A gente manda.
Você recebe.
Depois manda a real pra todo mundo.
PAULO SZOT
Fotos: Matthew Murphy

O ator Paulo Szot (à dir.) com Rebecca Naomi Jones em cena de Hadestown: tempero brasileiro
O ator Paulo Szot carrega a honra de ser o único brasileiro a vencer o Tony, maior premiação do teatro norte-americano. A vitória ocorreu em 2008, por seu trabalho em South Pacific, sua primeira incursão pelos musicais depois de décadas dedicadas à ópera. Atualmente, ele está em cartaz na Broadway com Hadestown, que venceu oito Tonys em 2019, mas dá seu jeitinho de levar o tempero do Brasil para um espetáculo aclamado desde antes de sua chegada.
Na pele de Hades, deus grego do submundo e dos mortos, Szot tem um dos números mais esperados de Hadestown, Why We Build the Wall (Por que Construímos a Parede, em tradução literal). Enquanto outros atores que deram vida ao personagem cantavam "my children, my children", o brasileiro entoa "my children, meus filhos", em um momento que não passa batido por quem entende português e arrepia até os menos emocionados.
Conseguir mexer em uma música já consagrada não é fácil --geralmente, atores que se juntam a musicais em andamento precisam respeitar quase que gesto por gesto o trabalho de seus antecessores. Mas Paulo Szot conseguiu dar a sua cara e uma brasilidade para Hades, embora ele faça questão de não ficar com todos os méritos para si mesmo.
"Essa é a magia de Hadestown, nós temos uma diretora [Rachel Chavkin] e uma compositora [Anaïs Mitchell] que têm uma cabeça maravilhosa e estão sempre abertas para dialogar com os artistas que chegam. E, nas nossas conversas, a ideia de inserir o português em algum momento surgiu muito naturalmente. Eu sou brasileiro, tinha que ter algo, e era isso", conta Szot em entrevista exclusiva ao Notícias da TV.
"Nós tivemos algumas versões, algumas propostas, e chegamos à conclusão de que aquele seria o melhor momento para inserir o português, porque o Hades está discursando para todo mundo, está chamando as pessoas de seus filhos, ele se coloca como o grande pai naquele reino de Hadestown. E tem um outro momento, em que ele está conversando com a Perséfone [Rebecca Naomi Jones], tentando amaciar as coisas com ela, e a chama de 'amor'. Em consenso mútuo, decidimos que eram os dois melhores momentos", diz.
De acordo com Szot, os brasileiros que vão para Nova York assistir a Hadestown fazem questão de comentar sobre essas cenas com ele na porta do teatro. "Muitos vêm assistir e, depois, me falam: 'Eu ouvi, parecia que você estava falando para a gente'. E eu respondo: 'Era para vocês mesmo!'. Mas, de novo, isso só acontece porque a diretora e a compositora têm essa cabeça aberta, querem manter o espetáculo sempre fresco e atual", elogia o ator.

Paulo Szot em momento tenso de Hadestown
Apesar de ter se mudado de mala e cuia para os Estados Unidos --depois de guardar durante um bom tempo o Tony na sua casa em Ribeirão Pires (SP), Paulo Szot tenta retornar para o Brasil sempre que possível. Inclusive, ele volta já no mês que vem para três apresentações no Teatro Municipal de São Paulo com a Missa de Bernstein, sob a regência do maestro Roberto Minczuk.
"Eu tenho relações bastante fortes com a Orquestra de São Paulo, a Osesp, tento voltar pelo menos uma ou duas vezes por ano para fazer algo com ela. Nem sempre dá certo, por causa das agendas, mas neste ano vai dar. A Missa de Bernstein é um grande acontecimento, são mais de 200 pessoas no palco. Gostaria de voltar mais, já fiz My Fair Lady e Chicago no Brasil, e queria fazer outras coisas. Mas fico feliz de ver que o mercado de musicais brasileiro está crescendo muito, de maneira impressionante. O nível está muito interessante."
O brasileiro revela à reportagem como decidiu fazer a transição da ópera para o teatro musical, dois universos muito distintos e com raras intersecções. "Eu sempre gostei de teatro, mas a voz que desenvolvi me levou para a ópera, né?", lembra ele, com seu vozeirão potente. "E eu fui muito feliz fazendo ópera durante anos e anos, cantando em vários teatros que eram sonhos."
"E aí, quando aconteceu South Pacific, foi a primeira vez que eu tive a oportunidade de fazer um musical. De estar no palco com atores. E foi fascinante descobrir esse outro lado, do qual eu sempre gostei muito, mas nunca tinha tido a oportunidade de fazer. E desde então, quando surge alguma oportunidade, eu tento me jogar novamente no teatro musical, porque é uma delícia de se fazer", valoriza o brasileiro.
Um dos maiores atrativos do teatro para ele? A possibilidade de construir o personagem. "A ópera tem essa conotação de ser um pouco mais limitada na atuação. A ópera é música, e a música tem que ser executada perfeitamente. Nós ficamos um pouco engessados para executá-la perfeitamente. O musical dá essa liberdade, você faz o seu texto, faz a música na sua compreensão, e na hora de cantar as formas não são tão rígidas assim. Dá para inserir uma fala no meio do canto. Existe essa liberdade. Eu gosto muito disso, né?"
"Depois de anos e anos fazendo ópera e respeitando, obviamente, aquela formação, tem que olhar para o maestro o tempo todo... Isso é muito bonito, interessante para quem ouve, mas para quem faz, às vezes eu gostaria de poder fazer da minha maneira. E o musical permite isso, o teatro permite isso. Então, eu acho que, nessa fase mais velha da minha vida, da minha carreira, eu estou gostando muito de fazer isso. Isso me complementa como pessoa, como artista e, quando eu voltar para ópera, eu acredito que eu possa trazer um pouco disso para a ópera também."
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