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ANITA HARLEY

Como documentários usam a fórmula das novelas para viciar no sofrimento alheio

REPRODUÇÃO/GLOBOPLAY

Sônia Soares, a Suzuki, em  O Testamento: O Segredo de Anita Harley

Sônia Soares, conhecida como Suzuki; "personagem" de série documental lembra vilã de novela

GIOVANNA RIBEIRO

giovanna@noticiasdatv.com

Publicado em 16/3/2026 - 10h00

O catálogo das plataformas de streaming se tornou um território em que o real e o ficcional se confundem de maneira cada vez mais íntima. Se antes o documentário era visto como um registro sóbrio e informativo, hoje ele disputa a atenção do espectador com o mesmo arsenal de recursos das novelas e séries de suspense: trilhas sonoras tensas, ganchos dramáticos antes dos intervalos e uma construção obsessiva de mocinhos e vilões.

Essa "novelização" do gênero não é apenas uma escolha estética, mas um movimento calculado para prender o espectador no ciclo do sofrimento alheio. A eficácia dessa estratégia encontra respaldo direto na estrutura do melodrama, que há décadas molda o gosto do público brasileiro.

Segundo Wanderley Anchieta, pesquisador de pós-doutorado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF), a necessidade de justiça simbólica é um pilar desse modelo.

"No melodrama, é importante que o vilão seja severamente punido, que as coisas sejam equilibradas de um modo forte. No Brasil, com a ideia de que vivemos num lugar muito injusto e sem regras ou punição, isso tem um apelo muito forte", aponta o especialista.

Nas últimas semanas, mais uma série documental virou um fenômeno de audiência. O Testamento: O Segredo de Anita Harley, disponível no Globoplay, explora a disputa em torno do patrimônio da principal acionista das Casas Pernambucanas, em coma há 10 anos. Como sugere o título, a atração também expõe detalhes da vida pessoal da bilionária nunca antes divulgados, como sua orientação sexual, além de especular sobre relações mais íntimas. 

O Testamento não é a primeira produção documental do Globoplay a viralizar. Em 2023, Vale o Escrito: A Guerra do Jogo do Bicho transformou as disputas sanguinárias de bicheiros do Rio de Janeiro em mais um "novelão" popular, com direito a irmãs gêmeas inimigas que se comparavam diretamente a Ruth e Raquel --personagens de Gloria Pires em Mulheres de Areia (1993).

Para que esse mecanismo funcione, o roteiro documental passa a adotar artifícios de condução típicos da ficção. As revelações bombásticas, que prometem mudar o rumo da investigação, são frequentemente inseridas para inflar a carga emocional.

Para Anchieta, o uso desses recursos carrega dilemas éticos consideráveis. "Gancho e revelações bombásticas podem ser um problema mesmo. Problema no sentido que eles intensificam o efeito dramático e, para isso, podem se valer de um certo exagero de algo real. Então, para chegar no efeito, sim, é possível que os criadores forcem situações para que pareça que algo é mais bombástico ou que aumentem o suspense sem motivo, no caso dos ganchos", explica.

A construção do protagonista também segue uma cartilha rígida. Em O Testamento: O Segredo de Anita Harley, chama a atenção, por exemplo --para além da dramatização feita por atores para "ilustrar" a convivência entre a herdeira e os demais protagonistas da série--, a presença de Sônia Soares, mais conhecida como Suzuki.

Uma das mulheres que pede para ser reconhecida como esposa da empresária em coma, Suzuki se apresenta coberta de joias, com porte semelhante a uma vilã de novela. Ela concede entrevista em uma mansão digna de Arminda (Grazi Massafera) em Três Graças e ainda se posiciona em frente a uma escada, que não deixa nada a desejar a nenhuma Nazaré Tedesco (Renata Sorrah), a malvada de Senhora do Destino (2004).

