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RESENHA

Documentário mostra como a revista Placar contrabandeou jornalismo na ditadura

Divulgação

Juca Kfouri, principal diretor da Placar, dá entrevista para o documentário Placar: A Revista Militante

Juca Kfouri, principal diretor da Placar, dá entrevista para o documentário Placar: A Revista Militante

DANIEL CASTRO

dcastro@noticiasdatv.com

Publicado em 14/8/2025 - 17h29

Em cartaz em 15 cinemas brasileiros desde quinta (14), o documentário Placar: A Revista Militante é um tributo a um jornalismo que já não existe mais. Mostra como uma "simples" publicação especializada em futebol "contrabandeou" para suas páginas pautas jornalísticas então proibidas, como democracia e direitos humanos, driblando a censura da Ditadura Militar (1964-85) e se tornando uma influente e respeitada revista.

Lançada em 1970, a Placar marcou as gerações, principalmente de garotos, que viveram nas últimas décadas do século 20. No auge, chegou a imprimir 250 mil exemplares semanais, uma excelente marca para uma publicação segmentada que só vendia em bancas. Era uma referência em cobertura esportiva, trazia bons textos e imagens espetaculares. Mas ia além do futebol.

Quem fala em contrabando de jornalismo é o diretor-geral do longa-metragem, o jornalista Ricardo Corrêa, que entrou na Placar em 1981 como office-boy e chegou aos cargos de editor de fotografia e de editor responsável. Ele narra o documentário:

Nesse período inicial, [Placar] trazia personagens do esporte, falava de campo e bola. Mas contrabandeava nas entrelinhas temas delicados, como democracia e liberdade. Assim, as tirinhas de Henfil [1944-1988] traziam um sarcasmo que ridicularizava os poderosos.

A Placar nasceu para tirar proveito do sucesso da Loteria Esportiva. O ponto forte da revista eram os prognósticos para os jogos da semana. Assim, suas observações sobre os clubes de futebol prestavam um serviço para o apostador, funcionavam como uma bússola. Entre esses palpites, contudo, a  Placar passou a contrabandear reportagens e entrevistas de interesse que extrapolavam o futebol.

Sem sofrer censura como as revistas de informação geral, caso da Veja, a Placar passou a dar espaço a personagens contrários à ditadura. A paixão de dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016) pelo Corinthians, por exemplo, foi pretexto para o então cardeal arcebispo de São Paulo ganhar palco na defesa dos direitos humanos.

A Placar idolatrava Pelé (1940-2022) e Zico, mas conquistou muitos pontos cobrindo a luta do meia Afonsinho, que jogava no Botafogo, o primeiro jogador a questionar na Justiça os direitos trabalhistas da categoria, associando a então vigente Lei do Passe a um vínculo escravagista, pois o atleta era considerado um patrimônio do clube.

Já sob o comando do jornalista Juca Kfouri, seu mais importante diretor, a Placar viveu seu melhor momento na primeira metade dos anos 1980 ao se engajar na defesa da redemocratização do país.

Primeiro, em 1982, revelou a revolução que acontecia nos bastidores do Corinthians, na chamada Democracia Corinthiana, liderada por Sócrates (1954-2011), Casagrande e Wladimir, em que os jogadores participavam das decisões do clube, combatiam regras como a obrigatoriedade de concentração antes dos jogos e faziam campanha pelo voto direto.

A Placar foi mais que um veículo da Democracia Corinthiana. Foi artífice dela, como mostra o documentário de Ricardo Corrêa. Juca Kfouri foi um mentor de Sócrates, indicando livros para ele. E saía para beber com os atletas corintianos.

No documentário, Kfouri assume que a Placar mais do que apoiou "desassombradamente" a Democracia Corinthiana. O jornalista proibiu que se criticasse o movimento. "Ali, eu achava que era uma briga do bem contra o mal", afirma Kfouri, comparando os democratas corintianos aos aliados que lutaram contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Em 1984, a Placar se engajou na campanha das Diretas Já. Seus funcionários contrabandeavam materiais gráficos para os comícios. E a revista convenceu Pelé, que sempre foi visto como antítese da política, a vestir uma camisa amarela pedindo eleições diretas para presidente da República.

