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NA HBO
DIVULGAÇÃO/HBO MAX

Cassie (Sydney Sweeney) em Euphoria; ela tem sido a maior "vítima" de escolhas controversas
A terceira temporada de Euphoria reacendeu os debates inflamados que acompanham a produção desde a sua estreia na HBO, em 2019. Mas, desta vez, o tom da audiência mudou. Se nos primeiros anos o choque visual e a estética neon camuflavam os excessos do criador Sam Levinson, os novos episódios deixam exposta uma engrenagem incômoda: a hipersexualização das personagens femininas como o principal motor da narrativa.
Longe de propor uma quebra de tabus ou uma libertação sexual, a série parece estruturar uma armadilha proposital para suas protagonistas, transformando o corpo e a vulnerabilidade das mulheres em uma espécie de pedágio para que a história possa avançar.
Para Marina Polidoro, do CultPop - Laboratório de Pesquisa em Cultura Pop, Comunicação e Tecnologias da UFF (Universidade Federal Fluminense), a trama constrói o erotismo faltando completamente com um olhar crítico ao sofrimento e à exposição das personagens, o que a torna um produto perigoso para as gerações mais jovens.
"O que a gente pode perceber nessa nova temporada é, principalmente, que o erotismo está muito vinculado a um recorte de gênero. O Sam Levinson recorre sempre à questão erótica a partir de relações que são heterossexuais, em sua maioria, e elas partem de um recorte em que o corpo feminino é a moeda de troca: o local onde você consegue chancelar e representar esse desejo erótico", diz ela, em conversa com o Notícias da TV.
Segundo a pesquisadora, a mudança na percepção do público não se dá por acaso. À medida que a série envelheceu, seus espectadores também amadureceram, desenvolvendo um filtro muito mais crítico para encarar as cenas de nudez e os arcos dramáticos moralmente complexos.
A linha tênue que separa a representação artística legítima da exploração pura e simples tornou-se o ponto central das críticas da imprensa especializada e dos próprios fãs. O foco excessivo nos conflitos sexuais das protagonistas contrasta drasticamente com o tratamento dado aos homens da trama, que ganharam arcos voltados ao poder e aos negócios, higienizados da exposição imposta às colegas de elenco.
"A representação que Sam Levinson faz em Euphoria não parte de uma subversão do olhar erótico; é um olhar muito bem definido e delineado: um olhar erótico masculino e heterossexual. Mesmo quando temos a Rue [Zendaya], que é uma personagem lésbica, a própria construção de sua sexualidade é cheia de furos e defeitos. O criador da série escolhe deixá-la muito à margem da narrativa queer que ela poderia ter. Ela tem atração por mulheres, ponto. Isso não é desenvolvido além disso, e o olhar dela passa a objetificar essas mulheres também", aponta Marina.
A especialista aponta que Euphoria é um exemplo muito bem estruturado do chamado male gaze (expressão em inglês que significa "olhar masculino"). É um conceito que descreve a maneira como o audiovisual e a mídia representam as mulheres sob a perspectiva heterossexual masculina, objetificando o corpo feminino somente para o prazer visual do espectador.
Mas, se a audiência atual da série não aceita mais a gratuidade das cenas eróticas com a mesma passividade dos primeiros anos, o amadurecimento dos espectadores também trouxe à tona uma percepção mais aguçada sobre a exploração sofrida por personagens como Cassie, vivida por Sydney Sweeney, que se tornaram as principais vitrines desse fetiche visual do criador, em detrimento do desenvolvimento psicológico de suas histórias.
"Isso se liga à mudança de recepção do público que consome e é fiel a Euphoria, tanto os fãs quanto a audiência mais cativa. Percebo nessa mudança não necessariamente um incômodo, mas um amadurecimento. É um público com um olhar um pouco mais atento e crítico a essas questões de sexo e erotismo", defende.
"No início, alguns começaram a assistir jovens demais, então o crivo crítico era menor. O fato de Euphoria ser acusada de hipersexualizar suas personagens não é de hoje; o problema é que agora está mais explícito. Onde estaria a linha que separa uma representação legítima de uma exploração do corpo dessas personagens? A resposta está justamente no male gaze", ressalta ela.
