CRÍTICA DO FILME

A Odisseia de Christopher Nolan é versão clássica e acessível de Oppenheimer

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Anne Hathaway como Penelope em A Odisseia

Anne Hathaway como Penélope em A Odisseia: atriz interpreta esposa abandonada por protagonista

IVES FERRO

ives@noticiasdatv.com

Publicado em 16/7/2026 - 14h00

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Christopher Nolan sempre foi um diretor interessado em homens à beira do colapso --figuras consumidas por suas próprias escolhas, presas entre genialidade e culpa. Em A Odisseia, o cineasta revisita essa obsessão ao adaptar o poema épico de Homero (928 a.C.-898 a.C.) e transformar a jornada de Odisseu (Matt Damon) em um estudo humano que dialoga com outro filme dele: Oppenheimer (2023).

Filmado inteiramente em IMAX, o longa aposta na grandiosidade visual para dar conta de uma das narrativas mais complexas da literatura ocidental. Ainda assim, Nolan toma a decisão curiosa de simplificar. Em vez de transformar o texto de mais de 12 mil versos em um quebra-cabeça filosófico, ele opta por uma abordagem mais acessível sem abrir mão de sua assinatura.

O resultado é um épico que se sustenta menos na mitologia e mais na humanidade de seu protagonista. Odisseu surge como um herói falível, marcado pela Guerra de Troia e pelas mortes que carrega nas costas. Ao contrário do arquétipo invencível, ele se vê indigno de voltar para casa, mesmo após anos de sofrimento e da perda da memória.

Essa construção aproxima o personagem de outras figuras da filmografia de Nolan. Há traços do cientista atormentado de Oppenheimer, do Leonard de Amnésia (2001), que busca entender a própria identidade, e até do Dom Cobb de A Origem (2010), que também luta para retornar a seu pertencimento. Em todos esses casos, os conflitos estão dentro dos próprios personagens.

Qual a história de A Odisseia?

A narrativa acompanha o desaparecimento de Odisseu após a guerra e seu retorno fragmentado, enquanto Penélope (Anne Hathaway) resiste em Ítaca, cercada por pretendentes que desejam ocupar o lugar do marido. Entre eles estão Antínoo (Robert Pattinson), um dos destaques do elenco, e outros nomes que ampliam o jogo político dentro do palácio.

Ao mesmo tempo, Telêmaco (Tom Holland) inicia sua própria jornada em busca do pai. Nolan cria uma estrutura paralela que explora com cortes precisos o passado, com Odisseu deixando seu lar, e presente através do herdeiro. Essa fragmentação, que poderia afastar o público ou deixar a trama confusa, é conduzida com clareza e deixa a obra acessível.

O filme também mergulha nas passagens mais fantásticas do poema, como o encontro com o Ciclope (Bill Irwin) e a estadia com Calipso (Charlize Theron) e Circe (Samantha Morton), mas sempre com um pé no realismo. Nolan transforma o mito em experiência sensorial com quadros imersivos como o peso da madeira do cavalo de Troia, o som das tempestades e o desgaste físico dos homens em meio à guerra.

A Odisseia é bom?

Apesar do espetáculo, o diretor não perde de vista o eixo emocional. Penélope funciona como âncora da narrativa, e é por meio dela que o filme encontra sua dimensão mais íntima. Anne Hathaway constrói uma personagem que expressa a ausência sem grandes discursos, apenas com olhar e presença.

A escolha preciosa do elenco é outro trunfo de A Odisseia. Os atores e atrizes traduzem o texto milenar para o público contemporâneo sem torná-lo poético ou filosófico demais a ponto de cansar. Nolan não compete com a grandiosidade literária de Homero, e sim a reorganiza em linguagem cinematográfica.

Há momentos em que o virtuosismo do diretor se impõe sobre os personagens, como já aconteceu em outros trabalhos. Ainda assim, a força visual e a construção temática compensam eventuais distanciamentos emocionais.

A Odisseia funciona como uma síntese da carreira de Nolan. Um filme que equilibra espetáculo e introspecção, técnica e emoção, blockbuster e cinema de autor. A adaptação traz mudanças significativas e necessárias do poema para humanizar o mito grego.

Grandioso em todos os sentidos, a versão de Christopher Nolan de A Odisseia dialoga com o presente e reafirma que o diretor é um dos poucos cineastas capazes de transformar o cinema em algo verdadeiramente extraordinário.


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