CRÍTICA

Herança de Narcisa revela uma Paolla Oliveira que o público ainda não conhecia

REPRODUÇÃO/OLHAR FILMES

Paolla Oliveira em Herança de Narcisa, segurando um cigarro, com maquiagem marcada, usando roupão de plumas

Paolla Oliveira em Herança de Narcisa; atriz mostra faceta pouco conhecida do público em terror

Fonte Preferencial

Quem entrar na sala de cinema esperando um terror recheado de sustos, espíritos saltando na tela ou litros de sangue provavelmente vai estranhar Herança de Narcisa. O novo filme protagonizado por Paolla Oliveira, que estreia nesta quinta-feira (9), não tem interesse em causar medo pelos caminhos mais convencionais do gênero. Seu horror é íntimo, silencioso e, justamente por isso, desconfortável.

No longa-metragem dirigido por Clarissa Applet e Daniel Dias, Paolla interpreta Ana, que retorna à casa de infância, a única herança deixada por sua mãe, Narcisa, que morreu recentemente. 

Decidida a vender o imóvel, Ana começa a revirá-lo ao lado de seu irmão, Diego (Pedro Henrique Müller). Ao contrário da irmã, ele decide abrir um mar de antigos traumas e mistérios ao destrancar o camarim de sua mãe, local onde estão os segredos de sua morte. Após o rapaz ir embora, Ana passa a ser assombrada por uma maldição ancestral e pelo espírito da mãe.

A produção aposta muito mais na construção da atmosfera do que em grandes reviravoltas. O casarão onde a história se desenrola funciona quase como uma extensão da protagonista: um espaço carregado de lembranças, ressentimentos e dores que nunca foram realmente elaboradas.

O suspense nasce do que permanece escondido, das pausas, dos silêncios e da sensação constante de que existe algo errado --mesmo quando nada aparentemente acontece.

É nesse terreno que Paolla Oliveira entrega uma de suas atuações mais interessantes. Conhecida por personagens expansivas, carismáticas e luminosas na televisão, a atriz surpreende ao sustentar uma protagonista contida, marcada muito mais pelos olhares e gestos do que pelas palavras.

Ana carrega um peso emocional permanente, e Paolla consegue transmitir essa tensão sem recorrer a explosões dramáticas. Ela segura o filme praticamente o tempo inteiro e convence em uma faceta que o público ainda conhecia pouco.

A escolha também representa um risco. Em vez de buscar um papel confortável, Paolla se lança em um gênero distante de sua trajetória recente e mostra que tem recursos para muito além da imagem construída nas novelas. Seu desempenho ajuda a manter o espectador envolvido mesmo quando a narrativa desacelera deliberadamente para priorizar a reflexão.

Herança de Narcisa talvez nem seja, no fundo, um filme sobre fantasmas. É um longa sobre traumas, ressentimentos, expectativas e vínculos familiares que continuam assombrando mesmo depois da morte. O terror funciona como linguagem para discutir emoções bastante humanas.

Nesse aspecto, a obra ganha força especial quando aborda a ancestralidade feminina. A relação entre mães e filhas, o peso das gerações e as marcas invisíveis que passam de uma mulher para outra atravessam toda a narrativa.

Embora qualquer pessoa possa se identificar com a história, existe uma sensibilidade muito particular nesses conflitos que provavelmente encontrará eco especialmente entre o público feminino.

Essa proposta também exige disposição de quem assiste. Não é um filme que entrega respostas rapidamente nem busca recompensar o espectador com sustos a cada dez minutos.

Há momentos em que o ritmo contemplativo pode causar estranhamento, principalmente para quem associa terror à adrenalina constante. Mas essa paciência permite ao longa construir um desconforto que permanece mesmo depois dos créditos.

Herança de Narcisa vale a experiência justamente por entender que o medo nem sempre está no sobrenatural. Às vezes, ele mora dentro de casa, nas lembranças que evitamos revisitar e nas relações que continuam nos moldando mesmo quando acreditamos tê-las superado.

É um terror psicológico que prefere fazer pensar a fazer gritar --e, nessa escolha, encontra sua maior qualidade. Confira o trailer:


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