado em 3/7/2026 - 6h10

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Há 25 anos, a Globo exibia a primeira temporada de Os Normais (2001-2003). Protagonizada por Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres, a série escancarou tabus, abordando temas relacionados a sexo e escatologia, mas tentou dar a devida banalidade a eles. Por isso, segue surpreendentemente atual, superando questionamentos sobre piadas datadas que afligem outros programas de humor da mesma época.

Em entrevista exclusiva ao Notícias da TV, Alexandre Machado, autor da série ao lado de Fernanda Young (1970-2019), afirma que o projeto foi fruto de "uma época otimista para a humanidade". "É difícil ter um casal hoje em dia com essa liberdade entre eles, essa paixão pelo que o outro é, sem se preocupar com o que vão pensar. É mais moderno ainda hoje, porque as pessoas deram um passo atrás em liberdade pessoal", avalia.

Em janeiro do ano passado, movido pela indicação de Fernanda ao Oscar, Os Normais teve um aumento de consumo de 263% no Globoplay. O sucesso no streaming, naturalmente, apresentou a produção para novas gerações.

Nesse contexto, também há o risco de um movimento anacrônico. Entre os novos espectadores, existem aqueles que assistem às séries com os filtros da atualidade, ignorando que elas são fruto de um tempo em que discussões sobre diversidade ainda engatinhavam.

No âmbito global, uma famosa vítima desse debate é Friends (1994-2004), que tem piadas gordofóbicas e uma representatividade quase nula. No Brasil, a discussão voltou à tona recentemente após a entrevista de Miguel Falabella no Roda Viva. Questionado sobre o Caco Antibes de Sai de Baixo (1996-2002), o ator declarou que o personagem jamais existiria nos dias de hoje, pois "a televisão está com muito medo de desagradar".

Os Normais não está livre de falas machistas, racistas e homofóbicas, que precisam ser revistas e, sim, criticadas. Mas ao contrário de produtos da mesma década, como A Diarista (2004-2007) e Toma Lá, Dá Cá (2007-2009), a série de Machado e Fernanda construiu sua base na natureza humana e nas incoerências das relações afetivas, muito além de piadas ou estereótipos.

Para Machado, as obras não podem ignorar a existência de pessoas problemáticas. "A comédia existe a partir da falha, quando tentativas dão errado. Se você for mentir sobre isso, se for evitar o erro pessoal, de julgamento, para comédia, é a morte. Ficam dois chatos em casa falando sobre cinema japonês, não dá."

Fã da série, o jornalista Pedro Willmersdorf transformou Os Normais em estudo para seu trabalho de conclusão de curso na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), no qual se debruçou sobre a linguagem do programa e sua relação com o cotidiano. "Gostava muito de como o banal e o cotidiano, o que a gente acha que é pueril do dia a dia, poderia se tornar piada, gancho, um texto bacana para a gente rir", explica ele.

Para Willmersdorf, a série não envelheceu mal porque trata de maneira debochada, irônica e sarcástica questões que permaneceram em pauta. 

Os Normais aborda a rotina de um casal que escolheu viver em casas separadas para preservar a individualidade; que não transforma fidelidade em prova de amor, muito antes de a mídia explorar outros formatos de relação, como a poligamia; e que rejeita a possibilidade de filhos --posicionamentos que geram críticas a muitas celebridades 25 anos depois.

"Em Os Normais, há uma contestação irônica da heteronormatividade, de pactos heteronormativos. Fazendo parte da comunidade LGBTQIA+, a gente, de fora, ri de muitas coisas, acha muitas coisas patéticas, mas, naquele momento, Alexandre e Fernanda já ironizavam", detalha. 

O jornalista também destaca que era atraído pela forma natural com que os autores tratavam temas que nem sempre ganhavam o mesmo ar de naturalidade em outros formatos.

"O Rui e a Vani se traíam constantemente, algo que, às vezes, em uma novela, se torna um mote para uma narrativa de grande tempo. Em Os Normais, isso era tratado com uma banalidade", relembra.

Apesar das discussões, Machado afirma que nunca houve a intenção explícita de fazer algo moderno. "Não acredito que esteja à frente do tempo. Está para sempre no tempo do ser humano, que é igualzinho há muito tempo", reflete.

Entre os humoristas atuais, é nítida uma divisão política: nomes como Fabio Porchat e Gregorio Duvivier estão alinhados com a esquerda, enquanto figuras como Danilo Gentili e Leo Lins têm um discurso mais voltado para as pautas da direita. Para Willmersdorf, Os Normais incomodaria os dois lados.

"Eles jamais seriam abraçados pela direita por conta da caretice e da falsa hipocrisia, mas, ao mesmo tempo, também incomodariam alguns setores da esquerda, porque existe um certo receio do contraditório em todos os campos hoje em dia. As pessoas querem ter certeza das coisas, elas não querem se sentir desconfortáveis", conclui.


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