LUTO

Autor de Pantanal e O Rei do Gado, Benedito Ruy Barbosa morre aos 95 anos

REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Idoso de camisa polo azul e suspensórios está sentado no sofá com expressão séria

Benedito Ruy Barbosa no Globo Rural nos 60 anos da Globo: autor morreu nesta terça (7)

REDAÇÃO

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Publicado em 7/7/2026 - 8h42
Atualizado em 7/7/2026 - 11h50

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Morreu nesta terça-feira (7), aos 95 anos, o autor de novelas Benedito Ruy Barbosa, responsável por alguns dos maiores sucessos da televisão brasileira na década de 1990. Ele escreveu o fenômeno Pantanal (1990), da Manchete, além de Renascer (1993), O Rei do Gado (1996) e Terra Nostra (1999), da Globo.

A morte por insuficiência renal crônica foi confirmada em um boletim médico enviado pelo Hospital do Coração (HCor) de São Paulo ao Notícias da TV.

"O Hcor informa que o autor Benedito Ruy Barbosa, de 95 anos, faleceu nesta manhã devido a complicações de insuficiência renal crônica (IRC). A instituição se solidariza com os familiares e amigos neste momento de pesar", comunicou a instituição.

Na noite de segunda-feira (6), o hospital havia informado que o novelista estava internado, sem previsão de alta. O boletim médico não revelou quando ele havia sido hospitalizado nem o seu quadro.

O escritor tinha sido diagnosticado com insuficiência renal crônica (IRC) havia três anos e apresentava um histórico de reinternações em razão de infecções recorrentes do trato urinário.

Em janeiro deste ano, por exemplo, o escritor havia sido internado no HCor com uma infecção urinária. Ele passou 19 dias no local e recebeu alta no fim do mês ao concluir seu tratamento com antibióticos. Desde então, a família não havia soltado mais nenhuma informação sobre o quadro de saúde.

Seguidor da máxima "escreva sobre o que você conhece", Benedito Ruy Barbosa se destacou como uma espécie de cronista da ficção sobre a vida no campo do trabalhador rural, além de retratar como ninguém a rotina de imigrantes europeus no Brasil.

O veterano também conseguiu provar, ao longo da carreira, que era possível fazer muito sucesso com novelas produzidas fora da Globo. Ele começou na Tupi em 1966 e passou por Excelsior e Record nos anos seguintes, até estrear na atual líder de audiência com Meu Pedacinho de Chão (1971).

Os Imigrantes (1981) teve ótima repercussão para a Band na época de sua exibição, enquanto Pantanal virou uma dor de cabeça inimaginável para a Globo, que viu Rainha da Sucata (1990) e sua linha noturna de shows serem ofuscadas pela história de Juma (Cristiana Oliveira) e Jove (Marcos Winter).

Em nota, a Globo lamentou a morte de Ruy Barbosa e disse que "[ele] amava a terra, a sua família e o legado que construiu – e que ficará eternizado". [Leia na íntegra no final do texto]

Vida e carreira

Benedito Ruy Barbosa nasceu em 17 de abril de 1931 em Gália, pequena cidade no interior do Estado de São Paulo que tem uma população de 6.413 habitantes (segundo o Censo 2025). Filho de Otávio Barbosa, que fundou o jornal A Voz de Vera Cruz (localizada a cerca de 30 km de Gália), e de Aurora Medeiros Barbosa, ele perdeu o pai cedo, aos 11 anos, e teve de começar a trabalhar para ajudar a mãe a sustentar a família.

Primeiro, o pequeno Benedito foi auxiliar de guarda-livros da firma comercial Antônio Perez. Depois, sem muitas perspectivas para o futuro no interior, se mudou para São Paulo, onde começou a estudar à noite e trabalhar durante o dia no escritório que a mesma empresa mantinha na capital do Estado.

Com o dinheiro, levou toda a família para morar com ele em um cortiço no bairro do Bom Retiro, na região central da cidade. Ele complementava a renda trabalhando como vendedor de verduras na feira e como faxineiro em um banco. Depois, foi transferido para Maringá (PR).

A temporada paranaense inspirou Barbosa a escrever seu primeiro livro, Fogo Frio --que foi adaptado para o palco em uma encenação do renomado Teatro de Arena, sob a direção de Augusto Boal (1931-2009). A peça o levou a trabalhar na agência de publicidade J. W. Thompson, onde ele passou a supervisionar todas as novelas patrocinadas pela Colgate-Palmolive.

Daí para a sua estreia como autor de folhetins foi um pulo: em 1966, escreveu Somos Todos Irmãos, adaptação do romance A Vingança do Judeu, de J. W. Rochester (1647-1680), exibida pela TV Tupi. No mesmo ano, fez O Anjo e o Vagabundo, sua primeira história original.

