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UK VS THE WORLD

Fontana: Quem é a brasileira com coragem de desafiar 'gigantes' em Drag Race

MARTIN LANDL/ACERVO PESSOAL

Pessoa em pose imponente, com figurino rosa brilhante e asas esvoaçantes, maquiagem glamourosa e cabelo escultural, diante de fundo de céu azul com nuvens.

A brasileira Fontana é uma das favoritas à coroa de RuPaul's Drag Race: UK vs The World 3

DANIEL FARAD

vilela@noticiasdatv.com

Publicado em 16/2/2026 - 16h00

Em apenas três episódios da terceira temporada de UK vs The World, Fontana já deixou claro que não atravessou o oceano para ser coadjuvante. A brasileira entrou na disputa disposta a medir forças com verdadeiros "gigantes" pela coroa --não apenas pelos nomes consagrados de potências como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, mas também pelo que representa como uma mulher trans em uma Europa cada vez mais fechada para o outro.

No palco de um dos reality shows mais prestigiados do planeta, ela transforma cada aparição em manifesto. Fontana usa a vitrine global para reafirmar que a arte drag é, por essência, política --provocadora, incômoda e necessária. E, ainda que isso desperte aplausos e também ataques nas redes sociais, ela mostra que não está ali para se encolher, mas para ocupar espaço.

"A gente precisa falar o português correto. Só o 'fator brasileira' já te coloca numa posição de ser menosprezada, subjugada e subestimada. E mais, por ser imigrante, pelo fato de o inglês não ser o seu idioma, já acham que você é burra. O inglês britânico é muito gramaticalmente correto, com um vocabulário muito mais extenso do que o americano. E olha que eu era professora (risos). Mas também precisamos falar de uma coisa: ser brasileira intimida", conta a artista em entrevista exclusiva ao Notícias da TV.

E como intimida. Desde que venceu o primeiro episódio, Fontana virou alvo fácil das demais competidoras, especialmente por ter caído nas graças de RuPaul Charles.

"Imagina você estar ali gravando com a RuPaul e, do nada, ela inventar vários apelidos para você! Isso, para mim, é ganhar (risos). A primeira vez que ela me chamou de Hannah Fontana, eu nem entendi. A coluna travou, a saliva entalou. Pensei: 'Gente, ela só dá apelidos para as participantes que ela realmente gosta'. É uma forma de carinho", avalia.

Contra titãs

O terceiro episódio deixou claro que Fontana não chegou ao UK vs The World apenas para fazer número. Até então segura, a brasileira viveu seu primeiro tropeço na competição --um deslize no Snatch Game (que no brasileiro ficou conhecido como o Jogo dos Pontinhos do Programa Silvio Santos) que a colocou, pela primeira vez, entre as piores da noite.

Fontana logo após vencer a dublagem contra a filipina Minty Fresh (WOW Presents+/Reprodução)

E foi justamente aí que o jogo ganhou contornos ainda mais surpreendentes. Gawdland, a tailandesa apontada como sua principal rival na corrida pela coroa, tinha nas mãos o poder de salvá-la. Era a chance de ouro para selar uma aliança. Ou eliminar uma ameaça.

Sem hesitar, ela fez a sua escolha: manteve a mexicana Serena Morena na disputa e deixou Fontana à mercê do destino, em um dos momentos mais tensos da temporada até aqui.

De acordo com a artista, ela estava tendo um ataque de pânico em pleno palco quando foi informada que precisaria dublar pela sua vida:

Eu coloquei toda a minha vida nesse projeto. Fiz empréstimos, estava sob risco de deportação [ela mora há mais de uma década na Suécia], passava pelo término de um relacionamento, não tinha onde morar. Ali era onde estavam todas as minhas fichas. Todas as emoções que vocês viram foram reais.

"Para mim, foi muito difícil rever, porque eu tinha acabado de vomitar [de tanta ansiedade]. Eu estava ali não apenas por mim, mas por muitas de nós que não tiveram esse holofote, esse oportunidade", acrescenta.

Fontana deixou até mesmo Jade Thirlwall, ex-Little Mix, de queixo caído com a sua performance de Angel of My Dream. Não à toa, caiu no chão quando RuPaul disse a famosa frase "shantay you stay". 

E não é que viralizou? São mais de 5 milhões de visualizações. Tem um povo que está achando forçado. Mas como você vai forçar uma coisa que é tão importante para você? Como Fontana, sou intensa. Uma guerreira.

Arte e política

Imigrante em uma Europa na qual a extrema-direita avança a cada eleição, Fontana foi ainda mais corajosa ao retratar o que passa --e ainda mais em uma das maiores emissoras públicas do mundo, a BBC. "Nesse momento mesmo [um ano depois das gravações], estou esperando uma resposta da imigração", revela.

Hoje, aos 32 anos, como uma mulher trans, não quero mais me limitar sobre o que as pessoas acham ou querem que eu seja. Não posso falar por todas, mas quantas de nós, travestis brasileiras, tiveram a oportunidade que estou tendo? Essa é, sim, uma questão política. A gente se enfia numa fanbase tóxica, que ataca sem dó, mas eu saí da Vila Esperança, em São Leopoldo [RS], preparada. A gente é mais forte do que eles pensam.

Mesmo sem ter falado sobre sua transição durante o programa, em que se apresentou como uma pessoa não-binária, Fontana sente que foi abraçada com muita força por essa comunidade.

A nossa comunidade trans merece o melhor espaço, as melhores palavras, porque a gente é tão humilhada, a sociedade coloca a gente no pior lugar, que eu falei: 'Eu não posso falar sobre isso de uma maneira vazia'. Espero que eu consiga inspirar [mais pessoas] ao máximo.

Uma coragem que Fontana também carrega fora do palco, na pele e na própria história. Por trás da drag destemida existe Gabriela –a brasileira que atravessou o oceano em busca de uma vida possível na Suécia, depois de ser empurrada para fora do próprio país pela violência e pela transfobia. "A gente que cresce nesse Brasil em que eu cresci precisa virar adulto muito cedo. E precisa aprender a se defender muito cedo", lembra.

Talvez por isso ela não pudesse ter escolhido um nome mais simbólico para representá-la na vida cotidiana. Como um anjo da anunciação, Fontana surge em Drag Race com as trombetas erguidas, pronta para proclamar ao mundo que o Brasil chegou: não só para ocupar espaço, mas para fazer história.

"Eu vou me defender, vou defender a arte drag brasileira e não vou deitar pra ninguém", crava, transformando cada passo na passarela em ato de resistência --e cada aplauso, em vitória coletiva.


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