ESTREIA DA SEMANA
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Wagner Moura e Tânia Maria; atriz de 78 anos é quem rouba a cena em O Agente Secreto
O Agente Secreto, longa dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura que vai representar o Brasil na disputa por uma indicação a melhor filme internacional na 98ª edição do Oscar, em 2026, acaba de ser lançado nos cinemas brasileiros. Apesar do pedigree, ele dificilmente será uma unanimidade entre o público --e pode até surpreender negativamente alguns "torcedores" que seguem em clima de Copa do Mundo desde Ainda Estou Aqui.
Vencedor no Festival de Cannes de 2025 dos prêmios de melhor ator, para Wagner Moura, e melhor diretor, para Kleber Mendonça Filho, o longa tentará repetir o feito de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, que levou o Oscar de melhor filme internacional na última edição do Oscar, em março.
A trama se passa no Brasil de 1977, quando Marcelo (Wagner Moura), um homem misterioso e perseguido, tenta fugir do seu passado violento com a intenção de se reconectar com a família e começar uma nova vida. Ele retorna para Recife, em Pernambuco, na semana do Carnaval, mas logo percebe que atraiu para si o caos do qual ele ainda tenta fugir.
Kleber Mendonça Filho deixou pública a informação de que escreveu o protagonista sob medida para Wagner Moura, e isso é perceptível. O ator está tão à vontade na pele de Marcelo que chega a ser pessoal demais. Por vezes, é quase como se estivéssemos diante de Moura, e não tanto de Marcelo. Um deleite para os fãs e uma pena para quem está acostumado a esperar o desempenho de camaleão de um intérprete tão versátil.
Também é evidente que O Agente Secreto foi feito na esteira de Retratos Fantasmas, documentário realizado por Mendonça Filho e lançado em 2023, em que o cineasta faz um mergulho intenso no passado e no presente do Centro de Recife, sua cidade natal, sobretudo nos cinemas de rua --muitos se transformaram em igrejas ou estabelecimentos nada cinematográficos.
O grande trunfo de O Agente Secreto, porém, é justamente o que pode decepcionar alguns espectadores. É um filme bastante autoral de seu diretor e roteirista, o que um olhar menos apurado --e sudestino-- pode chamar de "regional demais". Mendonça já refutou esse comentários algumas vezes, sobretudo após as críticas negativas vindas do eixo Rio-São Paulo. Todavia, a maior resposta a essa provocação está no próprio filme.
O Agente Secreto é um thriller extremamente urbano, e não deveria ser considerado "regional" só por não se passar em São Paulo. Nem mesmo a riqueza de referências e a ambientação impressionante --de um Centro de Recife que já não existe mais --deveriam ser apontadas como razão para uma falta de identificação. Mereciam ser elogiadas, visto que têm muito mérito.
Não há qualquer prejuízo para o espectador que assistir ao filme com poucas referências sobre Recife, sobre Kleber Mendonça Filho ou mesmo sobre a história do próprio país --embora é recomendado que esse passado não seja esquecido. Pode ser, inclusive, um exercício para se ir além de uma zona de conforto que tende à mediocridade.
No entanto, vale ressaltar que o filme tem falhas estruturais. O excesso de perguntas sem resposta, de "buracos" na trama --ou talvez a própria escolha em estruturar a história de maneira desorganizada--, e a maior controversa de todas: o desperdício do clímax, que cria uma atmosfera dispersa.
É como caminhar em um calçadão em um grande centro urbano, de fato. Local em que as histórias se atravessam o tempo inteiro, se esbarram e se afetam em alguma medida. Todavia, mesmo que dirigido de forma bela por Mendonça Filho, nada se conclui. É como se o espectador, contra a vontade, fosse constantemente "avançado" no enredo, sendo direcionado sempre para um "e depois?" e nunca um "enquanto".
Entre trunfos e defeitos, há um acerto inquestionável em O Agente Secreto. E não é Wagner Moura, Gabriel Leone, nem mesmo outros nomes estrelados no elenco. É Tânia Maria, que vive Sebastiana, uma surpresa deliciosa da trama.
A artesã, natural do Rio Grande do Norte, se descobriu atriz aos 72 anos e ganhou reconhecimento por sua participação no filme Bacurau, também de Kleber Mendonça Filho. Agora, aos 78 anos, ela é quem brilha de verdade em O Agente Secreto, chegando a ser citada pela Variety em um ranking de possíveis indicadas ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. Mesmo que Tânia já tenha declarado que não sabe nem o que é o Oscar.
Uma não atriz secundária ser um dos maiores sucessos dentro do conjunto de O Agente Secreto indica que, a melhor maneira de se valorizar essa obra --uma das mais bonitas da filmografia riquíssima de Kleber Mendonça Filho-- é prestar atenção no que está ao redor, como quem tenta observar o que passa despercebido em um dia caótico de uma cidade grande.
Veja o trailer de O Agente Secreto, principal estreia nacional da semana:
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