A gente manda.
Você recebe.
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ANJO VEIO FALAR
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Rouge foi um grupo formado no reality show Popstars, do SBT, e emplacou hits como Ragatanga
A Globo resgatou o Rouge, formado no programa Popstars (2002-2003), do SBT, para promover o Estrelas da Casa --na terceira temporada, o programa quer formar novos grupos. A girl band foi mencionada em uma propaganda exibida na TV, veiculada em pleno horário nobre, e até no plano comercial distribuído para o mercado publicitário.
É uma homenagem merecida à história da banda, que, por ter nascido na emissora concorrente, foi ignorada pela Globo até 2018, quando elas decidiram fazer um retorno em celebração aos 15 anos da formação.
No entanto, em um programa que se propõe a formar grupos bem preparados para o mercado, o Rouge não deveria ser resumido apenas a hits como Ragatanga, Um Anjo Veio Me Falar e Brilha La Luna --clipe exibido no comercial do programa. As situações enfrentadas pelas integrantes Aline Wirley, Fantine Thó, Karin Hils, Li Martins e Lu Andrade também servem de alerta para quem quer autonomia artística e fugir de contratos abusivos.
O Rouge era parte de um ecossistema com muitos investidores, logo, com muitas mãos para agarrar a maior parte dos lucros. O gerenciamento do grupo pertencia à produtora argentina RGB Entertainment, que comprou os direitos do programa, exibido originalmente na Nova Zelândia.
Nesse balaio, também estavam a Sony Music, responsável pela distribuição das músicas, e o SBT, que levava o Popstars ao ar. "Era realmente uma equação muito complicada", relembrou Alexandre Schiavo, diretor da gravadora na época, em entrevista ao portal iG. "Você tinha esse ecossistema de pessoas que tinham que ser remuneradas e as meninas."
As cantoras do Rouge até revelaram em entrevistas que uma das 12 meninas selecionadas como finalistas do Popstars desistiu da competição após ler o contrato com o auxílio de um advogado. "Acho que existem outros caminhos melhores para mim", declarou Perle Jean, ao portal Terra, em julho de 2002.
O primeiro CD do Rouge saiu com tiragem inicial de 150 mil cópias, um número seguro em decorrência da audiência do Popstars --que, apesar de o sucesso da banda indicar o contrário, não foi estrondosa. O hit Ragatanga fez as vendas do disco superarem 1 milhão de cópias, um fenômeno de que a Sony precisava para sair do buraco na época.
As cantoras, porém, pouco viram a cor desse dinheiro e, até hoje, não recebem royalties pelas execuções das músicas. Além disso, o Rouge, sustentado na imagem de suas vocalistas, rendeu diversos produtos licenciados, como goma de mascar, sandália, álbum de figurinhas e, claro, bonecas.
"A gente veio de um programa de TV em que o contrato era extremamente leonino, aquilo tudo era novo, várias pessoas envolvidas e um cachê muito pequeno, que a gente tinha que dividir por cinco e com os empresários. A gente trabalhava muito e ganhava muito pouco", expôs Karin no programa Luciana by Night (2012-2021).
As cantoras ganhavam R$ 700 por show no início do grupo e tiveram que protestar para aumentar o cachê para R$ 1.000. Elas recebiam um adiantamento de R$ 4 mil por mês --mas, se não fizessem uma quantidade equivalente de apresentações, eram obrigadas a devolver o dinheiro.
"Fomos até a casa de praia do fulano no Uruguai para pedir favor. 'Será que dá para arredondar o nosso cachê para R$ 1.000?'. A gente fez [show no] Pacaembu [estádio em São Paulo] por R$ 1.000 cada uma, tá?", contou Fantine em entrevista ao podcast Vênus.
Na década passada, Li e Karin compraram a marca Rouge. Isso possibilitou a turnê de reencontro, mas elas ainda esbarraram em dificuldades por não serem detentoras dos direitos das músicas. Um relançamento dos CDs físicos e um registro oficial da turnê de 15 anos não aconteceram por este impasse.
Mais que uma girl band atemporal, o Rouge também é uma memória de que fama e sucesso não asseguram automaticamente reconhecimento artístico ou independência financeira proporcionais.
O Estrelas da Casa vai ao ar em um novo contexto. Casos de repercussão mundial, como a disputa de Taylor Swift pelos direitos de suas gravações, ajudaram a ampliar debates sobre a indústria musical, mas o legado do Rouge vai além do refrão de difícil pronúncia.
Tão importante quanto a música, a honestidade do quinteto deveria ajudar iniciantes sobre os cuidados a serem tomados antes de assinar um contrato e o que fazer para evitar a perda do controle da história que ajudou a construir.
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