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RENATA DI CARMO

Criadora de (In)Vulneráveis avalia diversidade na TV: 'Longe de ser perfeita'

DIVULGAÇÃO

Renata Di Carmo posa nos bastidores da série (In)Vulneráveis

Renata Di Carmo é criadora, diretora, roteirista e atriz de (In)Vulneráveis, série do Universal TV

MÁRCIA PEREIRA, colunista

marcia@noticiasdatv.com

Publicado em 19/4/2026 - 18h00

Aos 46 anos, Renata Di Carmo vive um dos momentos mais consistentes de sua trajetória no audiovisual brasileiro. Criadora, diretora, roteirista e também atriz de (In)Vulneráveis, série do Universal TV, ela usa o projeto para retratar um Brasil real. A partir desse olhar, a autora analisa o atual cenário da diversidade na TV.

Embora reconheça avanços recentes, Renata é direta ao afirmar que o movimento ainda está distante do ideal. "É um momento muito importante, em que a gente pode olhar para a tela e se reconhecer mais. É perfeito? Não, está longe de ser", diz a autora em entrevista exclusiva ao Notícias da TV.

Para a multiartista, o crescimento da representatividade não elimina lacunas históricas. Segundo a roteirista, a televisão brasileira começou a refletir melhor a pluralidade do país, mas ainda precisa aprofundar esse processo. "A gente está se vendo mais, vendo mais a história do nosso país, olhando por outros lugares. Mas ainda há muito caminho pela frente", afirma.

Ela destaca que diversidade não se resume à presença, mas à maneira como essas histórias são contadas e também à profundidade delas.

(In)Vulneráveis surge, nesse contexto, como uma resposta prática a essa discussão. Na trama, Renata interpreta a psicanalista Alice, responsável por acompanhar a supervisora de enfermagem Regina, vivida por Zezé Motta. A série se estrutura a partir da rotina de profissionais da saúde e mergulha em temas como saúde mental, burnout, etarismo e violência psicológica.

A proposta é deslocar o foco tradicional das tramas médicas e dar protagonismo a quem geralmente fica à margem. "É uma série médica em que os casos não são necessariamente o foco principal, mas as pessoas por trás dos uniformes", explica.

Ao colocar a enfermagem no centro, a produção também expõe questões estruturais do país. Esse compromisso com histórias mais autênticas acompanha toda a carreira da artista. Renata reforça que seu objetivo não é apenas levantar pautas sociais, mas provocar identificação.

A gente não está fazendo um tratado social. É sobre se afetar e afetar o outro. A arte também é um lugar de pensar o ser humano e a sociedade, mas principalmente de criar conexão com quem está assistindo. É isso que sustenta uma narrativa de verdade.
Renata Di Carmo e Zezé Motta

Renata e Zezé Motta nos bastidores da série

Do teatro à televisão

A própria trajetória da autora ajuda a dimensionar esse olhar. Nascida e criada em Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, ela iniciou sua carreira no teatro ainda jovem, sem vir de uma família ligada às artes. "O teatro é minha primeira grande escola", resume.

Foi nesse ambiente que começou a atuar profissionalmente e, ao mesmo tempo, a escrever e a dirigir os próprios projetos. Renata migrou para o audiovisual nos anos 1990, inicialmente no humor, escrevendo para programas do SBT e, depois, da Globo.

Ao longo desse percurso, se consolidou como uma das primeiras mulheres negras a ocupar uma sala de roteiro na televisão brasileira. "Até onde a gente tem de informação, não há registros de uma mulher negra nessa posição anteriormente. Mas é sempre um lugar delicado de afirmar", pondera. Ela teve a carteira de trabalho assinada como roteirista em 1999.

A experiência no humor foi determinante para sua formação. Ela escreveu para atrações como Zorra Total (1999-2015) e trabalhou com nomes como Chico Anysio (1931-2012) e Nair Bello (1931-2007). "A comédia é um lugar de muito respeito. É difícil, exige tempo, ritmo e inteligência."

Série Cidade de Deus

Essa bagagem também se reflete em projetos mais recentes, como a série Cidade de Deus: A Luta Não Para (HBO Max), da qual integrou a equipe de roteiristas. A segunda temporada já foi gravada e deve ser lançada neste ano.

O desafio, segundo ela, foi lidar com o peso simbólico da obra original. "É uma responsabilidade muito grande trabalhar com um universo como Cidade de Deus [filme de 2002], que faz parte do imaginário mundial", fala.

A solução foi propor um novo olhar para a história. "A gente escolheu destacar personagens que eram muito pequenos no filme e colocar as mulheres no centro. Esse protagonismo não existia antes", completa.

Hoje, Renata transita entre gêneros com naturalidade, usando diferentes linguagens para contar histórias. Essa versatilidade não é vista como dispersão. "Existe um núcleo criativo, um pensamento sólido, que se desdobra em diferentes linguagens. Não é desvio de foco."

Brasil de verdade

Em (In)Vulneráveis, essa lógica se materializa na combinação entre criação, direção e atuação sob uma mesma perspectiva. A ambientação em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) reforça o compromisso com o cotidiano de um Brasil que passou a ser mais representado na ficção. A série estreou em março no Universal TV e está disponível também no Globoplay, nos pacotes que incluem canais Globo.

Apesar de ter novos projetos previstos para o segundo semestre, a autora diz ainda não ter autorização para revelar quais são. Ela, no entanto, declara que segue ampliando sua atuação no mercado.

Mais do que ocupar espaço, Renata deixa claro que sua intenção é transformar narrativas e contribuir para uma televisão que, de fato, represente o país em toda a sua complexidade.


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