RAPHAEL MONTES
REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

Raphael Montes em foto do Instagram; escritor falou sobre os limites da ficção e do terror
Raphael Montes encara com naturalidade a crescente discussão sobre moralidade nos personagens literários. Criador de Dias Perfeitos (2025), do Globoplay, e da novela Beleza Fatal (2025), o escritor afirma que nunca se preocupou com a ideia de que obras com figuras dúbias possam ser interpretadas como reflexo do caráter de quem as escreve. Para ele, a graça da ficção está justamente na possibilidade de habitar mentes que não são suas.
Na CCXP25, Montes lembrou que suas histórias sempre dialogaram com comportamentos imorais ou violentos, mas com propósito claro. "Antes de ser escritor, sou leitor. A grande graça é poder ser personagens que não sou na vida real", destacou.
Ele citou Dias Perfeitos, focado em machismo e psicopatia, e Jantar Secreto, em que amigos decidem servir carne humana para pagar o aluguel. A intenção, segundo o escritor, é explorar aspectos da sociedade sem transformar esses temas em espetáculo vazio. "A ficção tem essa força. Sem que a pessoa perceba, você fala de assuntos importantes", afirmou.
Ao avaliar sua trajetória, o autor descreveu que cada livro o coloca diante de desafios inéditos --e que essa incerteza é parte do processo. "Eu aprendi que você não aprende nada entre um livro e outro", observou.
Raphael Montes também comentou a fama de criar cenas que embrulham estômagos. Segundo ele, quando surge uma ideia que o faz pensar "melhor não", é justamente aí que nasce a vontade de seguir adiante.
A regra é apenas uma: nada pode ser gratuito. "A violência tem que estar costurada à história, revelar algo sobre a essência humana. Sei que impactam vocês, me impactam também. Sou muito medroso. Quando eu fico arrepiado escrevendo, sei que vocês vão sentir a mesma coisa", observou.
A rotina por trás dessas histórias, no entanto, é menos glamurosa do que muitos imaginam. O escritor disse que passa cerca de dez horas por dia diante do computador, de pijama --inclusive modelos do Bob Esponja e do Homer Simpson são seus favoritos.
Entre banhos, cafés e um grande copo d'água, encontra o ritmo criativo. Para ele, escrever une duas paixões antigas: ser mágico, ao manipular o que o leitor vê, e ser ator, ao interpretar personagens que entram e saem de sua cabeça.
Quando o assunto é true crime, porém, o tom muda. Montes, que escreveu os filmes do caso Suzane Von Richthofen do Prime Video e de Elise Matsunaga da Netflix, alegou que essa é uma área em que os limites éticos são muito mais rígidos, já que envolve pessoas reais, vítimas reais e famílias em sofrimento.
Ele citou o cuidado que teve com o irmão de Suzane von Richthofen nos filmes sobre o caso e com a filha de Elize Matsunaga. "De maneira nenhuma dá para fetichizar a violência. A realidade me prende. Eu não posso inventar", apontou.
© 2026 Notícias da TV | Proibida a reprodução
Mais lidas
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.