CATARSE FÁCIL
REPRODUÇÃO/GLOBOPLAY

Téo (Jaffar Bambirra) em Dias Perfeitos; último capítulo da série troca completamente de clima
[ALERTA: O texto não só conta com spoilers sobre a série, como também toca em temas sensíveis como assédio sexual e violência de gênero] A série Dias Perfeitos, do Globoplay, me levou a um movimento inverso ao da maioria dos telespectadores: em vez de comparar a produção ao livro de Raphael Montes já de saída, fui conhecer a obra original apenas depois de assistir à adaptação. Queria entender por que tanta gente se incomodou com --ou elogiou-- a mudança feita no desfecho.
E foi aí que veio a surpresa: a produção suavizou o destino de Clarice (Julia Dalavia), oferecendo a ela um "final feliz” (dentro do possível, com todas as aspas), em contraste ao livro, em que o vilão Téo (Jaffar Bambirra) triunfa. O resultado é que a série perde a força que a narrativa de Montes (que fez parte do time de roteiristas, aliás) carregava justamente no choque e na ousadia do desfecho original.
Essa sensação de frustração fica ainda mais forte porque a diretora Joana Jabace não só manteve como aprimorou um mecanismo que já vinha da obra impressa. O livro é inteiramente contado do ponto de vista de Téo, ou seja, de um narrador não-confiável.
A série também parte dessa perspectiva, em que um dos principais trunfos é mexer com as sombras (o arquétipo junguiano que representa os aspectos da personalidade que foram reprimidos e negados) do telespectador. Todo mundo, em algum grau, estabelece uma relação de reconhecimento com o antagonista.
Dias Perfeitos faz com que o seu público se confronte por sentimentos que podem ser espelhados em alguém que deveria, na verdade, causar ojeriza: a rejeição, a dó, até mesmo o desejo de que a mãe morra (o que acaba sendo não só retórico na história), de ter sido "roubado" pela vida.
E aí, espertamente, a série acrescenta o ponto de vista de Clarice. Essas inserções servem não apenas para confrontar o que se viu durante a parte dedicada a Téo, mas também para aumentar o desconforto do telespectador --do horror de ter se visto espelhado em alguém capaz de violências tamanhas, do cárcere privado ao estupro.
Um dos pontos mais interessantes de Dias Perfeitos é justamente o fato de ter sido pensada para o streaming, sem a necessidade de agradar ao público amplo da TV aberta. Até o penúltimo capítulo, a série raramente faz concessões: aposta no desconforto, explora ambiguidades e exige um olhar atento do espectador, já que a narrativa está repleta de armadilhas.
Esse formato também permite outro diferencial. Ao escolher assistir à produção --em vez de encontrá-la por acaso em uma grade linear-- o público estabelece um pacto mais consciente. A série, então, pode acionar gatilhos emocionais e até traumas de maneira muito mais intensa do que uma novela faria, já que parte de um acordo tácito: quem dá o play sabe de antemão que lidará com temas sensíveis.
Esse pacto é rompido muito bruscamente no último capítulo, em que o desconforto é trocado pela catarse (fácil) de ver Clarice --em algum grau-- ter uma vitória sobre Téo. A protagonista é quase colocada como uma "final girl" dos filmes de terror, quanto toda a construção anterior vai na contramão.
Afinal, outro acerto de Dias Perfeitos é fazer com que o público não simpatize de cara com Clarice. Ela é mimada, trata mal o namorado, abusa dos sentimentos da melhor amiga lésbica, não tem o menor pudor de torrar o dinheiro dos pais --mais uma vez ali mexendo com o âmago mais punitivista do telespectador.
A produção do Globoplay adota caminhos antagônicos: durante sete episódios, confronta o espectador com suas próprias sombras, mas no desfecho oferece uma saída relativamente confortável, uma esperança artificial. É como se dissesse: "Veja, você não é tão ruim assim quanto o Téo, não precisa se preocupar".
O final de Dias Perfeitos também reflete um produto muito específico de um novo tipo de leitor e espectador que vem se consolidando nos últimos anos. De um lado, cresce no Brasil o consumo de literatura young adult --voltada para adolescentes e jovens adultos-- por faixas etárias cada vez mais velhas. O problema não está nos textos em si, que são mais diretos e menos cinzentos porque dialogam com um indivíduo ainda em formação, mas no risco de essa estética se transformar em uma muleta narrativa.
Até Vale Tudo esbarrou nesse fenômeno quando parte do público surpreendentemente torceu por uma reconciliação entre Marco Aurélio (Alexandre Nero) e Heleninha (Paolla Oliveira), interpretando-os pela lente do enemies to lovers (de inimigos a amantes, em inglês), fórmula consagrada nesse meio, Mas o remake propunha outra leitura: a de uma relação esgotada, dolorosa e sem respostas fáceis sobre quem estava certo ou errado.
Outro ponto importante é que a autoficção vem crescendo dentro da literatura contemporânea, em que o autor e o narrador se confundem várias vezes. Não é o caso de Raphael Montes, a quem espero que não tenha comido carne humana para escrever Jantar Secreto.
O mais curioso é que o escritor se tornou alvo de comentários nas redes sociais de que seria uma pessoa "misógina" ou um "psicopata" em sua vida pessoal por ter escrito um final tão pavoroso para a versão impressa de Dias Perfeitos. Um sinal de que esse espectador que não é capaz de determinar até onde vai a ficção e a realidade está cada vez mais comum.
No fim, a adaptação de Dias Perfeitos parece sintetizar esse choque de gerações e linguagens: entre a literatura que aposta no desconforto e na ambiguidade e o consumo audiovisual cada vez mais moldado por fórmulas palatáveis e por um público que espera finais digeríveis.
Ao suavizar o desfecho, o Globoplay talvez tenha conquistado quem rejeita o choque, mas abriu mão justamente do impacto que fez o livro de Raphael Montes ganhar relevância. O resultado é uma obra competente, sofisticada em muitos aspectos, mas que hesita no momento em que deveria ser mais ousada.
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