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EDIÇÃO ESPECIAL
Nelson Di Rago/TV Globo

Lima Duarte e Regina Duarte em Roque Santeiro; Globo reapresentará novela em Edição Especial
No próximo dia 5, às 14h45, Roque Santeiro (1985) volta à tela da Globo. A novela escrita por Dias Gomes (1922-1999) e Aguinaldo Silva substitui Além do Tempo (2015), de Elizabeth Jhin. A escolha, no mínimo ousada, chama a atenção por um detalhe: a trama flopou na audiência quando reprisada no Vale a Pena Ver de Novo, em 2000 --a ponto de a emissora trocar os folhetins pelo programa Você Decide (1992-2000). Na época, a sessão ocupava o horário hoje destinado à Edição Especial.
O desempenho abaixo das expectativas, evidentemente, não diminuiu a importância de Roque Santeiro, um dos maiores fenômenos da teledramaturgia brasileira. É claro que a expectativa quanto aos números do novo repeteco é grande e já rende apostas nas redes sociais. Mas as dúvidas quanto à receptividade hoje passam por algo muito mais importante e até surpreendente: uma produção com mais de 40 anos nas tardes da TV aberta.
Entre a crítica social, os nomes do elenco que deixaram saudade e o mergulho na década de 1980 --que virou trend dias atrás --, Roque Santeiro merece ser descoberta por quem nunca a viu e revisitada por aqueles que já a conhecem.
A coluna lista cinco razões para conferir a reapresentação:
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José Wilker em Roque Santeiro
A novela de Gomes e Silva acompanha a rotina de Asa Branca, cidade nordestina cuja economia gira em torno dos supostos milagres de Roque Santeiro. O coroinha teria morrido ao defender a igreja do bandido Navalhada, interpretado por Oswaldo Loureiro (1932-2018).
Quando Roque, personagem de José Wilker (1944-2014), reaparece, a farsa fica na iminência de ser descoberta, o que compromete os poderosos da região. Entre eles, estão o coronel Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e sua amante Porcina (Regina Duarte), suposta viúva do santeiro.
Os autores abordaram a exploração da fé, comum em todo e qualquer tempo. Políticos, comerciantes e até populares usavam o "santo" para ludibriar e oprimir o povo enquanto se refestelavam com as vantagens obtidas --da venda de itens religiosos de Zé das Medalhas, papel de Armando Bogus (1930-1993), ao filme sobre Roque, estrelado por Roberto Mathias (Fábio Jr.).
A predileção do povo por falsos heróis também dominava a cena. Em dado momento, padre Hipólito, defendido por Paulo Gracindo (1911-1995), constata que "o mito é mais forte que a verdade".
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Gabriela Bicalho, Cassia Kis, Armando Bogus e Bruno Andrade
Roque Santeiro chegou a ser produzida pela Globo em 1975. A censura da Ditadura Militar (1964-1985) determinou a suspensão da exibição no dia da estreia, obrigando a emissora a recorrer um compacto de Selva de Pedra (1972) enquanto preparava outra trama, Pecado Capital (1975).
Considerada pelos censores um achincalhe à igreja, à moral e aos bons costumes, a novela foi liberada 10 anos depois, quando o Brasil respirava os ares da Nova República. Os autores transformaram a retomada da democracia na vida real em um manifesto pela liberdade na ficção, especialmente entre as mulheres da trama.
A inauguração da boate Sexus, comandada por Matilde, causava a ira das repressoras lideradas por Pombinha --papéis de Yoná Magalhães (1935-2015) e Eloísa Mafalda (1924-2018), respectivamente.
Lulu (Cassia Kis), a primeira moradora de Asa Branca contemplada com um milagre de Roque Santeiro, buscava romper o relacionamento abusivo que mantinha com Zé da Medalhas. Mocinha (Lucinha Lins), que guardou a virgindade para o noivo Roque, pôde, enfim, se entregar a ele.
E Ninon (Claudia Raia, em sua primeira novela) manifestava, sem pudores, o seu desejo de ser atacada pelo lobisomem --o professor Astromar, interpretado por Rui Rezende (1937-2026).
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Yoná Magalhães em Roque Santeiro
Apesar da atualidade do enredo, na crítica social e na liberdade apregoada especialmente entre as figuras femininas, Roque Santeiro é uma produção dos anos 1980. Questões técnicas e de linguagem à parte, a trama traz elementos que marcaram a década --constantemente revisitada e exaltada nas redes sociais. O figurino levou todos os exageros da época à potência máxima por meio de Porcina: peças estampadas, com ombreiras, adornadas com cintos enormes e complementadas com laçarotes ou turbantes.
O vestuário de Matilde, especialmente o dos ensaios ao lado de Ninon e Rosaly (Isis de Oliveira), com collants e polainas, também reflete os anos 1980. Yoná virou referência para mulheres e símbolo sexual para homens --aos 50 anos, a atriz estampou a capa da Playboy, algo incomum até então.
Há ainda os "mullets", cabelo repicado na parte de cima da cabeça e comprido na nuca, de Fábio Jr. A captura do tempo e o impacto cultural de Roque Santeiro também podem ser notados através da trilha sonora. O repertório consagrou Elba Ramalho e a dupla Sá & Guarabyra.
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Lucinha Lins, Eloísa Mafalda e Ary Fontoura em Roque Santeiro
Além de José Wilker, Armando Bogus, Paulo Gracindo, Oswaldo Loureiro, Yoná Magalhães, Eloísa Mafalda e Rui Rezende, a novela conta com outros talentos que já nos deixaram. São os casos de Wanda Kosmo (1930-2007), Arnaud Rodrigues (1942-2010), João Carlos Barroso (1950-2019), Luiz Armando Queiroz (1945-1999), Nelson Dantas (1927-2006), Elizangela (1954-2023) e Ilva Niño (1933-2024) --esta como Mina, fiel escudeira de Porcina.
Também Cláudio Cavalcanti (1940-2013), o padre Albano, que se opunha ao conformismo de Hipólito em relação à farsa do santo. Albano envolvia-se com Tânia, herdeira de Sinhozinho Malta, defendida por Lídia Brondi. Um dos rostos mais famosos da TV nas décadas de 1970 e 1980, ela trocou a carreira de atriz pela de psicóloga --e seu retorno, ainda que apenas por meio de reprises, é sempre festejado.
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Claudia Raia em Roque Santeiro
Em 2025, por ocasião dos 60 anos de atividade, a Globo resgatou títulos esquecidos pela TV aberta há tempos. Tieta (1994), A Viagem (1994) e Rainha da Sucata (1990) foram escaladas para o Vale a Pena Ver de Novo; História de Amor (1995) e Terra Nostra (1999) ocuparam a Edição Especial.
Roque Santeiro surge agora sem qualquer efeméride --a emissora fala em comemorar os 40 anos, mas a obra completou 41 em junho. A escolha parece estar mais relacionada ao apreço da audiência por conteúdos nostálgicos.
A Globo tem exaltado o passado em muitos de seus programas. Globo Repórter - Personalidades, É de Casa e Caldeirão com Mion estão entre as atrações que exploram homenagens a figuras e programas que marcaram a história da TV. O resultado tem sido positivo.
O mesmo pode acontecer com o repeteco de algo antigo e surpreendente como Roque Santeiro. O êxito da reprise pode abrir caminho para outras produções de sucesso, porém pouco lembradas.
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