FIM DO TIGRINHO?

Lula planeja ofensiva contra as bets e revolta clubes de futebol; TVs observam

RICARDO STUCKERT

homem grisalho sorri para foto em comício eleitoral; ele veste um agasalho do Corinthians

Lula veste agasalho do Corinthians em comício eleitoral; presidente planeja investida às bets

REDAÇÃO

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Publicado em 18/9/2026 - 12h43

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O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma Medida Provisória para endurecer as regras do mercado de apostas online no Brasil. Entre as possibilidades em discussão estão a proibição dos cassinos online, como o "jogo do tigrinho", ou o fim definitivo das apostas esportivas. A expectativa é que a medida seja enviada ao Congresso antes do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro.

Segundo o Ge, o texto da MP já está pronto e aprovado, com previsão de publicação até a próxima terça-feira (22), mas uma ala do governo tenta convencer Lula a adotar uma versão mais restrita, voltada a determinados jogos online. Nesse cenário, o chamado tigrinho seria um dos principais alvos.

A discussão ganhou força depois de Lula voltar a defender publicamente o endurecimento contra as bets. O presidente afirma que o setor tem impacto sobre o endividamento e a renda das famílias, especialmente entre os mais vulneráveis. Em uma transmissão recente, ele disse que, se dependesse de sua vontade, fecharia as plataformas, mas que levaria em consideração as implicações da medida antes de tomar uma decisão.

Mesmo sem a MP ter sido publicada e sem definição sobre qual será seu texto final, clubes e federações de futebol já se mobilizaram contra uma eventual mudança que reduza o mercado regulado de apostas. Dirigentes passaram a se reunir desde a semana passada para discutir uma resposta conjunta.

Na noite de quinta-feira (17), a Federação Paulista de Futebol (FPF), Palmeiras, Santos e São Paulo divulgaram um manifesto, que obteve adesão de outros clubes grandes como Vasco, Flamengo, Cruzeiro, Grêmio e Fluminense.

Os clubes sustentam que as casas de apostas autorizadas se tornaram uma das principais fontes de receita do futebol e que uma mudança abrupta poderia afetar desde grandes equipes até clubes de menor expressão, divisões de acesso e projetos de formação.

A estimativa apresentada pelos dirigentes é de cerca de R$ 1 bilhão em receitas anuais apenas nessa modalidade de patrocínio. O manifesto também afirma que contratos, planejamentos financeiros e estruturas dos clubes foram construídos dentro do atual marco regulatório.

Os clubes ainda argumentam que retirar as empresas autorizadas do mercado não faria as apostas desaparecerem, mas poderia empurrar consumidores para plataformas clandestinas. Na avaliação expressa no documento, o caminho deveria ser o reforço da fiscalização e dos mecanismos de proteção, mantendo o mercado regulado.

E as TVs?

As emissoras que exibem futebol também acompanham a discussão. Isso porque, além dos patrocínios aos clubes, as casas de apostas movimentam valores relevantes no mercado publicitário e ajudam a financiar a cadeia comercial ligada às transmissões esportivas.

Segundo levantamento da Tunad, as dez principais plataformas de apostas analisadas investiram R$ 327,2 milhões em publicidade entre janeiro e março de 2026, com 59% desse valor destinado à Globo e 22% ao SBT.

Uma eventual MP focada exclusivamente nos cassinos online, porém, teria um efeito diferente de uma proibição geral das apostas esportivas. Se a versão mais restrita prevalecer, a publicidade das bets esportivas e os contratos de patrocínio no futebol não seriam diretamente atingidos.

A situação também envolve interesses dos próprios grupos de comunicação. O Grupo Globo mantém uma parceria com a MGM Resorts na operação da BetMGM no Brasil, enquanto o Grupo Silvio Santos recebeu autorização para operar no setor por meio das marcas Baú Bingo, Tele Sena Bet e Bet do Milhão.

Leia a nota dos clubes na íntegra:

"O futebol acompanha com atenção as discussões sobre o mercado de apostas no Brasil e reconhece os desafios que sua expansão traz. Os impactos sociais, especialmente sobre as pessoas mais vulneráveis, exigem atenção permanente do Poder Público, das empresas e de todos os setores envolvidos.

Por isso, é fundamental aprimorar as medidas de proteção, fiscalização, educação e prevenção, para reduzir riscos e garantir um mercado responsável.

O Brasil escolheu enfrentar esse desafio pela regulamentação. A regulamentação estabeleceu regras rígidas para as empresas autorizadas a atuar no país, com regras claras que permitem ao Estado fiscalizar o mercado, responsabilizar quem descumpre a lei e combater a atuação de plataformas clandestinas.

Importante ressaltar que, nos últimos anos, o investimento das empresas de apostas autorizadas tornou-se uma das principais fontes de receita do esporte. Este investimento impulsionou o futebol brasileiro de tal forma a dominar o cenário sul-americano em competições como a CONMEBOL Libertadores e a CONMEBOL Sul-Americana e a colocar clubes brasileiros em posição de protagonismo.

Essa presença não se limita aos maiores clubes. Os recursos também alcançam equipes de menor expressão, divisões de acesso e competições com menor exposição comercial. Para muitas destas agremiações, especialmente aquelas localizadas no interior do país, não existe hoje outro segmento econômico capaz de substituir imediatamente esse investimento.

Essas receitas são fundamentais para manter estruturas administrativas, centros de treinamento, profissionais, projetos sociais e departamentos que não geram recursos suficientes para se sustentar de maneira independente, como parte do futebol feminino e a formação de futuros talentos, os primeiros investimentos ameaçados quando a receita cai de forma abrupta.

Assim, os rumores sobre mudanças abruptas na regulamentação do mercado de apostas têm gerado enorme preocupação em todos os clubes, federações e entidades de administração do esporte. Uma mudança abrupta nas regras reduziria a capacidade de investimento dos clubes e criaria desequilíbrios dentro e fora do país. Contratos regularmente firmados, planejamentos plurianuais e compromissos financeiros foram estabelecidos sob um marco regulatório construído pelo próprio Estado.

Para responder a um mercado que já existia e movimentava ilegalmente bilhões de reais, o país instituiu um ambiente regulado. Empresas foram autorizadas, passaram a recolher impostos e assumiram obrigações relacionadas à proteção do consumidor, ao bloqueio de menores, à prevenção de práticas abusivas e ao combate à lavagem de dinheiro e à manipulação de competições. Foi justamente a regulamentação do mercado que retirou o Brasil da liderança do ranking mundial de casos de manipulação.

Inviabilizar esse modelo não fará com que as apostas deixem de existir. Apenas abrirá o caminho para que os consumidores migrem integralmente para plataformas clandestinas, que não pagam impostos, não respeitam limites, não oferecem instrumentos de proteção e não colaboram com as autoridades.

A consequência não será apenas uma porta escancarada para as apostas clandestinas, mas um golpe fatal para o futebol brasileiro, levando muitos clubes à insolvência. Isso, sem falar na insegurança jurídica e profissional que a medida acarretaria, especialmente para contratos regularmente firmados e planejamentos construídos sob o marco regulatório aprovado pelo Congresso Nacional e estabelecido pelo próprio Estado.

O que o futebol entende que deve ser feito, com o máximo rigor, é combater a ilegalidade, fortalecer a fiscalização e aperfeiçoar os mecanismos de proteção, sem colocar em risco um mercado que foi regulamentado pelo próprio Estado.

O futebol se coloca à disposição do Governo Federal, do Congresso Nacional, das Autoridades Estaduais e Municipais para colaborar em mecanismos mais eficientes de educação e conscientização."


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