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A DOR DA DESPEDIDA
BEATRIZ DAMY/TV GLOBO

Virgílio Silva divide a autoria da novela Três Graças com Aguinaldo Silva e Zé Dassilva
Virgílio Silva chega ao fim de Três Graças com a sensação de quem se despede de uma família criada no papel. Coautor da novela das nove ao lado de Aguinaldo Silva e Zé Dassilva, ele define o encerramento da trama como uma espécie de "síndrome de abstinência" depois de dois anos de convivência intensa com personagens que se tornaram íntimos.
A novela termina nesta sexta-feira (15) com muitos pontos positivos. Em entrevista exclusiva ao Notícias da TV, o autor admite que ninguém tinha a real dimensão do alcance que Três Graças teria, embora a equipe soubesse que a história reunia personagens fortes, conflitos humanos, emoção e algumas doses de loucura.
Ele também destaca o papel da direção de Luiz Henrique Rios e afirma que a "ficha caiu" quando o público passou a discutir os personagens nas ruas e a criar torcida organizada para casais.
O novelista ainda abre os bastidores da criação com Aguinaldo Silva, a quem atribui a "linha editorial" da novela e define como um mestre generoso, elegante e profundo conhecedor da linguagem do gênero. Segundo ele, trabalhar com o veterano foi um aprendizado diário, que lhe deu segurança para arriscar. Confira:
NOTÍCIAS DA TV - Como foi estrear no horário nobre já com a responsabilidade de assinar uma novela como Três Graças, que virou um fenômeno de crítica, repercussão e identificação popular? Em algum momento vocês tiveram dimensão do tamanho que a novela alcançaria?
VIRGÍLIO SILVA - Desde o início, quando comecei a escrever a sinopse com Aguinaldo, eu sabia que seria um grande desafio. Eu estava realizando um sonho, fazendo o que sempre desejei, mas, junto, eu sabia que vinha uma responsabilidade gigantesca. Novela das nove mexe com o país inteiro. Todo mundo opina, comenta, critica, ama, odeia... Então bate aquele frio inevitável, mas gostoso, na barriga.
Por uma série de fatores, nós não tínhamos a real dimensão que a novela ia ganhar. Sabíamos que a história tinha personagens fortes, conflitos humanos muito bem definidos, uma mistura de emoção, humor e loucura que podia funcionar muito bem. E aí veio a direção impecável de Luiz Henrique Rios e sua equipe de diretores.
Eu poderia dizer que não tinha como dar errado, só que fenômeno mesmo ninguém prevê. A novela estreou e, quando começamos a perceber que as pessoas estavam discutindo os personagens na rua, criando torcida organizada para casal, transformando falas em meme, a ficha caiu e percebemos que a novela tinha virado algo maior.
Dentro de uma trama tão grande e cheia de personagens fortes, quais núcleos, conflitos ou personagens você sente que carregam mais diretamente a assinatura pessoal de cada um?
Todos os personagens têm a assinatura, a grife Aguinaldo Silva, por assim dizer. São todos emocionais, contraditórios, imperfeitos, cheios de nuances. Eu e Zé Dassilva costumamos dizer que Aguinaldo deu a linha editorial da novela e nós seguimos essa linha com total liberdade criativa.
E, assim, construímos gente que erra, que ama torto, que fala besteira, mas que continua humana, seja mocinho ou vilão. Como nós três somos jornalistas e conhecemos bem as ruas, o povo e sua realidade, acabamos criando na novela relações que carregam muito da nossa visão de mundo.
Na novela, usamos muito dessas experiências, mas, claro, sempre elevando o tom para ser novela, melodrama com histórias de mágoa, abandono, culpa e tentativa de reconciliação. Isso vem muito da vida real mesmo, de observar pessoas. Sem falar no humor ácido, que tem muito da gente também.
