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ANÁLISE
Reprodução/Record

Ângela Bismarchi, Andressa Urach e Geisy Arruda: fortes representantes das subcelebridades
Nas décadas de 2000 e 2010, o público acompanhou o crescimento de personalidades que aspiravam ao título de celebridades, mas ajudavam a desconstruir o status quo que alçaram os artistas a tal posto. Elas iam a lugares que estrelas do primeiro escalão rejeitavam, protagonizavam barracos que muitos jamais admitiriam e sabiam como poucos criar factoides que prolongavam suas estadias na mídia. A estas pessoas, deu-se o nome de subcelebridades.
Longe de saudosismos, paira a sensação de que tais figuras não geram mais o mesmo impacto midiático. Até o mesmo o elenco de A Fazenda, principal celeiro das subcelebridades na televisão, parece cada vez mais anônimo diante do grande público.
Em uma era em que a aspiração pela fama é ainda maior, por que não surgem mais personalidades como a musa do Carnaval Ângela Bismarchi, a panicat Nicole Bahls ou a vice-campeã do Miss Bumbum Andressa Urach?
Para agregar à discussão, o Notícias da TV convidou o assessor de imprensa Cacau Oliver; o doutor Thiago Soares, professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e coordenador do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Música e Cultura Pop da instituição; e a própria Andressa Urach. Todos eles concordam que a busca pela fama não desapareceu, mas, sim, o sistema que assegurava a manutenção dessa fama no passado.
O prefixo "sub" nasce de uma nítida tentativa de inferiorizar essas personalidades, que, em sua maioria, chegaram à mídia sem uma profissão definida. Muito além de uma maneira de mensurar fama, o passar dos anos mostrou que o termo virou referência a um padrão de comportamento, como bem destrinchou a Mulher Filé em A Fazenda 6 (2013). "Ser subcelebridade é 'mara', porque a gente pode ser a gente mesmo e ganha fama assim. Você pode causar 'bafão', pode fazer um monte de coisa", disse a funkeira.
"As subcelebridades falam de um nicho muito específico, muitas vezes, falam de um desejo de se tornar celebridades", inicia Soares. "Talvez, a ideia de celebridade tenha a ver com um estatuto quase ético e moral. Quando pessoas como Virginia Fonseca e Jojo Todynho são chamadas de 'subcelebridade', o que me parece estar em jogo ali é uma qualificação moral da celebridade. São figuras que tensionam esse modelo de celebridade em que existe uma certa expectativa."
Oliver tem 25 anos de experiência em assessoria de imprensa, cuidou de personalidades como Gretchen, Joana Machado, Carol Lekker, Raissa Barbosa e da própria Urach, e ainda criou o concurso Miss Bumbum. Ele também diz ter emplacado mais de dez de seus agenciados em A Fazenda.
Na avaliação do jornalista, as redes sociais tornaram a fama ainda mais efêmera. "Antigamente, conseguíamos trabalhar um nome por bastante tempo. A gente tinha, por exemplo, o Carnaval e diversas ferramentas que sustentavam a subcelebridade na mídia. Hoje, não. É tudo muito rápido. Parece que a notícia acontece de manhã e, à tarde, já sumiu. As subcelebridades ficaram mais instantâneas. Aqueles 15 minutos de fama se transformaram em cinco. Parece que precisamos fazer muito mais esforço para manter essas pessoas na mídia", revela.
Soares completa que a adesão das redes sociais e o fenômeno dos influenciadores alterou o chamado "estatuto da fama", termo utilizado em discussões sociólogas para entender o impacto que a notoriedade e o prestígio têm na sociedade moderna.
"Antes, havia até um certo controle de quem ditava quem era celebridade. Hoje, está muito mais pulverizado, a ponto de a gente ver influenciadores que não fazemos ideia de quem seja, mas que tem 7 milhões de seguidores", destrincha o doutor. "A gente não conhecer não significa que elas não tenham impacto. Talvez exista uma modulação de impacto diferente do que estávamos acostumados."
Cria do TV Fama e do extinto portal Ego, Andressa avalia que as redes sociais "tornaram a fama mais democrática", mas pondera: "Você fala uma coisa, e as pessoas podem interpretar de outra maneira, pegar um trecho, tirar de contexto. Hoje, você tem mais liberdade, mas também tem muito mais responsabilidade."
Oliver aponta que, com a crescente das páginas de fofoca no Instagram, muitas pessoas deixaram de contratar assessores para buscar notoriedade. Ele ainda denuncia a existência de um esquema que envolve pagamento para aparecer em perfis conhecidos.
"No Instagram, ficou muito prostituído. Particularmente, sou contra pagar matérias. Acho que tem que ser tudo orgânico. Uma vez que você paga, terá que pagar sempre. Você tem que vender a história, um produto, tem que fazer o seu cliente interessante", defende.
O assessor de imprensa também culpa os veículos tradicionais da imprensa pelo enfraquecimento do fenômeno. Além de apontar que eles se tornaram mais "conservadores", critica profissionais que, segundo sua visão, têm mais interesse em reproduzir conteúdos de redes do que abraçar boas histórias.