Essa Placar "militante e libertária", de acordo com Corrêa, "não era exatamente o plano do patrão Victor Civita [1907-1990], fundador da Editora Abril". Kfouri lembra que no início a Placar era ignorada pelo dono da Abril, era um tanto "clandestina". Sua redação, conta, "era tudo gente de esquerda", que praticava um jornalismo crítico em plena Ditadura Militar.

Também na primeira metade dos anos 1980, a Placar foi sinônimo do melhor jornalismo. Em 1982, denunciou o que ficou conhecido como a Máfia da Loteria Esportiva, um esquema para manipular resultados de jogos de futebol e, consequentemente, as premiações da loteria mais popular da era pré-Mega Sena. A série de reportagens foi resultado de um ano de trabalho exclusivo de dois jornalistas, um luxo ao qual os veículos não podem se dar mais.

Como mostra Placar: A Revista Militante, as reportagens foram um tiro no pé, pois a reputação da Loteria Esportiva virou pó em alguns meses, matando aquilo que atraía muitos leitores para a revista. Mas colocou a Placar em um novo patamar, o dos grandes veículos de imprensa.

A Placar ganhou tanto prestígio e relevância que um texto elogioso ou crítico poderia mudar a carreira de jogadores de futebol. "Placar era um cartão de visitas pra gente: 'Ganhei a Bola de Ouro'. Era o Oscar do futebol", conta Paulo Roberto Falcão.

Influente, a revista mudou a história do futebol brasileiro. Em 1987, ajudou a criar o Clube dos 13, liga de times que negociava os direitos de transmissão na TV,  como fazem hoje a Libra e a LFU (Liga Forte União).

Documentário faz críticas ao sexismo

Placar: A Revista Militante é uma produção independente realizada com recursos próprios por profissionais que trabalharam na revista e têm uma relação afetiva com a marca. Reconhece e exalta toda a grandeza da Placar, mas não é chapa-branca. Pelo contrário, em vários momentos a ação da revista é confrontada criticamente.

Paulo Vinicius Coelho, o PVC, jornalista de Placar entre 1993 e 2000 e autor de um livro referência sobre Jornalismo Esportivo, surge no documentário criticando a postura da revista durante Democracia Corinthiana. "Eu entendo que a gente [jornalista] não tem que fazer panfleto. A Democracia era panfletária", diz, citando o fato de a Placar não ter dado espaço aos jogadores Leão e Biro Biro, que mais tarde se revelaram ser contrários ao momento.

O documentário também faz uma contundente crítica ao machismo da revista, que nos anos 1990, em sua fase "Sexo, Futebol e Rock'n'Roll", trazia fotos de mulheres com roupas sensuais em ângulos que privilegiavam suas bundas.

"Ousadia e bom humor marcaram o período, mas Placar também cometeu erros graves. Ele foi pioneira na luta pela democracia, esteve à frente do seu tempo em muitas questões do esporte, mas despejou uma dose de sexismo e misoginia em suas páginas, principalmente naqueles anos 1990. Foi uma revista que objetificou a mulher no futebol", narra Ricardo Corrêa.

O jornalista Marcelo Duarte sintetiza, também no documentário: "A Placar vinha de uma escola de enxergar o futebol como um esporte de homens, de uma revista feita de homem para homem, de uma revista masculina no pior sentido da palavra".

A Placar passou muitas fases, altos e baixos. Em 2022, no processo de recuperação judicial da Editora Abril, foi vendida por cerca de R$ 10 milhões. Segue sendo publicada no papel e no digital.

Onde ver Placar: A Revista Militante?

Assim como a revista, Placar: A Revista Militante extrapola o jornalismo esportivo. O documentário é uma obra sobre o jornalismo, de quando o jornalismo ainda era o quarto poder. Mostra como jornalistas hackeavam o sistema muito antes desse termo existir e como pautavam a agenda pública. Muito diferente dos dias platafórmicos atuais.

Além da direção geral de Ricardo Corrêa, o filme de 1 hora e 40 minutos é assinado por Sergio Xavier Filho (direção e textos) e Alfredo Ogawa (direção de conteúdos). Começou a ser produzido antes da pandemia de Covid-19 e ficou pronto somente no ano passado. Está sendo negociado com a TV Cultura e com plataformas de streaming. Atualmente, está em cartaz em cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Campinas e Porto Alegre (veja horários aqui). 

Assista ao trailer de Placar: A Revista Militante:


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