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SALMO 66

Por que último Invocação do Mal é o atestado de óbito do terror americano?

REPRODUÇÃO/NEW LINE CINEMA

Mulher jovem de franja e vestido branco aparece assustada em sala cercada por espelhos, refletindo múltiplas imagens de uma noiva

Judy (Mia Tomlinson) em Invocação do Mal 4: referência ao filme noir A Dama de Xangai (1948)

DANIEL FARAD

vilela@noticiasdatv.com

Publicado em 9/9/2025 - 11h00

Os números de Invocação do Mal: O Último Ritual mostram a força da franquia criada por James Wan no circuito comercial de cinema. O longa que marca a despedida de Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga) liderou as bilheterias brasileiras na última semana, com R$ 42 milhões arrecadados entre quinta (4) e domingo (7). Ainda assim, a produção soa menos como uma carta de amor ao terror e mais como um atestado de óbito para o gênero em Hollywood.

[ATENÇÃO: O texto contém revelações sobre o enredo principal, ou seja, spoilers]

O próprio filme se constrói como uma grande homenagem ao horror, com referências diretas a clássicos como O Exorcista (1973). As imagens que mostram a casa da família Smurl levam o mesmo filtro da residência de Regan (Linda Blair); assim como a cena em que Dawn (Beau Gadson) vomita no meio de um jantar é visivelmente inspirada na adaptação do livro de William Peter Blatty (1928-2017).

Em uma das cenas em que o padre Gordon (Steve Coulter) vai até a igreja para pedir autorização ao bispo para um exorcismo, é possível ver um homem muito parecido com o padre Karras (Jason Miller) deixando o edifício ao lado de um colega, que curiosamente lembra o padre Merrin (Max Von Sydow).

Em uma clara referência a Poltergeist: O Fenômeno (1982), Heather (Kíla Lord Cassidy) vê um dos espíritos por intermédio da TV na sala; assim como Judy (Mia Tomlinson) enfrenta um demônio em uma sala cheia de espelhos, como no filme noir A Dama de Xangai (1947) ou até no giallio Suspiria (1977) --numa cena magistralmente refeita por Luca Guadagnino no remake de 2018.

Lorraine ainda se vê em meio a uma enxurrada de sangue como O Iluminado (1980), além de outras alusões a O Bebê de Rosemary (1968), Carrie, A Estranha (1976) e até um sonho digno de A Hora do Pesadelo (1984).

Mais do que isso, Invocação do Mal se coloca o tempo inteiro junto a esses clássicos, se citando tautologicamente do início ao fim: desde referências explícitas como Annabelle e o Homem Torto da saga principal; o espírito que mora em um quadro como Valak no segundo filme; e até um enforcamento, exatamente como no início de A Freira (2018).

O próprio James Wan surge nos minutos finais, como que reafirmando: "chegamos até aqui e agora fazemos parte do crème de la crème do terror". A questão é que Invocação do Mal dá a impressão de ser, de fato, um ponto-final nesse cânone.

Aonde vai o terror norte-americano?

Dois pontos ajudam a entender esse cenário. O primeiro é a transformação pela qual o cinema passa, cada vez mais afetado pelo streaming. Salas se fecham ao redor do mundo, e a experiência de assistir a um filme se torna menos coletiva e mais individual --diante da TV de casa.

Como, então, criar imagens capazes de entrar no imaginário popular como Invocação do Mal conseguiu? Desde então, houve tentativas com maior ou menor sucesso, como M3gan (2022), Terrifier (2016) ou Sobrenatural (2010), mas nenhuma alcançou a mesma projeção de uma Annabelle. Mesmo A Substância (2024), indicado ao Oscar, teve repercussão por alguns meses, mas sua pegada se aproxima mais do horror europeu --a exemplo de Titane (2021)-- do que de uma experiência clássica de Hollywood.

O segundo ponto é a dúvida: o horror norte-americano será capaz de atravessar a atual crise de imaginação, tão intrínseca ao próprio capitalismo? O que se vê é a indústria reciclando fórmulas já testadas, como Cemitério Maldito: A Origem (2023), Premonição: Laços de Sangue (2025) e Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025).

Por isso, Invocação do Mal: O Último Ritual soa como um atestado de óbito de um período do cinema mainstream que dificilmente deve se repetir tão cedo. Ou talvez não. Afinal, entre todos os gêneros, o horror é o mais subversivo --basta alguém com pouco orçamento e uma boa ideia para fazer esse "morto-vivo" se levantar mais uma vez do caixão.


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