Como exemplo, cita o fato de conseguir emplacar clientes com mais facilidade em tabloides internacionais, como o TMZ e o Daily Mail. "Se você abre um site de notícias hoje, 90% é reprodução de Instagram. Acho que o jornalista ficou preguiçoso nesse sentido. Eu mesmo crio histórias", relata.
Criar histórias, ele explica, é diferente de inventá-las. "Escrevo um release, entrevisto a pessoa, vou entender o que ela faz. 'Ah, mas você inventa as coisas?'. Não! Eu peguei o que ela gosta de fazer, o que ela faz de extraordinário. Cada pessoa tem o seu momento. 'Eu sou uma influenciadora fitness e fiz uma dieta em que fiquei um ano sem comer açúcar'. Para uns, talvez isso não seja uma notícia; para outros, é", completa Oliver.
Andressa Urach traz outra versão. "Não vou ser hipócrita de falar que as coisas simplesmente aconteciam comigo. Muitas vezes, eu provoquei situações porque eu sabia que aquilo ia gerar notícia", confessa. "Eu era muito mais nova, queria aparecer, queria ficar famosa e, muitas vezes, não pensava nas consequências."
Para a ex-evangélica, a maneira com que constrói seus enredos, que se alastram na mídia por mais tempo do que um Story de Instagram, é o que a mantém relevante até os dias de hoje. "Nunca tive medo de me reinventar. Já fui modelo, vice-campeã do Miss Bumbum, fui para a televisão, escrevi livro… Tive várias fases da minha vida. Acho que as pessoas têm curiosidade, justamente, porque nunca sabem o que eu vou fazer depois. Acho que é isso que me mantém na mídia. Nunca fiquei parada no mesmo lugar", analisa.
É impossível ignorar que o enfraquecimento do fenômeno das subcelebridades caminha junto com o avanço das agendas feministas. Boa parte destas personalidades da mídia surgiram em contextos hiperssexualizados, como a Banheira do Gugu, as panicats ou as mulheres-frutas. "Os movimentos, como o #MeToo e contra a sexualização da mulher, deixaram tudo mais conservador", opina Oliver.
Na percepção de Soares, no entanto, isso não impediu o surgimento de subcelebridades advindas de plataformas de conteúdo adulto, como Privacy e OnlyFans --nem mesmo a migração de personalidades mais antigas, como Luiza Ambiel, Rita Cadillac e a própria Andressa Urach para as mesmas.
"É a construção de uma rede que não vai precisar de uma mídia tradicional. Me parece que eles constroem reputação dentro desse conjunto. Talvez as 'mulheres-frutas contemporâneas' estejam ganhando muito mais dinheiro do que as originais, porque hoje podem estar em outros ambientes digitais, inclusive, produzindo conteúdo adulto", acrescenta o doutor.
Há, também, o fantasma do cancelamento, que, alastrado pelas reações explosivas dos fã-clubes de reality show, faz pessoas perderem dinheiro e seguidores. Mas, para Soares, a subcelebridade sabe usar isso a seu favor. "Acho que, hoje, o cancelamento pode ser uma estratégia. O que importa mais não é o cancelamento em si, mas a métrica dele. Muitas vezes, vejo nas pesquisas profissionais de marketing que trabalham com a métrica do cancelamento", conta.
Andressa, que superou cancelamentos que vão de brigas de reality shows a um vídeo falso com o filho mais velho, assegura que não liga mais para o escrutínio público. "Acho que deixou muita gente com medo de falar o que realmente pensa. Eu já fui muito cancelada, então, não fico mais vivendo em função disso. Se eu ficar pensando 'ai, será que vão gostar ou vão me cancelar?', eu não faço nada. Claro que a gente tem que ter responsabilidade com o que fala, mas não dá pra ficar tentando agradar todo mundo. Isso é impossível."
As possíveis consequências de uma repercussão negativa até fizeram Cacau Oliver desestimular uma assessorada a soltar uma bomba. "Tive uma cliente que diz que teve um relacionamento com o [Lewis] Hamilton. Eu falei: 'Tem certeza que você quer colocar isso na mídia?'. O papel do assessor é muito mais aconselhar. Hoje, falo muito de conter o cancelamento, da mídia negativa", admite.
Questionados sobre a possibilidade de haver uma "nova Andressa Urach", criador e criatura discordam. "Tem muita 'Andressa Urach' aí que quer aparecer e tem muita coisa para dar para a mídia. Fico triste porque vejo que o jornalismo em si está caindo um pouco. Ele não dá voz a essas pessoas", lamenta Oliver.
"Acho que pode aparecer alguém muito famosa, muito polêmica, mas uma nova 'Andressa Urach', não. Porque minha história é muito específica. Tudo que eu vivi e aconteceu comigo não dá para repetir. Pode aparecer alguém que faça até mais sucesso do que eu fiz, mas acho que eu sou eu", crava a gaúcha.
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