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ANÁLISE
REPRODUÇÃO/RECORD

José Loreto como Scorpion em Os Mutantes (2008); novela pode ser grande acerto da Record na web
A Record pode até estar chegando atrasada ao fenômeno das novelas verticais, mas escolheu uma franquia que parece ter sido feita para esse formato. Ao preparar Mutantes - Nova Era, sua primeira produção pensada para o consumo em celulares e ligada diretamente à trilogia Os Mutantes (2007-2009), a emissora encontra no próprio passado uma história que conversa de maneira curiosa com a lógica das redes sociais.
É difícil pensar em uma novela brasileira mais adequada à linguagem do TikTok antes mesmo de o TikTok existir. No final dos anos 2000, Os Mutantes tinha criaturas, poderes, transformações, vampiros, lobisomens, experiências genéticas e situações que pareciam pedir para ser recortadas em pequenos vídeos --não à toa, a produção se tornou meme anos depois de ir ao ar.
O tempo produziu um segundo ciclo para a novela. Cenas de efeitos visuais datados, personagens caricatos e situações deliberadamente fantásticas passaram a ganhar outra leitura nas redes sociais.
Os Mutantes oferece aquilo que a internet costuma transformar em assunto: uma cena capaz de provocar surpresa, estranhamento ou simplesmente a pergunta "o que eu acabei de assistir?".
A Record acerta ao perceber que a peculiaridade da franquia pode ser uma vantagem. Uma novela vertical precisa fisgar o público rapidamente, em uma tela pequena e em meio a uma infinidade de outros conteúdos.
Os Mutantes já carregava uma quantidade incomum de elementos capazes de chamar a atenção individualmente. Não era necessário acompanhar toda a mitologia para se interessar por uma criatura, uma transformação ou uma situação absurda.
É quase como se a novela tivesse antecipado, de maneira involuntária, uma estética que hoje prospera nas redes: quanto mais inesperada a imagem, maior a chance de ela provocar reação.
Recentemente, o fenômeno das novelas de frutas criadas por inteligência artificial tomou conta das redes sociais. Apesar de o Abacatudo e a Moranguete já terem sumido do radar do público, eles provaram que é possível viralizar pelo estranhamento.
Os Mutantes fazia algo parecido com os recursos disponíveis para a TV em 2008. A comparação é obviamente injusta do ponto de vista técnico, mas faz sentido quando se pensa na lógica de consumo: o inesperado prende o olhar.
Isso também ajuda a explicar por que a escolha é mais inteligente do que simplesmente ressuscitar uma marca conhecida. A Record poderia ter criado uma história inédita para estrear no formato vertical, mas Mutantes - Nova Era parte de um universo que já tem reconhecimento e, principalmente, uma relação particular com a cultura da internet.
A nova produção ainda terá ligação com a versão de 2008 e contará com alguém ligado ao elenco original, embora o nome não tenha sido divulgado, o que a torna ainda mais provável de alcançar o público certo.
A aposta, portanto, tem uma ironia interessante: a Record tenta correr atrás do atraso das novelas verticais usando justamente uma novela que, quase duas décadas atrás, já parecia pertencer a um futuro que a TV ainda não conhecia.
Os Mutantes talvez não tenha sido concebida para o TikTok, mas descobriu antes dele uma das regras mais importantes das redes: às vezes, o que parece absurdo demais para ser levado a sério é exatamente aquilo que ninguém consegue parar de assistir.
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