Na Excelsior, Benedito colaborou nas adaptações de O Morro dos Ventos Uivantes (1967) e O Tempo e o Vento (1967), para a faixa das oito da noite. Na Record, fez A Última Testemunha (1968) e Algemas de Ouro (1969). Ainda escreveu Simplesmente Maria (1970) para a Tupi, fechando um ciclo na TV.

Em 1971, o dramaturgo foi contratado pela TV Cultura como assessor especial. Ele, então, escreveu Meu Pedacinho de Chão, exibida simultaneamente pela emissora pública e pela TV Globo. Posteriormente, ao site Memória Globo, o autor declarou que seu desejo com a obra era "provar que podia se fazer novela enfocando uma temática rural brasileira". "Porque eu falava de técnica de plantio, vacinação, Moral e Cívica...", lembrou.

Cinco anos depois, a Globo finalmente contratou Barbosa para escrever novelas. Na época, ele foi escalado para a faixa das seis, onde fez O Feijão e o Sonho (1976), À Sombra dos Laranjais (1977) e Cabocla (1979). Em seguida, migrou para a Band para escrever Pé de Vento (1980) e Os Imigrantes, realizando seu desejo de contar uma grande saga que atravessava 60 anos.

A boa aceitação da trama rapidamente fez Globo recontratá-lo. Na emissora, ele fez Paraíso (1982), Voltei pra Você (1983), Sinhá Moça (1986) e Vida Nova (1988). Ainda foi supervisor de texto de Walther Negrão em De Quina Pra Lua (1985). O novo sonho do autor, porém, era realizar Pantanal, que estava na gaveta dos diretores da Globo, sem a menor previsão de sair de lá.

Convidado por Jayme Monjardim para migrar para a Manchete, que tentava se tornar uma alternativa à dramaturgia da Globo, Benedito Ruy Barbosa deixou claro que só mudaria de time caso a emissora da família Bloch produzisse Amor Pantaneiro (título original da novela). O diretor topou o desafio e embarcou com o escritor na viagem por um interior pouco retratado do país.

Pantanal foi um sucesso como a Manchete jamais havia visto (e nunca mais veria novamente). A Globo percebeu o tropeço e chamou Benedito Ruy Barbosa para seu time de autores logo em seguida --agora, com a tão esperada promoção para a faixa das oito, a mais nobre da emissora na época.

Com novo contrato, o escritor fez Renascer, uma obra que tinha muito em comum com sua história anterior: os conflitos familiares, a figura imponente de um fazendeiro, os moradores da cidade grande tendo um choque de realidade com a vida no campo, uma dose de realismo fantástico... A trama sobre o coronel José Inocêncio (Antonio Fagundes) foi mais um sucesso inegável para o currículo de Benedito Ruy Barbosa.

Depois, vieram O Rei do Gado e Terra Nostra, outros fenômenos que também colocavam o universo rural como protagonista, atraindo os espectadores dos grandes centros urbanos do país para um mundo muito próximo geograficamente, mas que eles ainda não conheciam.

Em 2002, veio Esperança, uma "continuação não oficial" de Terra Nostra. Porém, Benedito Ruy Barbosa, que nunca foi conhecido por entregar os blocos de capítulos com muita antecedência, passou a atrasar ainda mais a produção de seus textos. Atores gravavam cenas apenas dois dias antes de elas irem para o ar, o que gerava estresse para o elenco e a equipe envolvidos.

Após cinco meses de exibição, com a audiência abaixo do esperado e o clima tenso nos bastidores, Esperança sofreu uma intervenção drástica da direção da Globo. Walcyr Carrasco foi escalado para substituir o autor às pressas, tentando acelerar os capítulos para resolver o conflito. Ele jurou fidelidade à trama, mas acabou mudando várias histórias, o que irritou Benedito.

"Quando ele assumiu a novela, deixei de assistir. Se visse, queria bater nele. Na época, liguei para o Mário Lúcio Vaz [então diretor artístico da Globo] e disse: 'Avisa o Walcyr que, quando eu encontrar com ele, eu vou dar porrada, entendeu?'. Ele simplesmente acabou com minha novela. Não terminou como eu queria. Depois, mandou uma carta pedindo desculpas. Coitado! No fim, tudo terminou bem", declarou o autor em depoimento ao livro A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo, de André Bernardo e Cíntia Lopes.