Além dos requintes de crueldade, o sofrimento da vítima --no caso de O Testamento, a própria Anita Harley, presa a uma cama de hospital-- torna-se o principal motor de engajamento, transformando a dor real em entretenimento de massa. Anchieta detalha como a empatia é manipulada pelos roteiristas.

"Não se precisa de muita coisa para que um personagem funcione. Ele só precisa de um nome ou atributo e de uma situação reconhecível, de preferência um problema. Se você dota qualquer ser assim, ele já funciona como drama. Em geral, o sofrimento é o melhor chamariz para que as pessoas gostem de um personagem, sintam empatia por ele. Se o sofrimento aumenta, em geral, a empatia também. Logo, o cativante costuma estar ligado ao grau da dor, e daí chegamos nas revelações bombásticas como modo de forçar uma situação", explica.

O pesquisador destaca ainda a diferença fundamental entre o compromisso jornalístico e a liberdade criativa de narrativas que, por vezes, se fantasiam de documento histórico. "O jornalismo se difere da narrativa porque precisa de provas mais robustas. A narrativa pode surgir somente da imaginação e da criatividade, de uma dor, de uma dor forçada ao infinito", pondera.

O padrão narrativo de grandes produções de streaming também revela uma coreografia específica para despertar comoção. É comum que a história comece apresentando um cenário de tranquilidade absoluta antes da tragédia, estratégia que Anchieta define como aplicar a "fórmula ao contrário".

"Contar coisas terríveis funciona melhor quando você prepara o terreno para a destruição do personagem. De todo modo, chegar direto no sofrimento costuma reduzir muito a qualidade da empatia. Então, true crimes costumam apresentar um cenário quase bucólico, com tudo normal e tranquilo, até que alguém é decepado. Quando vemos que a pessoa era feliz e vivia uma vida plena, nos emocionamos ao imaginar o que ela perdeu", afirma.

É inegável que essa "evolução" é um produto da pressão dos algoritmos e da competição acirrada entre plataformas, que forçam produtores a buscarem intensidades que o próprio material bruto, muitas vezes, não oferece. Anchieta reconhece que há um lado natural na modernização da linguagem documental, mas alerta para o perigo da forma se sobrepor ao conteúdo.

"O ponto delicado não é exatamente o embelezamento técnico, mas quando a forma começa a empurrar a história para intensidades dramáticas que talvez o material, por si só, não sustentasse. Aí, existe o risco de a estética começar a conduzir demais a interpretação do espectador", adverte.

A transformação de sujeitos reais em totens de vilania e heroísmo parece ser o estágio final dessa adaptação. Ainda que o espectador possa sentir que está sendo manipulado, o pesquisador argumenta que, no fundo, histórias humanas sempre buscaram esse maniqueísmo para fazer sentido.

"Narrativas dificilmente funcionam sem isso. Então, não é o caso do que a gente possa chamar de manipulação. Quando você conta do seu ex para amigos, ele ou ela é ou não um vilão? Claro que é. Mas vocês sabem que isso é a sua verdade. Talvez caiba a reflexão de que histórias precisam do lobo mau para funcionar. A vida real sempre é mais complexa, mas, nas melhores histórias, os vilões tendem mais para valores negativos para a sociedade."

Ao fim de O Testamento: O Segredo de Anita Harley, outro protagonista da história, Arthur, que luta para manter o controle do patrimônio de sua suposta mãe adotiva, descreve a sensação de ter sua vida pessoal destrinchada em uma obra documental. Contudo, vale dizer que, assim como todos os outros que disputam a herança, ele também compete pela opinião pública.

"Isso aqui é minha família, é a minha vida. Isso não é brincadeira, não é um golpe; essa não é uma 'velha', é minha mãe; isso não é o dinheiro, essa é uma vida, são mais de 14 mil famílias. Por mais que essas questões de mídia usem isso como assuntos polarizadores pra fazer ibope, etc e tal, essas são vidas de pessoas, e eu sou uma delas. É isso. Eu sei que vocês não vão passar nada disso, mas que fique claro que é isso que eu penso", sentencia ele.


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