A gente manda.
Você recebe.
Depois manda a real pra todo mundo.
FERNANDA CHICOLET
JORGE BISPO

Fernanda Chicolet: atriz virou roteirista por necessidade e encontrou maneira de suprir lacuna
Atriz de produções como as séries As Five (2020-2024) e Notícias Populares (2022), Fernanda Chicolet encontrou na escrita uma maneira de criar as personagens que gostaria de interpretar. Diante da falta de oportunidades para mulheres no audiovisual, ela resolveu se arriscar e criar os próprios projetos para protagonizar.
Idealizadora, coroteirista junto com Thais Fujinaga (que também é diretora) e protagonista de Talismã, longa previsto para chegar aos cinemas ainda neste ano, ela também fala sobre os desafios de construir uma carreira em um mercado no qual o reconhecimento nem sempre se transforma em novas oportunidades.
A atriz se interessou pelo cinema ainda na faculdade de Artes Cênicas da ECA-USP (Escolas de Artes e Comunicação da Universidade de São Paulo). Ao mesmo tempo em que se apaixonou pela sétima arte, Fernanda passou a observar as limitações impostas às mulheres.
Ela cita uma pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que apontava, 20 anos atrás, que 13,8% do protagonismo das produções era feminino. O dado foi determinante para uma mudança em sua trajetória.
"Eu falei: 'Não, então eu quero escrever para mim essas mulheres que não estão chegando até mim como personagens'", conta, em entrevista ao Notícias da TV. A partir dali, a atriz passou a investir também na escrita, na produção e na direção de seus trabalhos.
Para Fernanda, as diferentes funções passaram a se complementar. "Foi um mergulho que eu acho que me fez crescer muito como atriz, porque essas carreiras, para mim, se retroalimentam", afirma.
Segundo ela, o processo de roteiro permite aprofundar a construção das personagens antes mesmo de interpretá-las. "Quando eu estou escrevendo e construindo a gênese da personagem, o arco dramático, de alguma maneira você vai se familiarizando e introduzindo em você toda uma psique que é como se fosse uma grande preparação para esse personagem", explica.
Apesar de ter começado a escrever por necessidade, e não por vocação, Fernanda afirma que atualmente não consegue mais se imaginar sem desenvolver histórias.
A busca por personagens femininas mais complexas também passou a ser uma questão central em seus projetos. Para ela, mesmo com o crescimento do protagonismo feminino ao longo dos anos, ainda existe uma expectativa de que as mulheres retratadas no audiovisual sejam perfeitas e exemplares.
"Agora o número de protagonistas femininas aumentou, mas ainda tem uma visão de que a mulher precisa ser edificante, perfeita, heroína, que é a pessoa a dar o exemplo", avalia. "A gente precisa não só ocupar o espaço, como também dizer que a gente pode ser o que a gente quiser."
Fernanda conta que sempre se interessou por personagens que escapassem desse padrão. "Eu nunca gostei da heroína, da que conseguiu tudo. Eu gosto das personagens que tinham questões, medos, que eram estabanadas", diz.
A própria Tereza, protagonista de Talismã, nasceu dessa inquietação. Mãe solo e dançarina, ela vive a dificuldade de ter seu talento reconhecido enquanto acompanha a filha em uma experiência num reality de talentos. O filme coloca em discussão a fama, a exposição e a diferença entre reconhecimento artístico e celebridade.
A ideia para o longa surgiu em 2012, depois que Fernanda assistiu a um vídeo de um programa britânico de talentos no qual uma mãe e uma filha se apresentavam juntas. A cena despertou nela a vontade de discutir o universo do entretenimento e a maneira como a humilhação pode ser utilizada como instrumento para gerar audiência.
Talismã também nasceu da experiência de Fernanda com a publicidade, área em que ela trabalhou durante cerca de oito anos. Segundo a artista, o contato com crianças e produções publicitárias fez com que observasse situações que contribuíram para a construção da história.
O filme chegou ao mercado internacional por meio do programa Rio Goes to Cannes. Durante a carreira, os projetos do qual fez parte acumularam mais de 50 prêmios e reconhecimentos, sendo 15 diretamente para ela. Entretanto, isso não significa uma abertura maior de portas.
"Eu nunca fui chamada para fazer um teste de TV. Nunca. Em 20 anos de carreira", declara. Segundo ela, as participações que fez em novelas e séries aconteceram por convites diretos de diretores e foram oportunidades raras.
Para a atriz, a lógica atual da indústria também passa pelo número de seguidores nas redes sociais, o que pode aproximar influenciadores de oportunidades destinadas à atuação. "Eu já entendi que muita gente acaba, muitas produções, tendo essa demanda de 'quantos seguidores tem para a gente ver se interessa'", comenta.
Apesar de ter encontrado na escrita uma forma de construir os próprios caminhos e desviar das exigências malucas do mercado, a atriz ainda deseja receber convites para interpretar personagens criadas por outros artistas.
"Quero mais, eu também quero ter a chance de ser convidada para projetos legais com personagens legais em que eu posso trabalhar com outros cineastas", declara.
Para Fernanda, escrever continua sendo uma maneira de decidir o que quer dizer como artista, mas a atuação permanece como seu principal desejo. "Minha vocação sempre foi a atuação. Tudo girou em torno de conseguir mais personagens, né? Eu escrever, produzir, codirigir, tudo veio para dar espaço para a atuação, para essa atriz", conclui.
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