Nesta terceira temporada, Cassie explora fetiches como criadora de conteúdo adulto, Jules (Hunter Schafer) aparece vivendo como sugar baby e realizando desejos extremos de seus clientes --como a mumificação--, e Rue trabalha em uma boate para pagar sua dívida com traficantes de drogas.
"Para mim, a Cassie é a maior vítima da aplicação e da problematização do male gaze que podemos elencar na série. A ideia do male gaze é um olhar masculino distinto que perpetua uma série de estereótipos prejudiciais às mulheres. Esse olhar transcende a mera observação; envolve sustentar uma apreciação e uma sexualização desses corpos em relação a uma beleza quase trágica", diz a especialista.
Além das já citadas, a maior parte das personagens femininas na atual temporada também seguiu pelo caminho da sexualização e da mercantilização dos próprios corpos. No caso de Maddy (Alexa Demie), embora não se venda, ela se beneficia diretamente desse mercado e atua como uma agente ativa, já que seu lucro depende da exposição de figuras como Cassie.
Até mesmo Rue entra nessa engrenagem de forma problemática. A protagonista se mostra incapaz de exercer empatia ou compreender o nível de exploração sofrido pelas outras jovens, tanto que não vê problemas em trabalhar em um local que lucra com a mercantilização dos corpos femininos --uma conduta que a própria série escolhe não questionar.
Para a especialista, a fronteira entre o que seria uma representação artística legítima e a pura exploração do corpo é definida pelo texto, e não apenas pela imagem. Marina argumenta que o roteiro, também de Sam Levinson, se mostra incapaz de criticar esse panorama hipersexualizado.
Ou seja, para construir uma abordagem legítima --ainda que desconfortável--, seria fundamental inserir no texto um olhar crítico e reflexivo vindo não só do público, mas, principalmente, das próprias personagens sobre a exploração que vivenciam e até a posição que as atrizes ocupam.
"É incômodo ver a forma como esses corpos são entendidos, em total contraste com os corpos masculinos da série. Os homens têm a possibilidade de não se expor; os corpos femininos não. O que sustenta esse interesse voyeurístico é justamente o papel feminino que a série quer colocar: que tipo de destino essas personagens podem ter a partir de seus corpos?", alfineta.
Nate Jacobs (Jacob Elordi), por exemplo, passa por reformulações que o afastam do apelo puramente físico, deixando claro que, no universo de Levinson, os homens mantêm o controle das engrenagens de poder enquanto as mulheres arcam com o custo da nudez.
"Os corpos femininos estão a serviço desse olhar, desse quase fetiche que o diretor tem pelas personagens, demonstrando uma incapacidade de construir uma agenda crítica em relação a esse olhar erotizado. Já os personagens masculinos sofrem de outras formas na série, mas nada do sofrimento deles envolve o corpo", lembra.
Ou seja, em vez de refletir criticamente o mercado da exploração e do desejo, a série foca em uma espetacularização do corpo. Transformando tramas de vulnerabilidade, como a de Jules se submetendo a novos mercados para sobreviver economicamente, em uma ostentação visual vazia. A glamourização desse processo acende um sinal de alerta sobre a influência dessa estética agressiva no público jovem que consome a produção.
"Qualquer produto cultural é um reflexo de um debate que já existe na vida real. Você não vai ver o cinema, a música ou a televisão moldando uma identidade do nada; o máximo que fazem é impulsionar um ponto de vista. Toda obra passa pelo crivo e pela opinião do seu criador, ela nunca está isolada e nunca é neutra. Esse ponto de vista é o do Sam Levinson", sentencia.
É possível dizer que a narrativa de Euphoria, uma das principais produções da HBO dos últimos anos, cria um cenário sem saídas para as mulheres, no qual o desejo aparece sempre atrelado à violência, ao cinismo e à submissão ao olhar masculino.
Não é nem possível enxergar a libido ou o desejo genuíno das próprias personagens femininas; em vez disso, elas performam para a libido alheia sob o ponto de vista unilateral e monotemático de Levinson, mantendo as protagonistas presas em um universo sufocante --tanto para as personagens da ficção, quanto também para o público.
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