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NO RIO2C
DIVULGAÇÃO/RIO2C

William Bonner durante o Rio2C; jornalista fez a abertura do primeiro painel da Globo no evento
A Globo acredita que o brasileiro não sabe definir a própria cultura. Para a emissora, isso não é algo negativo, mas uma oportunidade de ouro na TV aberta. A conclusão foi compartilhada pela líder de audiência durante painel no Rio2C, evento de inovação que acontece no Rio de Janeiro até este domingo (31), e reúne diversos profissionais do audiovisual, além de outros players do mercado.
Durante o painel intitulado Cultura no Espelho, que contou com a abertura feita por William Bonner e Manuel Belmar (diretor-geral de Finanças da Globo), Felipe Nunes, CEO da Quaest, e Suzana Pamplona, diretora de Pesquisa e Conhecimento da Globo, apresentaram alguns dados do levantamento --uma parceria da emissora com o instituto de pesquisa.
O novo estudo da Globo e da Quaest, um desdobramento da pesquisa Brasil no Espelho, revela como a desigualdade e o repertório familiar moldam a identidade brasileira. Segundo o levantamento, 25% dos brasileiros não sabem definir o que é "cultura".
Culinária e música são os principais pontos de consenso, com destaque para "arroz e feijão". Na música, apesar de o samba ser lembrado como identidade, o sertanejo e o gospel dominam as playlists reais. No geral, brasileiros se sentem pouco representados pela "cultura brasileira".
Contudo, o ponto mais sensível apontado no painel, foi a conclusão de que o país carece de novos símbolos; Ayrton Senna (1960-1994) e Pelé (1940-2022) ainda lideram o orgulho nacional. Ou seja, ídolos do passado. Em uma longa explanação, o CEO do instituto de pesquisa argumentou o quanto os dados apontavam para um espaço "vazio" que precisa ser ocupado.
"Consumo não significa identidade cultural. Mas se uma coisa é consumir e gostar, e outra é achar que aquilo representa o país, como ampliamos essa noção? O que é, então, a vivência cultural para as pessoas? Uma das minhas hipóteses é que, para ganharmos ainda mais representatividade na nossa cultura, todos nós temos uma função importantíssima. Precisamos voltar a pensar estrategicamente em como usar a cultura para criar referências e ídolos --pessoas que serão vistas como modelos pela sociedade", pontuou Felipe Nunes em sua fala.
"Quando perguntamos aos brasileiros: 'Quem é o artista famoso que te dá mais orgulho de ser brasileiro?', 37% citam algum cantor, 19% citam um ator ou atriz, 8% um apresentador de televisão, 5% um atleta, 2% um escritor e apenas 1% cita um influenciador digital. Na era dos influencers, eles parecem dar muito pouco orgulho aos brasileiros. Esse é um recado importante", explicitou o CEO da Quaest.
"Quando perguntamos diretamente os nomes, o resultado foi: Silvio Santos [1930-2024] (7%), Roberto Carlos (6%), Fernanda Montenegro (3%), seguidos por Tony Ramos, Antonio Fagundes, Tarcísio Meira [1935-2021], Marília Mendonça [1995-2021] e uma lista de outros nomes. Porém, 18% não souberam responder e 12% disseram 'nenhum'. É muita gente", ele apontou.
De acordo com a pesquisa, cultura de mídia e cultura religiosa estão entre as mais vivenciadas entre os brasileiros. Apenas 16% leem com frequência, tendo a Bíblia como obra principal. Museus e teatros são as atividades menos praticadas no país. Apenas 2% dos brasileiros têm alto poder aquisitivo e alto repertório cultural simultaneamente. Já 9% têm alto capital cultural, apesar de baixo capital econômico.
"A conversa já começa com uma grande parcela da população sem referência. E aqui cabe uma provocação: esses nomes que aparecem como referência são referências do passado. Nada contra o passado, que deve ser preservado e valorizado, mas onde estão os novos ídolos do Brasil?", provocou Nunes.
"Para mostrar como a situação é dura, na geração '.com' [que nasceu após 2000], os novos nomes da cultura nacional que aparecem são Marília Mendonça e Anitta. Mas elas são muito minoritárias. É uma geração que precisa de ídolos, mas não tem isso construído", disse o pesquisador.
O CEO do instituto de pesquisa ponderou que, ao analisar os dados relacionados ao consume de cultura erudita, descobriu-se que apenas 1% frequentava o teatro sempre, 2% iam a museus, 4% frequentavam casas noturnas, e o mesmo percentual visitava exposições de arte ou ia a livrarias.
Por outro lado, ele apontou que passear ao ar livre e praticar esportes atraem 30% e 25% das pessoas, respectivamente, enquanto a leitura de livros fica em 20%. "O fato é que os brasileiros vivenciam a cultura de maneira diversa, embora ainda muito desigual. A mídia acaba funcionando como uma companheira que preenche a falta de acesso a outros tipos de cultura", resumiu Nunes.
"Sabendo por meio de estudos que se identificar e se enxergar no outro é fundamental para construir a representatividade, como fazemos para produzir ídolos ou referências que conversem com as pessoas? Isso ainda é possível? Essa é uma pergunta para todo mundo que faz e produz cultura", disse ele.
Olhando especificamente para a cultura de mídia, a pesquisa apontou que 64% dos brasileiros usam redes sociais sempre e 45% consumem conteúdo por streaming frequentemente. Os dados ressaltam que a TV aberta ainda é consumida sempre por 36% dos brasileiros, e a TV paga por 31%. Diante disso, Nunes ponderou que vida da população é permeada por mídia o tempo todo, seja ela a tradicional ou a digital.
"O que eu tenho certeza é que sem ídolos que sirvam de modelos, exemplos e que tenham atitudes admiráveis vistas publicamente como relevantes, teremos muito mais dificuldade para consolidar uma identidade cultural nacional. Precisamos trabalhar estrategicamente na construção desses nomes", apontou.
O Notícias da TV leu na íntegra o livro Brasil no Espelho: Um Guia para Entender o Brasil e os Brasileiros, elaborado a partir de uma pesquisa da Quaest realizada entre novembro e dezembro de 2023. O levantamento ouviu 9.994 pessoas com mais de 16 anos, em 340 municípios sorteados nos 26 Estados e no Distrito Federal.
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