ANÁLISE
REPRODUÇÃO/TV GLOBO

William Bonner durante o Jornal Nacional de segunda (1º), em que anunciou que vai deixar o telejornal
A saída de William Bonner do Jornal Nacional, anunciada para novembro, reforça uma percepção recente de que a Globo está dando uma (re)guinada à direita. Depois de passar quatro anos resistindo a inéditos ataques de um presidente da República (Jair Bolsonaro) e de se ver prestigiada por simpatizantes da esquerda, a emissora se esforça agora para reconquistar o público conservador que passou a chamá-la de "Globo Lixo" nos últimos anos.
Na GloboNews, canal de notícias que reverbera mais nas redes sociais do que a própria TV Globo, esse movimento já começou, com a demissão da jornalista Daniela Lima, no início de agosto, menos de dois anos depois de tirá-la da CNN Brasil. Assim como Bonner, Daniela é odiada pela extrema direita nas redes sociais.
A demissão da jornalista da GloboNews ocorreu na mesma semana em que a Globo exibiu, no Fantástico, uma reportagem de sete minutos apresentando o estudo Brasil no Espelho, feito pela Quaest com quase 10 mil entrevistas. Segundo a Globo, trata-se do "maior estudo já feito no país sobre valores, atitudes e percepções da nossa população". Vai virar um livro em outubro.
A pesquisa mostra que o brasileiro é religioso (96% creem em Deus), se apoia na família, tem orgulho do país, gosta de música sertaneja e se vê politicamente mais como de centro ou de centro-direita. "Nessa pesquisa, a gente percebe que a média do Brasil é, de fato, tradicional, mais conservadora, tanto nas questões econômicas quanto nas questões que envolvem valores", sintetizou Felipe Nunes, sócio da Quaest, na reportagem do Fantástico.
Essa pesquisa foi apresentada aos funcionários da Globo no início do ano pelo próprio Nunes e tem sido levada muito a sério internamente, com reflexos nas novelas e nos programas de entretenimento. Vários projetos foram gestados a partir dela, visando atender a um público mais conservador, como a recente temporada da série Sons de São Paulo, dedicada à música religiosa.
Em março, outra sondagem da Quaest mexeu com os bastidores do Jornalismo da Globo. Uma pesquisa qualitativa (sem valor estatístico) ouviu 81 pessoas, a maioria homens, empresários e profissionais autônomos de São Paulo, sobre os motivos que as levaram a deixar de assistir à GloboNews.
Os haters desenharam o canal de notícias como uma mulher elegante, cheirosa, bem-sucedida, mas sem filhos, marido, família. A pesquisa resultou no diagnóstico de que a GloboNews fala muito mais para a esquerda. E seus apresentadores e comentaristas foram estimulados pela chefia a dialogar mais com o centro e com a direita. Está proibido tratar todo direitista como radical ou extremista.
A partir dessa sondagem, foi criado o GloboNews Debate, em que a jornalista Julia Duailibi entrevista personalidades de perfis ideológicos antagônicos.
Nos bastidores da Globo, há quem aponte que a ida de Nilson Klava para Nova York e a despedida antecipada de César Tralli do Edição das 18h foi para proteger a imagem dos dois jornalistas, para desvinculá-los dessa GloboNews de "esquerda". Tralli se despede do telejornal nesta quarta (3), dois meses antes de sua estreia no Jornal Nacional. Klava, já considerado candidato a substituto de Tralli no JN, trabalha nos Estados Unidos desde o mês passado.
A Globo --que ajudou a eleger Fernando Collor em 1989-- e a GloboNews nunca foram de esquerda. O que houve foi um antagonismo declarado entre a emissora e Jair Bolsonaro, que continuou após as confabulações golpistas de 2022. Esse choque colocou a Globo numa rara situação de oposição a um governo, embora a emissora estivesse mais preocupada em se defender do que em atacar.
As mudanças no Jornalismo da Globo mostram que a emissora está tentando se reconectar com esse público que vê a GloboNews como uma mulher realizada profissionalmente, mas infeliz. Quer de volta o empreendedor paulista, branco, que vota na direita, defende valores conservadores e trocou o Jornal Nacional pelo YouTube. Quem sabe assim seus números no Ibope voltam a crescer (ou, pelo menos, param de cair).
Sem William Bonner, a Globo vai cobrir as eleições de 2026 sem o rosto e a voz que marcaram a resistência ao bolsonarismo nos últimos anos, sem "a cara da Globo Lixo". O próprio Bonner não estava mais disposto a enfrentar mais um ano eleitoral. Temia chegar ao final do ano que vem ainda mais odiado, sem poder pegar um voo em paz, sem ser hostilizado.
Tanto César Tralli quanto Roberto Kovalick (que o substituirá no Jornal Hoje) e Tiago Scheuer (que ficará com a vaga de Kovalick no Hora 1) têm imagens de jornalistas mais neutros do que Bonner; afinal, nunca fizeram perguntas incômodas para candidatos à Presidência da República no principal telejornal do país. Tralli, por exemplo, emite muita opinião no JH, mas é cauteloso, critica serviços públicos e criminalidade de um ponto de vista de cidadão comum, sem viés partidário.
Mais mudanças são aguardadas na Globo e na GloboNews nos próximos meses. O maior grupo de comunicação do país quer ser visto como "neutro" na cobertura de mais uma eleição presidencial polarizada. Não quer perder o telespectador de esquerda que antes o xingava, mas cada vez mais tenta agradar ao agro e ao evangélico conservador. Quer ser o espelho desse Brasil.
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