CONFIRA ENTREVISTA

José Rubens Chachá inverte relação familiar ao ser dirigido pela própria filha no teatro

Sato do Brasil

Homem de barba e cabelos brancos está em uma biblioteca, com uma mulher de óculos apoiando a cabeça no seu ombro

José Rubens Chachá com a filha, Maíra Chassereaux, nos ensaios de O Nome do Tango

LUCIANO GUARALDO

luciano@noticiasdatv.com

Publicado em 16/9/2026 - 14h00

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Com mais de 50 anos de carreira, o ator José Rubens Chachá vive uma situação inédita ao ser dirigido pela filha, Maíra Chasseraux, no monólogo musicado O Nome do Tango, que ele escreveu e estreia neste sábado (19). Afinal, pela ordem das relações familiares, o natural seria que ele dissesse o que a herdeira deve ou não fazer.

"É uma coisa que eu nunca havia vivido, tenho cinco filhos e só tinha trabalhado com um. Com a Maíra, nunca tinha acontecido. Mas tem sido gozado como eu consigo distanciá-la dessa relação familiar. Às vezes, fico até bravo comigo mesmo quando a chamo de 'filha' (risos)", entrega Chachá em conversa exclusiva com o Notícias da TV.

Para "complicar" a hierarquia, ao mesmo tempo que Maíra dirige o pai em O Nome do Tango, Chachá é o responsável pela direção de Dr. Carrasco e Sua Criada Matti, espetáculo em que a filha contracena com Pedro Osório. Alternar entre quem dá as ordens e quem as obedece durante o processo tem sido uma experiência --no mínimo-- interessante.

"Se eu fosse um pouco mais nova, eu sucumbiria (risos). A relação entre pai e filha é muito presente, não tem como negar. Eu sou professora, sei muito bem o que quero, mas meu pai escreveu O Nome do Tango e também sabe muito bem o que ele quer", admite Maíra à reportagem.

Ele conhece o texto muito bem, e eu venho com o olhar externo, provocando para sair do lugar. Nós defendemos muito nossas opiniões, chegamos a bater de frente, mas nunca sai faísca! Sabemos que, se incendiar, vai fazer mal para o trabalho. Então, é melhor parar ali, dormir e resolver no dia seguinte (risos).

Chachá brinca que os laços com Maíra têm se redesenhado durante o processo de ensaiar as duas peças. "Ela me obedece muito mais como atriz do que como filha (risos). Mas eu descobri um rigor cênico na Maíra que fico até abobado vendo, na mesma hora ela consegue fazer o que eu falo."

"Eu não conhecia esse lado dela... É claro que a via nos palcos, que eu já tinha e tenho admiração pelo trabalho dela, mas fazer a criação toda juntos chega a me espantar", elogia o ator, sem esconder o lado babão do pai coruja.

E não é por acaso que pai e filha se alternam na direção das duas peças. "São espetáculos irmãos, encenados no mesmo espaço e que têm uma temática próxima, de repressão política, etária, social... Tem esse diálogo entre as peças, e eu convido as pessoas a assistirem às duas, porque trazem uma discussão muito necessária para esse momento do mundo", diz Chachá.

"A nossa democracia corre um grande perigo, as nações estão voltando pra teocracia... São coisas que valem a pena ser discutidas. As peças não se passam no presente, mas são muito atuais", alerta o ator, que em O Nome do Tango interpreta um intelectual maduro que é confrontado pelo avanço da demência enquanto passeia pelas ditaduras da América Latina.

"Eu vivi a fase mais dura [da Ditatura Militar, 1964-1985], era diretor do Sindicato dos Atores, fui perseguido, fichado no Dops [Departamento de Ordem Política e Social], sei o quanto senti de medo, de pavor, de o teatro ser invadido, de sumir e minha família nunca mais me ver", lembra Chachá. "Mas são peças muito divertidas também, que te fazem refletir, te emocionam. É um tema político, mas é muito bem-humorado", crava o veterano.

O Nome do Tango estreia no Teatro Estúdio (Rua Conselheiro Nébias, 891, Santa Cecília, São Paulo) neste sábado (19), e fica em cartaz até 11 de outubro, com sessões aos sábados e domingos, às 19h, e ingressos a partir de R$ 50 (à venda na plataforma Sympla).

Em 10 de outubro, às 21h, começa no mesmo palco a temporada de Dr. Carrasco e Sua Criada Matti. Inspirada livremente em Sr. Puntila e Seu Criado Matti, de Bertolt Brecht (1898-1956), a peça acompanha a relação entre doutor Carrasco e sua criada, Matti. Autoritário e repressivo quando sóbrio, ele se transforma ao beber, tornando-se afetuoso, generoso e aparentemente solidário. Ela, por sua vez, começa a reconhecer a exploração presente na relação que sustentou durante anos.


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