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MULHERES APAIXONADAS
REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Dan Stulbach em Quem Ama Cuida; Ademir tem provocado menos raiva e até rendido "parabéns"
Consagrado no imaginário da teledramaturgia brasileira ao interpretar o violento Marcos em Mulheres Apaixonadas (2003), Dan Stulbach vive um novo tipo de antagonista na novela das nove da Globo, Quem Ama Cuida. Na pele de Ademir, acusado de assédio sexual, o ator encara novamente os olhares tortos do público nas ruas, mas admite que a abordagem atual é bastante diferente daquela recebida há 23 anos.
Em conversa com o Notícias da TV nos Estúdios Globo, o artista refletiu sobre o impacto de dar vida a personagens que expõem e provocam discussões sobre violência contra a mulher e explicou como percebe essa volta ao tema na televisão.
"Tive um personagem que foi tão marcante em relação a esse assunto [da violência contra a mulher], e agora a gente volta a falar disso. Não só eu, mas várias novelas, em vários momentos, falam desse assunto. Para mim, até traz uma alegria poder falar disso. Mas eu tenho falado sempre que é uma coisa também muito triste. É uma falência", comentou.
Em Mulheres Apaixonadas, depois de ser agredida diversas vezes pelo marido vivido por Dan Stulbach --que utilizava uma raquete de tênis para puni-la--, Raquel (Helena Ranaldi) decidiu denunciá-lo na delegacia de mulheres. As cenas contribuíram para a Lei Maria da Penha, em vigor desde 2006.
"Quando a gente fez o Marcos de Mulheres Apaixonadas, eu fui para Brasília, teve a lei. A gente ficou muito motivado, inspirado com a ideia de que estava fazendo um trabalho que era importante e que podia mudar um pouco a nossa sociedade e mexer com ela de uma maneira positiva em relação ao assunto", confessou.
"Aí você vê, 23 anos depois, a gente está aqui falando das mesmas coisas, com números iguais ou piores, então é uma tristeza também acompanhar tudo isso. E também o que dá relevância a esse assunto todo e deixa o que a gente faz aqui na televisão ainda mais importante, porque [a TV] chega em todo lugar", refletiu.
Já em Quem Ama Cuida, o advogado Ademir (Dan Stulbach) é réu em um processo após ser acusado de assédio sexual por sua ex-secretária, Suely (Julia Stockler). Embora a reação do público aos papéis de vilão seja sempre visceral, o ator apontou mudanças significativas na maneira como as pessoas o abordam na rua em comparação à época da trama de Manoel Carlos.
"Continuam odiando (risos). Em todo lugar que eu vou, as pessoas ficam me dando bronca, alertando, falando, mas o que é diferente do Marcos? Quer dizer, tantas coisas são diferentes do Marcos, uma que eu tenho 20 e tantos anos a mais. Mas agora é diferente porque as pessoas já me conhecem, conhecem o meu trabalho, então elas vêm, xingam, criticam, reclamam, mas em seguida dão parabéns. Sempre tem um parabéns", disse ele.
"As pessoas são muito carinhosas em geral comigo. E eu gosto de mexer com as pessoas. Eu gosto de fazer televisão quando ela chega nos outros e você tem a impressão de que a sua plateia é enorme. E como a gente não vê, não sabe", celebrou.
O ator também destacou a força e o alcance da TV aberta em comparação com as redes sociais. "Você não pode ficar restrito à rede social. Que é boa, mas também pode ser enganosa, porque é uma parcela pequena. É natural quando acaba uma cena, quando acaba o capítulo, ver o Instagram, ver o que as pessoas estão falando ali, mas na rua é mais bacana. Porque é intenso, ou acontece ou não acontece. Então, está acontecendo e é muito bom", apontou.
Segundo o ator, a expectativa nos bastidores foi alta para as sequências decisivas do julgamento de Ademir. O ator confessou que vinha se preparando de maneira rigorosa para o momento, gravado na semana passada e que deve ser um dos maiores destaques do capítulo 100.
"Olha, especialmente essa cena [do julgamento], eu venho pensando... Eu recebi esse texto faz uns 10 dias, estou com ela. Pensei nela todos os dias, porque é um momento-chave da história, a gente veio construindo essa questão do assédio há alguns bons capítulos. E sempre com muita atenção, muita verdade. Um assunto muito importante de a gente abordar bem e cercar ele da maior verdade possível", contou.
"Também tem um pós-julgamento bem interessante, isso a gente já gravou. Curiosamente, a gente deixou todos os pós já gravados, e essa cena [do julgamento], não, até porque requeria um cenário novo. Um cenário diferente que foi montado só para hoje. E tô ansioso, te confesso. Às vezes eu não tenho isso, mas dessa vez tô ansioso, curioso, com vontade de fazer, e decorei o texto já faz alguns dias", disse ele.
Em meio à construção desse enredo tenso, a parceria com colegas de cena provou ser fundamental. Stulbach rasgou elogios ao entrosamento com Julia Stockler, responsável por dar vida à vítima das investidas de Ademir na trama.
"A Julia é uma ótima atriz, a gente se conheceu no dia da gravação, na verdade, a gente não se conhecia antes, mas todo mundo me falava: 'Ó, você vai fazer com a Julia, a Julia é ótima'. E a gente se encontrou e foi construindo cena a cena, gesto a gesto: 'Ó, vou te tocar aqui, tudo bem fazer assim?'. Tudo com muito cuidado e como eu tenho dito sempre: sem culpa", revelou.
"Eu, que como pessoa, cidadão, enfim, tenho todos as repulsas possíveis [sobre o ato de assediar uma mulher], falei para ela: 'Eu tenho que fazer o meu personagem sem culpa, sem pensar, porque senão também a cena não acontece'. Então, também tinha uma liberdade que ela tinha que me dar, mal me conhecendo, logo de início. Isso aconteceu e foi muito legal", explicou.
"Acho que a gente construiu isso tudo de uma maneira muito verdadeira, deixando o incômodo acontecer para o público. Mas não de uma maneira forçosa. Eu queria muito, e acho que ela também, que fosse como a vida é. Você encontra esse cara no elevador, essa mulher no elevador e são pessoas que você encontra no seu cotidiano. Para que você e tantas mulheres possam identificar, porque às vezes, elas acabam não tendo coragem de denunciar."
O intérprete explicou ainda a mentalidade que norteia seu trabalho ao encarar Ademir. Para ele, diferentemente de um vilão clássico, o personagem atua ancorado em suas próprias convicções distorcidas.
"Então eu digo isso sempre: o Ademir não é um 'vilão' que sabe que é vilão. Ele é um homem que acredita no que ele acredita. E ele faz o que ele tem que fazer. Ele entende o Brasil como o Brasil é. E é uma boa semana para falar isso, inclusive", provocou, traçando um paralelo com o momento político do país, às vésperas das eleições presidenciais.
"Ele toma as atitudes que ele acha que são necessárias para ter sucesso na vida, na carreira, na profissão, e acha absolutamente ingênuo que as pessoas o critiquem por isso. Porque essas pessoas, então, estão mentindo para elas mesmas em relação ao país que elas encontram, ao trabalho e tudo mais", concluiu o artista.
Leia também -> Resumo dos capítulos da novela Quem Ama Cuida
Escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, Quem Ama Cuida é ambientada em São Paulo e conta com direção artística de Amora Mautner. A novela está prevista para ficar no ar até janeiro de 2027.
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