A gente manda.
Você recebe.
Depois manda a real pra todo mundo.
DA MINA PARA A NUVEM
REPRODUÇÀO/TV GLOBO

Jendal (Lázaro Ramos) na mina de tungstênio com os exploradores ingleses em A Nobreza do Amor
O celular que você provavelmente tem em mãos agora possui uma relação muito mais complexa com A Nobreza do Amor do que se imagina. E não apenas pela mudança no perfil de consumo da teledramaturgia, como a Globo sempre lembra ao incluir números do Globoplay ou das mídias digitais na divulgação dos dados de audiência. Tem a ver com a tal "nuvem" em que se guarda desde uma foto do animal de estimação a um documento importante. Ela não está no céu, nem paira no ar: está fincada na terra, ocupando galpões gigantescos, consumindo energia e dependendo da extração de recursos naturais. Um mundo digital que começa justamente em minas --como as de tungstênio, cuja disputa levou à turbulência política no fictício reino de Batanga.
O telespectador pode até pensar que, ao ver Jendal (Lázaro Ramos) articulando um golpe de Estado para continuar negociando o mineral com os ingleses, está diante de um retrato distante, típico dos livros de história. Mas, como o Notícias da TV já mostrou, o vilão poderia muito bem não estar apenas na novela das seis, mas também nas manchetes do Jornal Nacional.
Uma das principais pesquisadoras sobre inteligência artificial, a norte-americana Kate Crawford costuma destacar que o aprendizado de máquina (ou machine learning) está longe de ser uma estrutura abstrata, dissociada da realidade material. Ao contrário, ele depende de uma infraestrutura física complexa e intensiva em recursos.
Uma simples pergunta feita ao ChatGPT, por exemplo, não consome apenas alguns megabytes, mas também recursos concretos: energia elétrica --que, mesmo no Brasil, ainda não é totalmente de origem renovável--, água utilizada para resfriamento de servidores e, ainda, força de trabalho humana envolvida na manutenção e no treinamento desses sistemas.
O próprio tungstênio no folhetim ainda faz parte da cadeia de produção, especialmente de smartphones, assim como os minerais que fazem parte de um grupo que já ganhou bastante destaque no Jornal Nacional: as tais "terras raras", que despertam tanto interesse do presidente Donald Trump sobre os recursos ainda pouco explorados no Brasil.
reproduçÃo/tv globo

As minas de A Nobreza do Amor
A Nobreza do Amor nunca teve a intenção de ser uma ficção histórica. Ainda assim, é curioso como uma trama ambientada no início do século 20 dialoga tão bem com o presente. A disputa de Jendal pelas minas de tungstênio pode até parecer algo distante, mas o vilão funciona menos como um personagem do passado e mais como um retrato de dinâmicas que continuam atuais.
Ele não é o único recurso usado pelos autores Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr para aproximar passado e presente, mas talvez seja o mais evidente. Jendal tem algo de figuras políticas contemporâneas, como Donald Trump, mas também lembra bilionários da tecnologia, como Bill Gates ou Elon Musk --personagens cujo poder não vem apenas da política, mas principalmente da força econômica.
No caso do vilão, o que sustenta sua ambição não é o casamento com Alika (Duda Santos), que lhe daria direito à coroa de Batanga, mas sim o controle das minas. Elas aparecem pouco na trama, mas são constantemente citadas, assim como acontece na vida real. Quem usa um celular com bateria de lítio, por exemplo, raramente imagina de onde vem o material, muitas vezes extraído de regiões remotas, como desertos no Chile ou salares na Bolívia.
Essa distância cria a impressão de que se trata de uma indústria limpa, associada a práticas sustentáveis ou a promessas de neutralidade de carbono --algo que muitas empresas de tecnologia costumam destacar. Mas a realidade é mais complexa.
Uma simples pergunta feita ao ChatGPT consome energia e recursos naturais. Da mesma maneira, celulares produzidos com minerais que levaram milhões de anos para se formar costumam durar poucos anos antes de serem substituídos. Essas são, de certa forma, as nossas minas de tungstênio --tão distantes do olhar do público quanto são, na novela, para o próprio Jendal.
Leia também -> Resumo dos próximos capítulos de A Nobreza do Amor.
A Nobreza do Amor tem como protagonistas a princesa africana Alika, interpretada por Duda Santos, e o trabalhador brasileiro Tonho, vivido por Ronald Sotto. A trama conta com a direção artística de Gustavo Fernandez
e é ambientada na década de 1920.
A história escrita por Duca Rachid, Júlio Fischer e Elisio Lopes Jr se desenvolve em dois universos fictícios: o reino de Batanga, na costa ocidental da África, e a cidade de Barro Preto, localizada no Rio Grande do Norte.
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