Depois de uma experiência tão tumultuada, Benedito Ruy Barbosa adotou uma estratégia que asseguraria fidelidade máxima às histórias imaginadas por ele: fazer remakes das próprias histórias. Assim, ele assinou novas versões de Cabocla (2004), Sinhá Moça (2006), Paraíso (2009) e Meu Pedacinho de Chão (2014) --sempre na companhia de suas filhas, Edmara e Edilene.

Em 2016, ainda escreveu aquela que seria a sua última novela, Velho Chico, juntamente com a filha Edmara e com o neto Bruno Luperi. A trama passou longe do sucesso de seus folhetins anteriores, e ainda ficou marcada pela morte do protagonista, Domingos Montagner (1962-2015), afogado nas águas do rio São Francisco a duas semanas da exibição do último capítulo.

Leia a nota da Globo na íntegra sobre Benedito Ruy Barbosa

Autor de grandes histórias da TV brasileira, Benedito Ruy Barbosa contava seus casos com uma riqueza incrível de detalhes. Lembrava o cheiro, a cor, a ocasião e as pessoas. Amava a terra, a sua família e o legado que construiu – e que ficará eternizado. Benedito morreu hoje, dia 07 de julho, aos 95 anos, devido a complicações de insuficiência renal crônica. Ele estava internado em São Paulo, e tratava a doença há três anos. O autor deixa quatro filhos, frutos do casamento com Marilene Leonor Barbosa, falecida em 2014, e 11 netos.

Mais velho entre cinco irmãos, o dramaturgo nasceu no dia 17 de abril de 1931, em Gália, no interior de São Paulo, e passou a infância na vizinha Vera Cruz, uma região de cafezais habitada por imigrantes japoneses e italianos, que serviu de inspiração para suas obras. Aos 13 anos, perdeu o pai, e precisou trabalhar cedo para sustentar a família, em diversas atividades, como auxiliar de escritório e vendedor de verduras. Mas escolheu a escrita para expressar toda sua emoção. Diante da falta de perspectiva no interior, mudou-se sozinho para São Paulo, onde passou a estudar à noite e trabalhar durante o dia.

Em 1954, Benedito passou em um concurso promovido pelo jornal O Estado de São Paulo e foi contratado como revisor. A estreia como repórter aconteceu na editoria de esportes do jornal Última Hora. Depois de trabalhar em outras redações em São Paulo, iniciou sua carreira como autor de novelas em 1966, na TV Tupi, com ‘Somos Todos Irmãos’.

Trabalhou ainda na Excelsior e na Record, até ser contratado como assessor especial pela TV Cultura, em 1971. Naquele ano, escreveu a novela 'Meu Pedacinho de Chão', que foi produzida em parceria com a TV Globo e exibida simultaneamente nas duas emissoras. Em 2014 a novela ganhou uma releitura na TV Globo, em tom de fábula contemporânea.

Assinou contrato com a TV Globo em 1976 para escrever ‘O Feijão e o Sonho’. Na sequência vieram ‘À Sombra das Laranjas’ (1977) e ‘Cabocla’ (1979). Já na década de 1980, escreveu ‘Paraíso’ (1982), ‘Voltei pra Você’ (1983), ‘De Quina pra Lua’ (1985), ‘Sinhá Moça’ (1986), entre outras. Benedito também escreveu 12 episódios do ‘Sítio do Picapau Amarelo’ na versão de 1977, e a minissérie ‘Mad Maria’ (2005).

Em 1990, escreveu ‘Pantanal’ (exibida na extinta Manchete) e, logo depois, de volta à TV Globo, veio ‘Renascer (1993). Com essas tramas, se consolidou como um dos principais responsáveis pela abordagem de temas ligados ao meio rural. As duas novelas ganharam remakes na TV Globo, escritos pelo neto Bruno Luperi, em 2022 e 2024, respectivamente.

Conhecido por criar grandes sagas, Benedito foi autor de mais de 30 novelas, entre elas ‘O Rei do Gado’ (1996), um de seus maiores sucessos, ‘Terra Nostra’ (1997) e ‘Esperança’ (2002). A última trama que assinou foi ‘Velho Chico’ (2016), novela que se passava na fictícia Grotas do São Francisco, no sertão nordestino.

Em homenagem ao autor, a TV Globo exibe hoje, após o 'Central da Copa', episódio do especial 'Donos da História’, inédito na TV aberta. Produzido e exibido pelo canal Viva, na TV por assinatura, em 2017, o programa conta com entrevista de Benedito e de pessoas ligadas à sua trajetória. O Globoplay preparou um trilho especial com as novelas do escritor, destacado na home do streaming da Globo. Essa mesma oferta também estará dentro da página na categoria novelas, e os primeiros seis capítulos das novelas são abertos para não assinantes logados.


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