As nossas reuniões para discutir tramas são das coisas mais incríveis nesse processo. A gente se diverte muito. E isso reflete na hora de escrever a novela. Nós adoramos fazer o personagem soltar uma frase atravessada no meio do caos. E o brasileiro é assim, né? Até no sofrimento ele deixa soltar uma ironia, porque esse senso de humor é uma coisa muito nossa.
estevam avellar/tv globo

Os três Silva: Zé, Aguinaldo e Virgílio
Como funcionava a dinâmica criativa com Aguinaldo Silva? Houve momentos de discordância, debates mais intensos ou situações em que você defendeu caminhos importantes para a novela?
Trabalhar com Aguinaldo Silva é sempre um grande aprendizado. Todo dia eu aprendo uma coisa nova. Falar que ele tem uma experiência absurda é chover no molhado. Ele entende, ouso dizer, mais do que ninguém a linguagem da novela. Não bastasse isso, é de uma elegância ímpar no trato com as pessoas que trabalham com ele.
Aguinaldo não descarta uma ideia, por mais absurda que ela possa parecer. Ele ouve, deixa que a pessoa defenda sua ideia e, quando acha que não está boa, apresenta uma saída genial, mas sem descartar o que foi proposto. Isso é de uma generosidade impressionante.
Todas as tramas --e é sempre bom lembrar que toda trama tem sua importância para a novela-- foram decididas em reuniões diárias; e todas, sem exceção, tiveram a contribuição de cada um de nós, autores.
Três Graças conseguiu algo raro: transformar mocinhas, vilões e casais românticos em fenômenos simultaneamente. Quais personagens mais surpreenderam vocês ao longo da exibição e que tipo de reação do público mais marcou nessa trajetória?
Lorena [Alanis Guillen] e Juquinha [Gabriela Medvedovsky] explodiram de um jeito que ninguém imaginava. A torcida pelo casal virou uma coisa muito grande, até fora do Brasil. Foi bonito demais acompanhar essa repercussão. Mas acho que os personagens mais ácidos também surpreenderam muito. Aqueles personagens mais venenosos, mais problemáticos, acabaram virando queridinhos do público.
Acho que as pessoas gostam de personagem com verdade. E uma coisa que marcou muito foi ver as falas da novela entrando no cotidiano das pessoas. Quando você percebe que o público começou a usar frases dos personagens no dia a dia, fazer meme, discutir cenas como se fossem pessoas reais, aí entende a força que a novela ganhou.
Mas um dos maiores fenômenos, para mim, foi a Gerluce [Sophie Charlotte], uma protagonista diferente das últimas mocinhas apresentadas nas novelas. Gerluce não é uma anti-heroína, mas uma heroína com qualidades e defeitos comuns a todas as pessoas. Ela não leva desaforo para casa, não é a sofredora que aceita tudo passivamente. Ela vai à luta, não se submete às injustiças da vida e batalha contra elas com as armas que tem. Que mocinha ousou comandar um assalto para salvar sua mãe dos vilões?
Agora que a novela se aproxima do fim, qual a sensação que fica? Três Graças vai deixar saudade? E o que esse projeto muda na sua carreira e nos próximos passos dentro da teledramaturgia?
Estou vivendo uma síndrome de abstinência da novela. Foram dois anos de convivência com esses personagens que se tornaram íntimos meus. Convivi mais com eles do que com a minha família. Afastá-los da gente de forma, digamos assim, tão abrupta, exige um tanto de controle emocional.
Dá um vazio. Mas, no fim, tudo vira um misto de orgulho, saudade, alegria e a sensação de dever cumprido. Acho que Três Graças muda muita coisa para mim, especialmente.
Aguinaldo comandando a nave deu uma segurança extraordinária. E isso trouxe mais confiança, mais maturidade e também mais coragem para arriscar nas próximas histórias. Sem falar que essa experiência deixa uma vontade enorme de continuar criando histórias e personagens para divertir e emocionar as pessoas.
Leia também -> Resumo dos capítulos da novela Três Graças
Três Graças é uma novela criada por Aguinaldo Silva em parceria com Virgílio Silva e Zé Dassilva. A história é ambientada em São Paulo e terminará nesta sexta-feira (15). A trama será substituída por Quem Ama Cuida, de autoria de Walcyr Carrasco e Claudia Souto.
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