FORA DE COGITAÇÃO

Com evangélica e amor de mãe, Três Graças faz campanha velada contra aborto

REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Alana Cabral contracena com Sophie Charlotte na novela Três Graças, da TV Globo

Joélly (Alana Cabral) e Gerluce (Sophie Charlotte): mãe e filha engravidaram na adolescência

MÁRCIA PEREIRA, colunista

marcia@noticiasdatv.com

Publicado em 28/10/2025 - 6h10

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Três Graças constrói com zelo um enredo que evita qualquer associação direta à palavra "aborto", mas dissemina com clareza uma mensagem de condenação à prática. A história da adolescente Joélly (Alana Cabral), grávida aos 15 anos, exemplifica como a Globo estrutura uma campanha velada, repetindo um padrão já visto em outras produções da casa: não há espaço para debater a interrupção de uma gestação mesmo na ficção.

Nos próximos capítulos, Raul (Paulo Mendes) tentará convencer a namorada de que não vale a pena seguir com a gestação. Joélly, mesmo abalada, rejeitará com veemência a ideia. A novela mostrará que, mesmo diante do medo e da pressão, ela se manterá firme.

A evangélica Kellen (Luiza Rosa), sua melhor amiga, não deixará dúvidas quando o assunto for tocado entre as duas: "Isso é pecado". Já a avó da menina, Lígia (Dira Paes), afirmará que nunca cogitou "tirar" a filha e que Gerluce (Sophie Charlotte) se tornou a melhor parte de sua vida.

A personagem de Sophie Charlotte, por sua vez, repetirá o discurso: foi difícil ser mãe adolescente, mas nunca pensou em outra opção. Em nenhuma dessas cenas haverá tom de debate. 

O reforço dessa visão chegará até pelo submundo do crime, com a entrada de Samira (Fernanda Vasconcellos), uma chef de cozinha que também atua como traficante de bebês. Ela se posicionará de maneira contrária ao aborto, dirá que tirar um filho é a pior besteira que alguém pode fazer e que se orgulha de ter entregue o bebê que teve no passado para a adoção.

Segundo Samira, isso salvou a criança e a impediu de cometer um erro irreparável. Ou seja: a criminalidade é permitida, mas abortar, jamais.

Esse padrão já esteve presente em outras novelas da Globo. Em Vale Tudo, por exemplo, nem mesmo Maria de Fátima (Bella Campos), uma das vilãs mais amorais da teledramaturgia, cogitou a interrupção da gravidez.

Ela engravidou do amante, não sentiu afeto algum pela criança e, mesmo assim, decidiu ter o bebê para, depois, entregá-lo à mãe, Raquel (Taís Araujo), sem qualquer vínculo emocional. Era o cenário perfeito para sugerir um aborto, mas o remake evitou essa possibilidade como se fosse um tabu.

Vale lembrar que essa resistência editorial já provocou desgaste nos bastidores. A novela de Gloria Perez, prevista para ocupar a faixa das nove neste ano, acabou cancelada. Um dos motivos foi justamente o enredo: a trama partia de um aborto forçado.

Com Três Graças, a emissora volta a sinalizar que não quer, sob hipótese alguma, ser associada à defesa do direito ao aborto --mesmo que a história, os personagens e a realidade social indiquem esse questionamento. A ficção, neste caso, ignora o debate e oferece apenas um caminho possível: a maternidade.

No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, o aborto é permitido em três situações: gravidez decorrente de estupro e estupro de vulnerável (menores de 14 anos); presença de risco de vida para a mulher não necessariamente iminente, mas relacionado a condições de saúde pré-existentes; e em caso de anencefalia fetal.

Leia também -> Resumo dos capítulos da novela Três Graças

Três Graças é uma novela criada por Aguinaldo Silva em parceria com Virgílio Silva e Zé Dassilva. A história é ambientada em São Paulo e ficará no ar até maio de 2026.


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