NUDEZ MASCULINA
Reprodução/G Magazine

Alexandre Frota, Vampeta e Theo Becker marcaram época ao posar nus para a revista G Magazine
A Globo cancelou a estreia no Globoplay de um documentário que contaria a história da revista G Magazine, que revolucionou o mercado editorial brasileiro nos anos 1990 ao publicar ensaios de homens famosos nus. Em produção desde 2023, a série estava "quase pronta" e programada para entrar no ar em agosto. De acordo com Manuel Belmar, principal executivo da plataforma, foi descartada porque "a história não chegou" onde a Globo queria. Nos bastidores, no entanto, aponta-se que o cancelamento foi uma autocensura para não desagradar a conservadores, o que a emissora nega.
A G Magazine circulou entre 1997 e 2013. Trazia conteúdo jornalístico ao lado de fotos de famosos com o pênis ereto, uma ousadia. Mateus Carrieri, Vampeta e Alexandre Frota foram alguns dos pelados que deram o que falar e gravaram, no ano passado, depoimentos para a série do Globoplay.
A jornalista Ana Maria Fadigas, criadora e editora-chefe da revista, também gravou entrevista e chegou a ver alguns trechos editados. "Não era um documentário pornográfico. Era sobre a história da nudez masculina, a história da G Magazine, e isso não é pornográfico na minha concepção. E se tivesse nudez, era só esconder", afirma.
Ana Maria ficou sabendo do cancelamento da série documental pela reportagem do Notícias da TV. Ela já tinha a informação, recebida extraoficialmente de profissionais da Globo, de que o documentário "entrou em observação, entre aspas, sob censura", após a emissora realizar uma grande pesquisa e detectar que o brasileiro médio, seu telespectador, é mais conservador do que se imaginava.
Ela se refere à pesquisa Brasil no Espelho, feito pela Quaest com quase 10 mil entrevistas e apresentada a funcionários de vários escalões da emissora no início deste ano. Segundo a Globo diz no texto em que divulgou os dados, trata-se do "maior estudo já feito no país sobre valores, atitudes e percepções da nossa população". A divulgação do estudo, em agosto, coincidiu com o cancelamento da série.
A pesquisa da Quaest mostra que o brasileiro é religioso (96% creem em Deus), se apoia na família, tem orgulho do país, gosta de música sertaneja e se vê politicamente mais como de centro ou de centro-direita.
O estudo tem sido levado muito a sério dentro da Globo. Vários projetos foram gestados a partir dele, visando atender a um público mais conservador. Houve reflexos também no Jornalismo. A aposentadoria de William Bonner da bancada do Jornal Nacional, na véspera de um ano eleitoral, faz parte de uma estratégia de deixar a Globo mais palatável para quem vota na direita.
A decisão de não exibir o documentário sobre a G Magazine foi de Manuel Belmar, diretor de produtos digitais, finanças, jurídico e infraestrutura da Globo, também líder da agenda ESG da companhia. No grupo Globo desde 2003, ele assumiu o comando do Globoplay e dos canais pagos no ano passado.
"A gente decidiu fazer, a história não chegou onde a gente queria, e a gente optou por cancelar", disse Belmar em uma entrevista a jornalistas nesta quarta-feira (29), respondendo a pergunta do Notícias da TV. O executivo não deu mais detalhes sobre a decisão.
Belmar disse que o mesmo pode acontecer com a segunda temporada de Vale o Escrito. A série documental sobre o jogo do bicho no Rio de Janeiro pode ser um dos 12 documentários que o Globoplay promete estrear em 2026, mas não dá para garantir. "Porque um ponto chave para a gente, inclusive quando tomamos a decisão de vamos fazer, a decisão de vamos fazer não significa que a gente publicará, porque muitas vezes o conteúdo não chega", explicou.
"Para nós o mais importante são as histórias. Em Vale o Escrito 1, tivemos a felicidade de reunir um conjunto de histórias extraordinárias, e estamos atrás desse mesmo enredo para Vale o Escrito 2. E a gente fará se tiver histórias para contar", disse, colocando em dúvida se haverá mesmo a segunda temporada do documentário, lançado com sucesso no final de 2023.
Após a entrevista coletiva, realizada na sede da emissora em São Paulo para marcar os dez anos do Globoplay, o Notícias da TV voltou a procurar a Globo, desta vez apresentado a versão que circula nos bastidores de que teria havido uma mudança de postura editorial após a pesquisa Brasil no Espelho. A emissora emitiu a seguinte nota:
"Não é verdade que houve qualquer tipo de censura ao documentário. O cancelamento foi decidido exclusivamente por questões artísticas, como pode acontecer com qualquer produção encomendada para nossas plataformas. A história não chegou aonde imaginávamos e optamos por cancelar."
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