A gente manda.
Você recebe.
Depois manda a real pra todo mundo.
GUSTAVO MENDES
REPRODUÇÃO/YOUTUBE

Gustavo Mendes como Dilma Rousseff; comediante retomou personagem que fez sucesso nos anos 2010
Gustavo Mendes resgatou Dilma Rousseff em um ano de eleições e voltou a colocar o humor político no centro de seu trabalho. Conhecido pela personagem que impulsionou sua carreira no início da década passada, o humorista retomou a imitação depois de anos afastado e percebeu que a relação com o público mudou. Para ele, o humor também passou por uma transformação profunda e precisou encontrar novos caminhos para continuar existindo.
"Estrangularam o humor", afirma ele ao analisar o cenário atual em entrevista ao Notícias da TV. Segundo o artista, esse processo não aconteceu de uma hora para outra e foi acompanhado por mudanças na TV, nas redes sociais e na maneira como o público consome conteúdo. O humorista, no entanto, faz questão de diferenciar essa percepção de qualquer acusação de censura.
"Eu me encontro no momento meio que parecido com os artistas da época da ditadura. Não que nós estejamos vivendo uma ditadura ou uma censura, não há isso", explica.
"Os artistas, na época da ditadura, alguns tiveram que criar subterfúgios para enganar os censores, através do texto. Então, era um modo de jogo de palavras, falar de um assunto que parecia outra coisa, mas era aquilo ali. E eu me sinto um pouco nisso, assim, de entender o jogo e criar em cima disso", complementa ele.
A própria Dilma voltou a fazer parte desse jogo. Gustavo Mendes conta que tinha uma relação mal resolvida com a personagem, que ganhou enorme repercussão em meados dos anos 2010 e mudou sua trajetória profissional. Na época, porém, ele não estava preparado para lidar com a exposição, com a polarização política e com os ataques que vieram junto com o sucesso.
"Quando a personagem estourou, automaticamente ela avançou a minha carreira para um patamar que eu não estava acostumado e que eu não tinha nenhuma referência", relembra.
O humorista também admite que sofreu muito com as críticas que recebeu quando o Brasil se dividiu em dois grandes polos políticos. "Eu fui muito atacado. Mas muito, muito atacado, num nível muito absurdo, e eu não estava preparado para lidar com esses ataques naquela época", conta.
Na época do impeachment da presidente, o humorista também perdeu trabalhos publicitários e, por isso, decidiu deixar Dilma de lado e se dedicar a outros personagens e projetos na televisão.
Anos depois, a personagem voltou de maneira despretensiosa e, para sua surpresa, o fenômeno se repetiu. Mendes afirma que hoje enxerga aquela história de outra maneira. "Eu fiz as pazes com a personagem, fiz as pazes com esse meu passado que é tão bonito, com essa história tão incrível. E eu fiz ela despretensiosamente, voltei com ela, e o fenômeno voltou", analisa.
A Dilma de 2026, no entanto, não é exatamente a mesma que ficou conhecida anos atrás. O comediante acredita que o humor mudou e que a personagem também precisou acompanhar essa transformação. Se no início da carreira os palavrões eram parte importante para dar a graça de sua construção, agora ele aposta em textos mais elaborados.
"Hoje, só se fala palavrão. Hoje, os conteúdos são muito assim, bobagens, muito conteúdo rápido, sem texto, sem profundidade. Então, a Dilma de hoje traz uma profundidade nos textos", explica. Segundo ele, é justamente o texto que diferencia sua personagem de uma simples imitação.
"Uma imitação simplesmente é aquele tiro ali, você faz aquela graça, faz aquela caricatura, mas o que faz o público voltar a me consumir com frequência, eu acho que é o texto", pondera ele.
Para Gustavo Mendes, fazer humor político também exige atenção às mudanças da sociedade. Ele rejeita a ideia de que o público tenha perdido a capacidade de rir e defende que é possível fazer piada com qualquer assunto --mas não necessariamente em qualquer momento.
"Pode-se fazer piada com absolutamente tudo. A questão é: quando?", questiona. O humorista cita temas como racismo e violência contra pessoas trans para explicar que determinadas feridas ainda estão abertas e que, por isso, não vê graça em transformar essas dores em alvo fácil.
"Atacar o frágil sempre foi muito fácil", declara. Ele também critica a utilização do termo "mimimi" como uma forma de atacar grupos que reivindicam direitos. Para ele, a comédia não precisa escolher a rota mais simples para provocar o público.
A mudança também passa pela relação do humorista com as novas gerações. Gustavo Mendes percebeu um crescimento do público entre 16 e 26 anos, justamente uma faixa que não necessariamente conhecia sua trajetória ou mesmo a personagem Dilma quando ela surgiu. Agora, ele tenta conquistá-los sem abandonar a maneira como acredita que a comédia deve ser construída.
"Eu não quero de jeito nenhum ficar reclamando do passado que era bom. Não, eu estou de olho no futuro, eu estou de olho no que é novo", afirma. Para ele, acompanhar as transformações é essencial para continuar trabalhando, mas isso não significa abandonar a importância do texto.
"Desde que surgiu o teatro no mundo, o que segura, o que faz permanecer é um bom texto. E disso eu não abro mão", declara.
A volta da personagem acontece justamente enquanto Gustavo Mendes também retoma uma relação antiga com os palcos. Depois de um período afastado, ele está em turnê com o espetáculo solo Mais Atrevido, que reúne música, imitações, textos e a própria Dilma, e com as comédias Amor que Não se Mexe e O Marido da Minha Mulher.
O humorista diz que não pretende repetir a rotina frenética que viveu no auge da carreira, mas quer aproveitar a nova fase com mais calma e propósito. "Eu quero fazer coisas com mais qualidade e menos coisas", destaca.
"Voltar a viajar o Brasil e matar a saudade de uma plateia que eu conquistei, a duras penas, e que eu cativei e que me faz muita falta, então para mim está me deixando animadíssimo. Eu estou muito feliz", completa.
Para Mendes, a volta também representa uma espécie de acerto de contas com o passado. Ele reconhece que abandonar Dilma abruptamente foi um erro e que demorou para compreender a dimensão da relação criada entre personagem, público e artista.
"Eu paguei o preço por isso, porque não foi bom, não foi inteligente o que eu fiz", admite. Hoje, porém, ele olha para a personagem e para a própria carreira com outra perspectiva --inclusive para entender como fazer humor em um cenário político que continua marcado pela polarização.
© 2026 Notícias da TV | Proibida a reprodução
Mais lidas
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.