CONTEÚDO MISÓGINO

Como novas regras para big techs podem atingir novelinhas de fruta feitas por IA

REPRODUÇÃO/TIKTOK

Imagem mostra personagens de IA em forma de frutas: laranja e cebola à esquerda; morango e cenoura em escritório à direita

Cebola Sebosa e Moranguete: estereótipos negativos sobre mulheres nas novelinhas de frutas

DANIEL FARAD

vilela@noticiasdatv.com

Publicado em 25/5/2026 - 9h00

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As novas regras para a atuação das grandes empresas de tecnologia --as big techs--, aprovadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na última quarta-feira (20), podem colocar no radar um dos fenômenos mais populares e também mais problemáticos das redes sociais: as "novelinhas de fruta". Produzidos com inteligência artificial e embalados por uma estética colorida e linguagem de fácil consumo entre adolescentes, esses vídeos preocupam pais e responsáveis por reproduzir discursos associados a "machosfera", com narrativas que desvalorizam mulheres e naturalizam estereótipos misóginos.

Os decretos atualizam o Marco Civil da Internet e obrigam as plataformas a criar canais oficiais para receber notificações sobre crimes e atos ilícitos, analisando denúncias e removendo imediatamente conteúdos considerados criminosos --como fraudes, exploração sexual de crianças e adolescentes, incentivo a automutilação, terrorismo e violência contra mulheres.

Essa fiscalização vai ficar a cargo da ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados), que não poderá determinar a retirada de postagens individuais, mas avaliará se as empresas de tecnologia adotam mesmo medidas técnicas para prevenir e reduzir a circulação massiva de conteúdos criminosos.

Especialistas ouvidos pelo Notícias da TV apontam que as "novelinhas de fruta" habitam uma zona cinzenta, em que muitas vezes os discursos de ódios estão disfarçados ou diluídos na estética colorida e no humor.

Para Daniela Zanetti, professora associada do departamento de Comunicação Social da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), é esperado que os novos decretos lançados pelo presidente Lula possam contribuir para coibir esse tipo de conteúdo.

"Todavia, para tanto, é preciso haver forte denúncia e conscientização das pessoas acerca do problema desse tipo de conteúdo, para que as novelas não sejam vistas como inofensivas, mas parte de uma cultura que normaliza a misoginia e o discurso de ódio contra as mulheres, tão presente na chamada 'machosfera'", alerta.

Ódio disfarçado de humor

A pedido da reportagem, Daniela analisou alguns conteúdos que reproduzem estereótipos negativos sobre mulheres. Entre eles, estão a "cebola sebosa" --retratada como uma mulher feia, acima do peso e manipuladora, que se aproveita da inocência de um marido bom-- e a "moranguete", personagem que trai o marido, apresentado como um trabalhador digno e braçal, com o gerente do local onde trabalha.

"Como inúmeros outros produtos gerados nas mídias sociais atualmente, encontramos nessas 'novelinhas' um misto de misoginia e reprodução de valores patriarcais, colocando o homem em uma posição de vítima de mulheres aproveitadoras, interesseiras, traidoras ou relapsas", explica.

"Seguindo também um ideal de masculinidade herdado das histórias tradicionais de super-heróis e também certos tipos de games, as figuras masculinas representadas em geral são másculas, enquanto as figuras femininas são representadas como objetos --sexual ou reprodutivo-- estando à serviço dos homens ou, em outra esfera, querendo 'enganá-los'", acrescenta.

Na avaliação da especialista, a inteligência artificial permite que esses conteúdos sejam produzidos em grande escala, de forma rápida e simples, enquanto a estrutura de novela ajuda a prender a atenção de um público cada vez mais disperso nas redes:

A narrativa simplificada e ágil, que utiliza também do humor, e formatada para ser consumida pelo aparelho de celular, são elementos que favorecem a adesão do público. Nesse sentido, sim, essas novelinhas trazem em sua essência formas de violência simbólica contra as mulheres.

Daniela lembra que esse tipo de conteúdo soma-se a outras frentes, como influenciadores "red pill" --nome dado a comunidade ligada a "machosfera", que defende uma visão ressentida das relações entre homens e mulheres-- fazendo parte do que chama de "verdadeira cadeia de produção de discursos misóginos" nas redes sociais.

"E o que é pior: por conta da estética dessas novelinhas, que utilizam desenho animado, com frutas antropomorfizadas, cenários e personagens coloridos, há uma falsa impressão de 'inocência', como se fosse um conteúdo voltado para o público infantil, quando na verdade é altamente prejudicial para crianças e adolescentes, pois reforça estereótipos de gênero e dissemina modos de relacionamentos familiares e sociais negativos", arremata.


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