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CRÍTICA
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Jacob Elordi e Margot Robbie são os protagonistas do filme "O Morro dos Ventos Uivantes"
A versão de O Morro dos Ventos Uivantes de Emerald Fennell deixa claro que a diretora não brincou quando disse que aquela era "sua visão" da história. A britânica transforma o clássico de Emily Brontë (1818-1848) em uma experiência sensorial intensa, carregada de erotismo e cores saturadas. É um filme pensado para a tela grande, com uma direção de arte minuciosa e imagens bonitas, porém com um roteiro que foge da obra original.
O problema surge quando o deslumbramento estético não encontra sustentação dramática à altura. Fennell preserva o esqueleto da história --a relação obsessiva entre Heathcliff (Jacob Elordi) e Catherine Earnshaw (Margot Robbie), marcada por desejo reprimido, ressentimento e destruição--, mas opta por uma leitura que se afasta do espírito do original e adota uma relação amorosa problemática.
Aqui, O Morro dos Ventos Uivantes não busca dialogar com os leitores de Brontë, e sim com um público acostumado a narrativas do romance sombrio, em que a provocação visual e o choque sensorial se sobrepõem à construção psicológica.
No primeiro ato, a obsessão de Catherine ganha um peso desproporcional, enquanto Heathcliff, tradicionalmente um personagem cruel e ambíguo, surge quase como um herói corrompido pelas circunstâncias. O ponto alto da narrativa é o de mostrar que Heathcliff, apesar de controverso, foi moldado pelos constantes abusos a que foi submetido --inclusive por Catherine.
O desequilíbrio enfraquece a essência trágica da obra: o amor entre os dois deixa de ser uma força igualmente destrutiva para se tornar uma dinâmica em que Cathy conduz o colapso emocional da narrativa. Margot Robbie entrega uma performance física, intensa, mas sua personagem perde camadas ao ser reduzida a um desejo performático.
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Elordi e Margot em cena da adaptação
Emerald Fennell aposta no excesso como linguagem. A câmera insiste em fluidos corporais, corpos molhados, alimentos sendo amassados, feridas expostas e símbolos sexuais pouco sutis.
A estética "úmida" e "viscosa", reforça a ideia de um filme mais interessado em provocar sensações do que em aprofundar conflitos. Em determinados momentos, o longa flerta com o grotesco e o melodrama de forma consciente, mas nem sempre encontra equilíbrio entre o ridículo e o trágico.
O filme agrada mais pela ousadia formal do que pela fidelidade narrativa. Há na abordagem uma reinvenção válida, quase um Wuthering Heights para a "geração Bridgerton", acostumada a romances de época com pitadas mais intensas, que dificilmente seriam retratada nos livros quando foram escritos.
O Morro dos Ventos Uivantes de Emerald Fennell funciona melhor como experiência estética do que como adaptação literária. É um filme que seduz os olhos, mas frustra quem espera um roteiro à altura da complexidade moral e psicológica de Emily Brontë. Fascinante na forma, raso no conteúdo, o longa confirma o talento visual da diretora para marcar suas obras.
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