SÉRIES E DOCS
DIVULGAÇÃO/PRIME VIDEO E HBO MAX

Marina Ruy Barbosa e Marjorie Estiano protagonizaram séries de true crime no Prime e na HBO Max
Novembro de 2025 escancarou o apetite do público brasileiro por narrativas criminais --e, ao mesmo tempo, evidenciou como o país se dividiu entre dar voz às vítimas e reacender o fascínio controverso por criminosos de casos amplamente divulgados na imprensa. Em menos de quatro semanas, chegaram às plataformas três produções de true crime: Tremembé, Ângela Diniz: Assassinada e Condenada e Eloá: Refém ao Vivo.
O que as três produções revelam é que o Brasil vive hoje um momento singular do true crime. O gênero amadureceu ao ponto de abarcar abordagens divergentes, que vão do sensacionalismo estético ao resgate histórico, passando pela reconstrução documental de tragédias recentes e antigas.
Apesar de partirem do mesmo gênero, os streamings adotaram caminhos narrativos diferentes, como um mapa emocional do Brasil quando o assunto é true crime. Enquanto Tremembé dá voz aos criminosos condenados que estiveram detidos no presídio "VIP" do interior de São Paulo, Ângela Diniz e Eloá colocam o foco unicamente nas vítimas.
O lançamento que abriu o mês foi Tremembé, do Prime Video, um híbrido entre documentário e ficção que dramatiza os bastidores do presídio conhecido como "a cadeia dos famosos". É ali que crimes de grande repercussão são revisitados sob a perspectiva dos próprios condenados --interpretados por atores, mas com um tom calculadamente realista. O roteiro é inspirado nos livros de Ullisses Campbell.
Suzane von Richthofen, Cristian Cravinhos e Elize Matsunaga voltam ao centro do palco, em uma narrativa que recria conversas, alianças e tensões dentro da prisão. É um produto construído para causar impacto.
Pela escolha de iluminar criminosos, a série gera debate sobre a glamourização do crime, exposição indevida e exploração da curiosidade pública. Ainda assim, nada impediu Tremembé de se tornar um dos grandes sucessos do Prime Video --tanto que a plataforma já anunciou a renovação para a segunda temporada, que mostrará o jogador Robinho.
A resposta à estética de "vilões em foco" veio logo na semana seguinte, com o contraponto de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, da HBO Max. Se Tremembé dá palco a assassinos, a minissérie estrelada por Marjorie Estiano devolve a centralidade à vítima --uma mulher assassinada em 1976 e frequentemente apagada por narrativas que, durante décadas, se voltaram para Doca Street (1934-2020), condenado pela morte dela.
Inspirada no podcast Praia dos Ossos, a produção repõe Ângela no lugar de protagonista, expondo o machismo estrutural da época, o julgamento moral da sociedade e a ligação com o debate atual sobre feminicídio. É uma obra que olha para trás com raiva, delicadeza e densidade, tudo através dos olhos da própria Ângela.
Com um episódio liberado semanalmente na plataforma, a série coloca o público para presenciar os bastidores do assassinato de uma forma mais íntima, quase como um seriado de suspense que mistura o drama de uma mulher da década de 1970. A morte não é propriamente o foco, e sim a reconstrução de uma versão do que a vítima viveu antes de ser morta.
Já Eloá: Refém ao Vivo, da Netflix, ocupa uma terceira via dentro desses lançamentos envolvendo os crimes brasileiros. Sem atores e sem dramatização ficcional, o filme documental revive o sequestro transmitido ao vivo em 2008, que escancarou os erros da polícia e os abusos da mídia na cobertura de tragédias.
Com depoimentos inéditos do irmão da adolescente, Douglas, e da amiga Grazieli, o longa recupera a voz da vítima a partir de arquivos reais, trechos do diário e testemunhos emocionais --mas se perde nos próprios depoimentos e acaba raso demais para um caso que já foi desdobrado inúmeras vezes.
O formato da produção da Netflix é o mais tradicional dos três lançamentos, mas também é o que poderia ser mais visceral, já que reabre uma ferida coletiva ainda sensível, num formato jornalístico familiar aos olhos.
© 2026 Notícias da TV | Proibida a reprodução
Mais lidas
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.