A gente manda.
Você recebe.
Depois manda a real pra todo mundo.
GUSTAVO REIZ
João Miguel Júnior/TV Globo

Gustavo Reiz estudou a fundo o universo dos microdramas e agora lança livro sobre o assunto
De olho no público que não larga o celular, a Globo se rendeu ao universo dos dramas verticais e engatou projetos bem-sucedidos como Tudo por Uma Segunda Chance e Loquinha. Mas a emissora poderia ter entrado nessa seara muito antes, pois já teve em seu time de contratados o autor Gustavo Reiz, que fez Fuzuê (2023) e, pouco depois, se tornou uma espécie de expoente das novelinhas no Brasil --não por acaso, ele é a cabeça pensante por trás de Uma Babá Milionária, lançada em março no Globoplay.
"Eu percebo que a gente tem um potencial enorme de produção e de criatividade, o que me anima e me motiva. É muito bom ver o mercado num ritmo tão acelerado. E sei que a gente ainda está no início, que há muito mais a ser explorado. Tenho muitos encontros com produtoras e com marcas interessadas em investir no gênero, um sinal de que ele é muito potente", valoriza Reiz em entrevista exclusiva ao Notícias da TV.
Com a experiência de quem já trabalhou tanto em telenovelas tradicionais --antes de Fuzuê, ele havia assinado obras como Escrava Mãe (2016) e Belaventura (2017) na Record-- quanto nos microdramas, o autor sabe que as comparações entre os formatos são inevitáveis, mas ressalta que elas precisam ser superadas o quanto antes.
"É óbvio que as telenovelas são a nossa base de dramaturgia, mas o que estamos desenvolvendo é um mercado novo, um gênero novo, com uma linguagem própria, então precisamos também de novos parâmetros para análise. Não dá para comparar com a telenovela porque é algo muito diferente", observa ele, que até prefere usar a nomenclatura "microdrama" no lugar de "novelinhas verticais" para minimizar qualquer analogia.
Reiz acredita que um estranhamento inicial é natural, já que os microdramas apostam em uma narrativa muito direta, sem núcleos secundários, sem falas longas demais nem momentos de silêncio e contemplação. Os episódios, afinal, precisam ir direto ao ponto para prender a atenção do público e evitar que ele fuja para outro aplicativo ou site. O autor aponta, porém, que há semelhanças entre os gêneros que podem ajudar na transição:
O microdrama é feito em cima do melodrama, que também é a base da telenovela. Por isso, os personagens são tão bem definidos: o herói correto, a mocinha sem falhas de caráter, a vilã obsessiva... São histórias com grande densidade emocional. Tantos anos e formatos depois, a gente acaba voltando ao elemento básico de qualquer boa história, que é a emoção.
Gustavo Reiz defende, inclusive, que os microdramas brasileiros podem ganhar complexidade conforme o mercado avança --assim como a telenovela foi de uma mera adaptação de narrativas estrangeiras a histórias locais cada vez mais complexas. "Acredito que essa evolução vai ocorrer a partir do momento em que nós formos desenvolvendo a nossa identidade."
"Como estamos começando num mercado que já se desenvolve lá fora há muitos anos, acho importante pegar alguns insights do exterior para replicar aqui e não repetir os erros que eles já cometeram, porque é um formato testado e aprovado. Depois, vamos desenvolver uma identidade narrativa, moldar isso para a nossa identidade, mas sem esquecer a natureza do formato nem fugir de certas estruturas que são a base do gênero", ensina.
Reiz conhece tão bem as estruturas e as características das narrativas verticais que está lançando o livro Microdramas - Entendendo a Revolução Vertical, da Summus Editorial. Na obra, ele faz um histórico do gênero e entrega as ferramentas para quem deseja escrever as próprias tramas.
"É um universo muito interessante e, para quem gosta de histórias, como eu, é um universo muito atraente. O livro é uma reunião de pesquisas que fiz, não só de teorias, mas da prática também. Trago um pouquinho de insights lá de fora que podem inspirar iniciativas aqui também", justifica.
Sem a pretensão de criar um manual engessado do que fazer, o autor prefere dar sugestões de gêneros a serem explorados, de maneiras de construir sua sinopse e até de ganchos para o fim de cada capítulo. Ele recomenda até maneiras de monetizar os projetos.
Sobre quem é crítico ao gênero, Reiz é direto. "Sempre vai ter gente olhando torto. Mas, se você acredita em uma escolha, tem que cair dentro. Existe um mercado amplo e há dados que comprovam isso; então, só é preciso atrair mais pessoas que pensam como você!", crava o escritor.
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