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REFÉM AO VIVO

Caso Eloá na Netflix: Documentário frágil tem medo de responsabilizar envolvidos

REPRODUÇÃO/REDETV! E NETFLIX

Montagem com a jornalista Sonia Abrão e a adolescente Eloá Pimentel

Sonia Abrão "faria tudo de novo"? Documentário sobre caso Eloá na Netflix responde "sem querer"

GIOVANNA RIBEIRO

giovanna@noticiasdatv.com

Publicado em 19/11/2025 - 6h10

Caso Eloá: Refém ao Vivo, documentário que entrou na última semana no catálogo da Netflix, chega 17 anos após a morte da adolescente Eloá Pimentel, assassinada em sua própria casa, em Santo André (SP), pelo ex-namorado Lindemberg Alves. Não é a primeira produção sobre o crime que mobilizou o país, longe disso, mas certamente pode ser considerada uma das mais frágeis.

O sequestro e a morte de Eloá, então com 15 anos, foram transmitidos ao vivo pela televisão. Durante 100 horas, polícia e imprensa atuaram ao mesmo tempo nas negociações com Lindemberg, numa sequência de erros estratégicos, em interferências motivadas pelo sensacionalismo e pela misoginia que contribuíram para o desfecho trágico.

Havia de tudo: depoimentos de vizinhos, especulações sobre as motivações de Lindemberg, tensão pelo desfecho, "torcida organizada" para que o casal reatasse e até entrevistas com o próprio sequestrador. Um enredo que mobilizou debates e transformou o caso em um dos episódios de cárcere mais emblemáticos da história recente do país. E um objeto de estudo sobre a responsabilidade da imprensa brasileira.

A premissa do novo documentário era justamente apresentar trechos inéditos do diário de Eloá e incluir relatos de seus irmãos e pais, para tentar "superar" equívocos do passado. O filme também reúne depoimentos de jornalistas e autoridades que acompanharam o caso, reconstituindo momentos da tragédia de outubro de 2008.

No entanto, a ideia de dar "protagonismo" à adolescente, tentando corrigir a romantização que durante anos deu voz a Lindemberg, não se sustenta. Eloá já havia tido sua imagem exposta nacionalmente, durante e depois do cárcere. Trazer à tona suas memórias íntimas e confissões pessoais não parece produzir qualquer senso de justiça; pelo contrário, soa como uma tentativa de requentar a história para extrair os últimos vestígios de interesse público por desgraça.

Grande parte das memórias registradas por Eloá exaltam a paixão que sentia pelo então namorado, muito antes de o criminoso iniciar sua rotina de perseguição, violência psicológica, agressões e ameaças que culminaram no episódio fatal. Para que serve explorar essa ferida? E sobretudo: a quem serve, hoje, essa exposição de um trauma revivido?

Após o documentário, o público continua sabendo mais sobre Lindemberg -- que inclusive se tornou personagem da série Tremembé, do Prime Video--, do que, por exemplo, sobre a dimensão real do estrago causado pelos envolvidos, sobretudo pela imprensa na época. E no que poderia ter sido feito para evitar o desfecho.

A narrativa da Netflix relativiza a cobertura midiática e dilui responsabilidades, criando uma "imprensa" abstrata, sem rosto, sem voz, sem nome. Um dos maiores símbolos desse capítulo, por exemplo, é citado apenas uma vez, por meio de um repórter que tampouco atuou sozinho: Sonia Abrão, que, vale lembrar, segue no ar na RedeTV!.

Segundo a produtora Veronica Stumpf, a ausência da apresentadora tem explicação. "A jornalista Sonia Abrão não quis de jeito nenhum, porque os advogados dela recomendam que ela não fale sobre o assunto", disse em entrevista ao UOL. A recusa evidencia a sensibilidade e o desgaste ético provocados pelo caso.

Em 2023, porém, Sonia Abrão afirmou que "faria tudo de novo". Ela definiu aquele como o momento mais dramático de sua carreira. "Fui a única pessoa com quem ela [Eloá] falou, ainda no cativeiro, três dias antes de ser morta. Fiquei muito tensa e emocionada", declarou em entrevista à revista Quem.

No documentário, o repórter Luiz Guerra, na época atuando no programa de Sonia Abrão, e o primeiro jornalista a ligar diretamente para o sequestrador --o que de fato, abriu um precedente entre todos os repórteres que cobriam o caso que, portanto, também carregam suas parcelas de culpa-- declarou que "qualquer jornalista gostaria de estar no seu lugar", enquanto narrava de maneira apoteótica o "grande furo". 

Se há algum mérito na produção, é mostrar, mesmo que não propositalmente, que 17 anos depois, se "algum" Lindemberg Alves tivesse uma segunda chance de sequestrar uma Eloá Pimentel em alguma região periférica do Brasil, a vítima estaria passível de sofrer a mesma sequência de erros, talvez de forma ainda mais cruel, dada a ascensão das redes sociais. Muitos envolvidos fariam tudo de novo.


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