GABRIEL MARTINS
DIVULGAÇÃO/CANAL BRASIL

O cineasta Gabriel Martins é um dos grandes nomes por trás da produtora Filmes de Plástico
Depois de emplacar Marte Um como a escolha brasileira para o Oscar 2023 e consolidar prestígio no cinema nacional, a produtora mineira Filmes de Plástico decidiu dar um passo fora de seu território habitual e lançou sua primeira série para a TV. O Natal dos Silva, criação de Gabriel Martins em parceria com o Canal Brasil, não nasceu de uma estratégia para disputar o mercado de séries. Ainda assim, segundo o diretor, o projeto acaba se destacando em meio a tantas produções "sem personalidade" --embora extremamente populares-- que estreiam nos streamings.
Em entrevista ao Notícias da TV, Gabriel Martins criticou "o modo de produção das séries brasileiras no geral". Segundo o diretor e criador de O Natal dos Silva, sobram produções nacionais, mas falta risco. "Grande parte do que chega no público é feita dentro de uma 'estrutura de streaming'. Ou seja, o processo de desenvolvimento das séries é superlongo, padronizado, e isso tende a eliminar dissonâncias ou ideias mais arriscadas que possam de fato, surgir como algo interessante, que balance um pouco o sistema", declarou.
Gabriel Martins afirma que, além disso, há uma tendência entre muitos executivos de lidar com as séries, sempre buscando uma padronização motivada por questões mercadológicas. Ele disse acreditar que isso não ocorre apenas no Brasil, mas no mundo todo.
Ainda assim, observou que, particularmente no contexto brasileiro, quase não há espaço para produções arriscadas: obras que desafiem o público ou ofereçam outros formatos, seja em duração dos episódios, proposta, estética ou modo de gravar.
Segundo ele, a sensação é de que as pessoas evitam romper regras, o que acaba resultando em uma cinematografia de séries que, em sua visão, soa excessivamente semelhante. Contudo, Martins faz questão de destacar as produções que conseguem escapar desse padrão. "Acho que um bom exemplo disso é Pablo e Luizão, que é uma série feita dentro de um sistema, mas que está ali a alma do Paulo Vieira, e eu acho isso muito positivo, acho isso muito legal", valorizou.
"Temos vários gêneros, série de terror, true crime, série de drama, série de ação, tem muita coisa sendo feita... Eu já tentei ver muitas dessas séries, algumas eu achei mais legal, outras não, às vezes eu sinto falta de chegar e ver uma coisa que realmente tem personalidade, que realmente eu consigo ver: 'Nossa, isso aqui tem a alma de uma pessoa dentro'", declarou.
À época em que Marte Um ainda poderia chegar ao Oscar, Gabriel Martins passou por um lugar parecido ao que Kleber Mendonça Filho ocupa agora, em campanha para O Agente Secreto. Apesar de distintos, ambos fogem do eixo Rio-São Paulo e são "muito interessados pela identidade do lugar" onde vivem. O que faz o diretor compreender muito bem os questionamentos de Mendonça Filho sobre o rótulo de "regional".
O cineasta pernambucano se defendeu de críticas sobre sua filmografia em outubro, na pré-estreia de O Agente Secreto, em São Paulo. "Nunca me vi e me coloquei como regional. Sou parte do Brasil [...]. Meu ponto de vista é brasileiro, com base em Recife, Pernambuco", explicou o diretor do longa-metragem representante brasileiro na corrida pelo Oscar 2026.
Martins disse compreender totalmente o incômodo expresso por Kleber Mendonça Filho. Segundo ele, ambos sentem que seus projetos às vezes são enquadrados de maneira limitada --algo que, na visão do cineasta, fica evidente quando se faz um simples exercício de inversão. "Nunca se fala de projetos norte-americanos como 'angelinos', mesmo quando se passam em Los Angeles", observou à reportagem.
Martins argumentou que esses adjetivos acabam surgindo porque o Brasil ainda não desenvolveu uma cinematografia suficientemente ampla em regiões como Minas Gerais ou Recife a ponto de torná-las normativas dentro do audiovisual. "Embora a gente tenha muita coisa", ponderou, lembrando que tanto ele quanto Kleber já possuem obras consistentes que deveriam, por si só, afastar essa leitura simplista.
"Eu fiz O Natal do Silva aqui em Minas, tem atores todos com sotaque mineiro, mas essa mesma história não poderia se passar só aqui. Ela poderia se passar em vários outros lugares. Então, eu não acho que existe um desejo de renunciar a uma identidade. Não acho que o Kleber também se sinta assim, somos muito interessados pela identidade do lugar onde a gente vive. Todas as formas dessa identidade estão expressas. Mas eu acho que, acima de tudo, não queremos limitar essa visão", defendeu.
Rodados em Belo Horizonte, os cinco episódios de O Natal dos Silva acompanham uma família negra, que carrega o sobrenome mais comum entre os brasileiros, e que vive as primeiras festas depois da perda de sua matriarca. O luto deixa todos à flor da pele e os conflitos, ora hilários, ora tristes, parecem inevitáveis.
A série é exibida todas as quintas, às 21h30, no Canal Brasil, com um episódio por semana. As reprises vão ao ar às sextas, 22h30; aos sábados, 23h; aos domingos, 19h; e às quartas, 20h30.
O canal também prepara maratonas especiais: em 25/12, a partir das 19h (com os quatro primeiros episódios e a estreia do quinto); em 27/12, às 20h30; em 28/12, às 16h30; e em 2/1/2026, às 23h. A produção também terá exibição semanal no Globoplay.
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