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TRAMA TRISTE

Nas novelas, mulheres que abortam são pobres, desesperadas e criminosas

REPRODUÇÃO/TV GLOBO

A atriz Cynthia Senek caracterizada com uniforme de empregada doméstica no papel de Edilene, personagem que interpretou na novela A Dona do Pedaço

Cynthia Senek interpretou Edilene, moça que morreu após fazer aborto em A Dona do Pedaço (2019)

FERNANDA LOPES

fernanda@noticiasdatv.com

Publicado em 30/6/2022 - 6h40

A descriminalização do aborto é um tema que voltou à tona fortemente nos últimos dias, em casos como o da atriz Klara Castanho e o da menina de 11 anos que teve seu direito de interromper a gravidez questionado por uma juíza em Santa Catarina. Apesar de ser uma questão presente (e um ato realizado mesmo na ilegalidade) nas vidas de milhares de pessoas no Brasil, a representação de casos de mulheres que recorrem ao aborto na teledramaturgia gira em torno dos mesmos estereótipos: elas em geral são pobres, estão em desespero, e o aborto é tratado como crime.

O tema ganhou mais destaque nas novelas e séries brasileiras em 2019. Em A Dona do Pedaço (2019), o caso aconteceu com Edilene (Cynthia Senek). Ela era empregada e filha do motorista na casa da rica família Guedes. A jovem percebeu o interesse do patrão, Otávio (José de Abreu), e cedeu às investidas dele. 

Otávio não tinha filhos biológicos, pois sua mulher teve problemas para engravidar. Então Edilene resolveu dar ela mesma um filho ao amante. A moça não esperava, no entanto, que ele fosse contra a ideia e exigisse que ela fizesse um aborto.

Ela fez, mas o procedimento foi malsucedido. A novela não teve cenas que retratassem o que aconteceu de errado, mas mostrou Edilene no hospital. Ela sangrou até morrer, nos braços de seu pai.

Protestos na Record

Na Record, o caso de aborto aconteceu com Jandira (Brenda Sabrina), em Topíssima. A menina morava em uma comunidade num morro carioca e tinha ambição de conseguir um marido rico. No entanto, ela ficou grávida de um rapaz que não só não era rico como também era um golpista. Na tentativa de interromper a gravidez, se submeteu a um aborto numa clínica clandestina e morreu durante o procedimento. 

A atriz ainda teve que se explicar nas redes sociais e acalmar telespectadores da Record que foram protestar contra a cena de aborto e a morte de Jandira na frente dos estúdios onde a novela era gravada.

reprodução/record

Aborto na TV: Cena de novela da Record

Jandira morreu em aborto em Topíssima

A Globo ainda explorou o tema em outras produções. Malhação - Toda Forma de Amar (2019-2020) teve cenas da médica Lígia (Paloma Duarte) socorrendo uma jovem que havia feito um aborto clandestino e em péssimas condições.

Na série Segunda Chamada, um episódio chocou o público com a história de Rita (Nanda Costa). Mãe de três filhos, ela já aguardava na fila do SUS para fazer uma laqueadura, mas sempre ouvia de profissionais de saúde questionamentos como "e se você quiser ter outro filho?" e "o que seu marido acha disso?". Rita não conseguiu a cirurgia e acabou engravidando de novo. 

No desespero, optou por um aborto clandestino, mas passou muito mal. Foi encontrada sangrando na escola onde estudava e ainda assim não queria ir para o hospital por medo de ser denunciada e presa. Os professores a levaram ao pronto-socorro mesmo assim, mas a mulher não resistiu e morreu.

reprodução/tv globo

Aborto na TV: Nanda Costa em Segunda Chamada

Situação extrema na série Segunda Chamada

Aborto velado

Antes disso, a questão do aborto foi retratada de forma mais velada. Em Páginas da Vida (2006), por exemplo, Irmã Maria (Marly Bueno) era uma freira sempre muito rígida, fria, que perseguia uma subordinada.

Só no final foi revelado o segredo por trás da amargura dela: na juventude, Maria engravidou de um rapaz com quem não era comprometida e, com medo de enfrentar a família e a sociedade, fez um aborto. No caso dela, o crime de interromper a gravidez não foi punido com a morte, mas com arrependimento e mágoa por toda a vida.

Já em Felicidade (1991), Aracy Balabanian interpretou Paquita, a parteira de Vila Feliz. Ela era paga para fazer abortos em moças desesperadas --tudo feito na clandestinidade e de formas obscuras, claro.

A exceção

O único caso recente de abordagem diferente de aborto nas novelas foi em Bom Sucesso (2019). A personagem Nana (Fabiula Nasimento) engravidou, sem ter certeza se o bebê era de Diogo (Armando Babaioff) ou de Mario (Lucio Mauro Filho).

Nana ficou na dúvida se queria ou não ter o bebê --ela era executiva, de família rica, e tinha as opções de criar a criança com conforto, pagar por remédios ou um aborto numa clínica cara (ainda que clandestina) no Brasil ou mesmo viajar e fazer o aborto em outro país. 

Na ocasião, Paloma (Grazi Massafera) descobriu o teste de gravidez de Nana, a confrontou e tentou convencê-la a não abortar, mas a grávida tinha o discurso na ponta da língua. 

"Primeiro, ainda nem é um bebê. É um embrião! Não tem coração, nem sistema nervoso. Nada. Não é nem humano. Entendeu? Eu não sou a favor do aborto. Ninguém é. Eu sou a favor de ter escolha. Eu só quero poder decidir sobre o meu corpo, minha vida. E nem decidi ainda", disse. Nana acabou perdendo o bebê por causas naturais.


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