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VALE A PENA FAZER DE NOVO

5 razões que mostram que um filme é pouco para homenagear A Viagem

Estevam Avellar/TV Globo

Homem branco, loiro, usando roupas pretas, com expressão séria.

Pedro Novaes como Alexandre no filme A Viagem; novela merece mais do que adaptação para cinema

DUH SECCO, colunista

duh@noticiasdatv.com

Publicado em 11/5/2026 - 18h00

O filme inspirado em A Viagem está mexendo com a cabeça dos noveleiros! Da escalação do elenco ao corte de personagens, tudo vira tema de debate desde que as primeiras informações sobre o longa foram divulgadas --um indicativo do apreço do público pela trama de Ivani Ribeiro (1922-1995).

Talvez uma adaptação de duas horas (ou menos) seja insuficiente para abarcar a grandiosidade da novela. A coluna aponta cinco razões para que a Globo revisite A Viagem com uma terceira versão para a TV.

Construção narrativa

DIVULGAÇÃO/TV GLOBO

Antonio Fagundes e Christiane Torloni em A Viagem

Produzida pela Tupi em 1975 e atualizada pela Globo 19 anos depois, A Viagem retrata o amor transcendental de Diná e César/Otávio --o nome foi alterado no remake por conta da presença de um César (Reginaldo Faria) na antecessora Olho no Olho (1993). Eva Wilma (1933-2021) e Christiane Torloni responderam por Diná, vivida por Carolina Dieckmmann no cinema. Altair Lima (1936-2002) e Antonio Fagundes defenderam César/Otávio, entregue a Rodrigo Lombardi na nova adaptação.

Foi a versão da Globo que entrou para o imaginário do espectador, já que a da Tupi passou décadas "perdida" --os capítulos preservados estão no acervo da Cinemateca Brasileira. Com três reapresentações na TV aberta e outras três no Canal Viva/Globoplay Novelas, o remake de A Viagem conquistou uma legião de fãs, em parte pelo enredo bem construído por Ivani.

As expectativas criadas pelo roteiro vão desde o acerto do casal protagonista em vida até o reencontro após a morte. Os arcos dramáticos que conectam estes dois pontos da história são armados de uma maneira que só mesmo o gênero novela permite. Um filme não terá a mesma profundidade.

'Terapia do luto'

DIVULGAÇÃO/TV GLOBO

Yara Cortes, Christiane Torloni e Cláudio Cavalcanti em A Viagem

Grande parte do sucesso de A Viagem está na abordagem do luto. Qualquer pessoa que tenha enfrentado a morte de um ente querido, independentemente da crença, pode ser confortada pela narrativa. Nenhuma outra história mergulhou tão fundo no processo de reconstrução de quem fica.

Diná enfrenta o luto duas vezes. Ela perde o irmão Alexandre (Ewerton de Castro/Guilherme Fontes), que tira a própria vida após ser condenado por latrocínio. Com o passar do tempo, a revolta contra César/Otávio, que atuou como promotor no julgamento de Alexandre, dá lugar à paixão. É quando o advogado morre, deixando a mocinha entre a ira e a depressão.

Com a partida dela, já na reta final, a família Veloso, que a tinha como esteio, precisa se restabelecer. Em meio à dor, os irmãos de Diná negligenciam a mãe, abalada desde a morte do caçula Alexandre. Todas as fases do luto, que só quem viveu conhece, são compreendidas pelo enredo.

As mensagens da doutrina espírita, disseminadas pelo doutor Alberto, servem como consolo para espectadores de todas as religiões. Alberto, interpretado por Rolando Boldrin (1933-2022) e Cláudio Cavalcanti (1940-2013), será de Eriberto Leão nos cinemas.

Personagens inesquecíveis

BAZILIO CALAZANS/TV GLOBO

Laura Cardoso em A Viagem

A versão cinematográfica de A Viagem, até por limitações de tempo, exclui várias figuras de peso na novela. Inclusive as que dominam as redes sociais, com memes tão famosos quanto os estrelados por Alexandre --Pedro Novaes fará o fantasma nada camarada no longa.

Entre as ausências está Guiomar, que foi de Carminha Brandão (1921-2011) na Tupi e de Laura Cardoso na Globo. Influenciada pelo espírito de Alexandre, Guiomar perturba o casamento da filha Andrezza (Joana Fomm/Thaís de Campos) com Raul, irmão que o vilão sobrenatural responsabiliza por sua prisão --vivido por Adriano Reys (1933-2011) e Miguel Falabella.

Cininha, que ganhou as redes sociais com a cena em que aparece com uma camiseta da Madonna e um saco de pão, também ficou de fora. Nair Bello (1931-2007) defendeu no remake a personagem de Lúcia Lambertini (1926-1976), então Cidinha, na primeira versão. Ainda, o Sombra, de Carlos Augusto Strazzer (1946-1993), rebatizado na segunda versão como Mascarado (Breno Moroni), tipo misterioso escondido atrás de uma máscara que comoveu, mas também aterrorizou, o público.

Participações afetivas

BAZILIO CALAZANS/TV GLOBO

Fernanda Rodrigues e Lucinha Lins em A Viagem

Do elenco de A Viagem na Globo, apenas Lucinha Lins estará no filme. A atriz, que viveu Estela, irmã de Diná, agora fará Maroca, matriarca dos Veloso --papel de Yara Cortes (1921-2002) no remake. Fernanda Rodrigues, que respondeu por Bia, herdeira de Estela, lamentou não ter sido convidada para, assim como Lucinha, passar de filha à mãe.

Participações afetivas em releituras ampliam o interesse do público pelas mesmas. Mas, com as limitações impostas pelo novo formato de A Viagem, fica impossível convocar tantos nomes. É lamentável que Antonio Fagundes, Christiane Torloni e Guilherme Fontes também não apareçam nem mesmo em pontas, algo que, certamente, engrandeceria o longa.

Em uma novela, há mais espaço para reverências. Basta lembrar as participações do time da primeira versão de Pantanal (1990, da Manchete) na atualização realizada em 2022 pela Globo.

Remakes são bem-vindos

divulgação/tv globo

Guilherme Fontes em A Viagem

Boas novelas podem e devem ser revisitadas de tempos em tempos, através de reprises ou regravações. A Viagem é uma delas, pela atemporalidade da história, pela força da mensagem e pelas cenas inesquecíveis. Também para as devidas correções –há tramas paralelas que já não funcionavam nada bem em 1994, como a de Zeca, interpretado por Irving São Paulo (1964-2006), e Sofia (Roberta Índio do Brasil).

Remakes são arriscados. Há os que dão certo, como Ti Ti Ti (2010) e Pantanal. Há os que passam batido, caso de Saramandaia (2013). Há os que irritam, como Vale Tudo (2025). Este, apesar da repercussão, incomodou quem esperava uma obra tão contundente nas reflexões sobre o Brasil quanto a original, de 1988. Por outro lado, graças ao streaming, as tramas que servem de referência para as atualizações seguem preservadas e podem ser revistas por fãs ou curiosos de tempos em tempos.

O burburinho que a adaptação para o cinema tem causado mostra que A Viagem merece uma nova versão na TV, no formato que a consagrou.


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