ENTREVISTA
REPRODUÇÃO/YOUTUBE

Rafael Pimenta em Quem Quer Ser Cancelado?; game show desafia "patrulha do humor" nas redes
Rafael Pimenta vive uma das fases mais produtivas da carreira e tem dedicado boa parte desse momento a provocar o público a repensar a maneira como reage ao humor nas redes sociais. Criador e produtor executivo de Quem Quer Ser Cancelado?, o ator explica que o game show surgiu de um incômodo com colegas que usam a liberdade de expressão como escudo sempre que recebem críticas.
Para o comediante, parte dessa discussão virou cortina de fumaça para encobrir manifestações de ódio travestidas de piada. "Quis provar que dá para falar de tudo, e que o problema está na forma como é dito", afirmou ele em entrevista ao Notícias da TV.
No programa, disponível no YouTube, Pimenta usa provas, ironias e gincanas para simular o funcionamento do chamado "tribunal da internet". A intenção é reproduzir a lógica acelerada das redes, em que todos são pressionados a opinar instantaneamente --ainda que sem contexto.
Segundo ele, o desafio foi encontrar o equilíbrio entre o tom cômico e a ambiguidade necessária para não transformar a discussão em um ruído vazio.
"O jogo funciona como uma pegadinha, que distrai o espectador para
surpreendê-lo com uma questão delicada. Acho que a polêmica gratuita pode ser um resultado disso, mas vejo ela como um recurso de linguagem que se justifica dentro da obra", ponderou.
Embora reconheça que o formato levanta debates sociais, o ator diz não ter a pretensão de erguer bandeiras. Seu interesse é evidenciar conflitos, contradições e constrangimentos típicos da vida real.
É justamente essa mistura que atrai Pimenta na comédia: a possibilidade de reduzir tensões e, ao mesmo tempo, provocar desconforto produtivo.
"O humor nos permite redefinir os limites da nossa realidade e nos ajuda a lidar com isso. Portanto, ninguém pode limitar o humor como forma de expressão espontânea. A questão para mim é ética: que limites você, comediante, deseja borrar afinal?", questionou ele.
Essa visão também norteia sua crítica aos comediantes que usam o discurso de "defesa da liberdade de expressão" para justificar ataques a minorias.
Rafael Pimenta encara esse uso como uma deturpação da força política da comédia. "A forma do humor deles corrobora com a discriminação e o silenciamento de grupos vulnerabilizados", observou.
Quase 20 anos após iniciar a carreira, ele afirmou que o humor brasileiro vive uma transformação impulsionada pelas redes sociais. Ferramentas como Orkut e YouTube marcaram seu início e, hoje, influenciam diretamente o que se produz no palco.
"É difícil encontrar um formato que não busque validação nas redes sociais. O algoritmo também passa a ditar regras", analisou. Para ele, isso gerou uma corrida por cortes, ganchos e linguagem rápida, muitas vezes invertendo prioridades.
Paralelamente ao sucesso do game show, o artista também mergulhou recentemente em um projeto que mistura religião e comédia romântica: o filme Os Infiéis, selecionado para o LABRFF, o Festival de Filmes Brasileiros de Los Angeles.
Nele, Pimenta interpreta um padre dividido entre o amor, a fé e a responsabilidade com sua paróquia. O tom da produção nasceu, segundo o ator, do encontro entre sua relação pessoal com a Igreja Católica e o olhar cético do diretor Tomás Fleck.
"A fé é uma questão importante na minha vida, por isso mesmo sempre tentei encará-la com humor. Afinal, não é fácil viver uma vida se sentindo culpado por um sujeito que foi crucificado para me salvar", disparou.
Pimenta vê a seleção do longa para o festival como um reconhecimento raro para uma comédia independente. Sem o apoio de grandes empresas, ele celebra o espaço conquistado.
"É surpreendente que uma obra consiga esse respaldo. Ainda mais sendo uma comédia, gênero que costuma ser subestimado em festivais. Entendo que é um sinal de que fizemos um bom trabalho", disse.
O ator acredita ainda que o público pode se identificar com a afetuosidade da história, construída com leveza em torno de temas como fé e fragilidade humana.
Mesmo com tantos trabalhos simultâneos, Pimenta diz que essa fase não é exatamente uma reinvenção, mas sim um momento de maturidade artística. "Tenho mais autoridade sobre o que eu faço", afirmou.
"Eu me sinto mais fértil, mais consistente e menos medroso meu trabalho tem alcançado mais pessoas, e sinto o reconhecimento do público por aquilo que eu faço", complementou ele, que já planeja a segunda temporada de Quem Quer Ser Cancelado?, a estreia de Os Infiéis em um streaming no ano que vem e novos projetos com pessoas que admira.
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