GERLUCE
REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Sophie Charlotte em Três Graças; protagonista da novela das nove não é passiva nem submissa
Sophie Charlotte comemora a chance de dar vida a uma mocinha fora dos moldes "tradicionais" em Três Graças. Intérprete de Gerluce, a atriz destaca a complexidade da personagem, que não se encaixa no arquétipo da heroína passiva e submissa --pelo contrário. Para ela, a aceitação do público se dá, justamente, pela soma de contradições, falhas e impulsos que tornam a protagonista profundamente humana.
"Eu acho que é uma conjunção de fatores que às vezes acontece essa magia. É uma personagem que também não está o tempo todo nesse lugar do panfletário, ela se contradiz, bate de frente, dá voz a frases e a respostas que não são tão esperadas de mocinhas", disse a atriz em conversa com o Notícias da TV durante as gravações de Três Graças.
Gerluce reage, questiona, não engole ofensas, e chegou a arquitetar um roubo. A mocinha da novela das nove é firme mesmo quando isso pode custar caro, como na relação com Arminda (Grazi Massafera), sua patroa. A atriz admitiu que chegou a se perguntar se a personagem conseguiria manter o emprego após algumas respostas mais duras à dona Cobra --além de muitos atrasos.
Ainda assim, ela decidiu confiar na lógica da novela, que permite à mocinha reagir a situações da mesma maneira que muitas pessoas gostariam de enfrentar na vida real. "E aí eu entendi que essa trama dá espaço para um eco do que a gente gostaria de poder viver e, às vezes, não consegue", defendeu.
Esse mesmo espírito aparece no romance com Paulinho (Romulo Estrela), descrito por parte do público como um namoro idealizado. Sophie reconheceu o tom quase perfeito do relacionamento, mas ressaltou o direito da ficção de alimentar esse tipo de desejo.
Para ela, há algo de simbólico em ver uma mulher que pode responder à patroa sem ser punida e viver um amor cuidadoso sem cinismo. "Na nossa novela ela pode, entendeu? E aí a Arminda tem que processar isso e continuar (risos)", brincou a atriz, bem-humorada.
O relacionamento com Paulinho representa uma experiência inédita para Gerluce. Vinda de um histórico de traumas, a personagem vive o romance com desconfiança e cautela. "A gente foi construindo um amor realmente quase perfeito. Como é um encontro com um homem que está atento, né? Que te cuida. É uma vivência nova", explicou.
"A Gerluce vem com uma história muito pesada, com relação aos encontros amorosos, aos homens, de muito trauma, de muita defesa... E aí ele, na presença e no cuidado, vai mostrando uma outra forma de amar. Uma nova forma de amar e de cuidar de quem você ama. É bonito de ver a resposta das pessoas. Poder sonhar com o amor romântico, hoje em dia a gente tem duvidado muito desse lugar", disse.
O trauma vivido por Gerluce em um relacionamento violento com Jorginho Ninja (Juliano Cazarré), pai de Joélly (Alana Cabral), está entre os conflitos mais delicados da trama. Sophie Charlotte destacou a maneira com que a personagem enfrenta esse passado doloroso, especialmente ao lidar com a figura paterna da filha sem apagar as marcas da violência que sofreu.
"Eu acho complicado a gente associar a redenção do Jorginho com o perdão da Gerluce. Eu acho que uma pessoa pode mudar e ser uma pessoa melhor, todo mundo tem a oportunidade de mudar. Mas você achar que depende do perdão da Gerluce para considerar que ele está regenerado é como se você precisasse diminuir o que aconteceu. Como se o perdão dela diminuísse o que aconteceu", explicou.
Gerluce não pode ser considerada uma personagem permanentemente solar. Ela se irrita no ônibus, na fila, erra, fala o que não deve e se estressa como qualquer pessoa comum. Tanto que o nome da protagonista virou "verbo" nas redes: "Gerluçar", que é quando se está atrasado para o trabalho, algo que acontece com frequência na rotina corrida da mocinha da novela das nove.
"Eu acho que é uma personagem que tem isso, que se estressa no ônibus, na fila do ônibus, que tem uma complexidade de não estar o tempo todo só feliz, o tempo todo só positiva. E eu acho que a gente também é assim", ressaltou Sophie Charlotte na conversa com a reportagem.
Essa abordagem mais crível se reflete também nas relações familiares. Sophie conta que, ao lado da equipe, construiu uma dinâmica entre Gerluce, Lígia (Dira Paes) e Joélly que foge do excesso de afeto idealizado. Há brigas, silêncios e desconfortos --mas também um amor profundo que se sustenta mesmo em meio aos conflitos. "A briga é realmente briga, sabe? Assim, elas realmente batem de frente, causam um alvoroço, mas depois passa. Porque tem um amor familiar muito forte", contou.
O atraso para o trabalho, o cansaço diário, o despertar apressado e a rotina exaustiva ajudaram a criar uma identificação com os espectadores. Mas, para Sophie, o grande alicerce da história está no núcleo das três mulheres da casa. "A família está realmente no centro desse debate, dessa história", apontou.
A atriz acredita que o público compreende esse retrato mais imperfeito. Mesmo quando Gerluce erra, responde de forma ríspida ou age com pouca educação, o que está em jogo é a tentativa de seguir em frente. "Ela está tentando, ela é uma pessoa de verdade", falou.
Sophie se disse surpresa com a resposta do público, que se conectou à personagem a partir dos aspectos simples do cotidiano. "Eu identifiquei essa brasilidade na personagem, que eu acho que era bacana de ressaltar. Mas eu não esperava assim, claro que a gente faz, entrega o melhor que a gente consegue para o público, mas a resposta é sempre inesperada, a gente não sabe por onde a gente vai conseguir tocar o coração das pessoas", admitiu.
Outro detalhe celebrado por Sophie é a construção visual da personagem. Mesmo exausta, Gerluce preserva gestos de vaidade e identidade. O batom vermelho, o cabelo cacheado bem cuidado e a roupa prática com um toque de sensualidade fazem parte desse equilíbrio entre dureza e delicadeza. Para ela, não há só sofrimento: há desejo, humor e feminilidade.
"Ela sempre está com a unha feita, ao mesmo tempo em que ela precisa de praticidade, que vai pegar três ônibus e vai preferir a calça jeans, o tênis, porque tem que correr, mas ela vai botar uma blusa que tem um decote que ela gosta, que é uma coisa muito específica dessa personagem", lembrou.
Para a atriz, rir junto com a personagem também é uma maneira de subverter a rigidez da figura da mocinha. E essa liberdade narrativa tem sido um aprendizado. "É mais fluido, pode ir para vários lados. Isso é que eu acho que tem sido um grande aprendizado para mim como atriz. E a Gerluce é um presente, é uma alegria, e cada vez mais o desafio vai ficando mais tenso, porque a gente vai errando mais com o personagem", adiantou.
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