A gente manda.
Você recebe.
Depois manda a real pra todo mundo.
VELSON D'SOUZA
Divulgação/Caio Gallucci

Velson D'Souza em cena de Oleanna, peça de David Mamet que ele traduziu e idealizou
Conhecido do público por ter atuado nas novelas A Infância de Romeu e Julieta (2023), do SBT, e Paulo, o Apóstolo (2025), da Record, Velson D'Souza encara um personagem bem diferente no espetáculo Oleanna, que estreia nesta sexta-feira (10) em São Paulo. O ator interpreta John, professor universitário acusado de assediar sexual e moralmente uma de suas alunas, desencadeando debates sobre relações de poder, opressão e comunicação.
Durante 70 minutos, D'Souza e Julianna Gerais (que vive a estudante, Carol) protagonizam conversas tensas, trocam acusações pesadas e ataques verbais, culminando em um desfecho chocante, que gerou muita polêmica na sua primeira encenação, em 1992, e que ainda repercute até hoje.
É tudo tão tenso e intenso que o público mal consegue tempo para respirar. E os atores também não levam vida fácil. "Quase não tem espaço para a gente beber água (risos). É muito texto, e é difícil dizer esse texto, que tem muitas camadas. E, como são dois atores, não tem onde se esconder, não tem como fugir. O ritmo é acelerado, a gente não consegue nem pensar no que está por vir. O jeito é desenvolver a sua capacidade de escuta e estar totalmente presente no momento", conta Velson em conversa com o Notícias da TV.
"Eu sempre quero que o meu próximo projeto seja o maior desafio da minha carreira até então. E esse, com certeza, é um desafio gigantesco. É um jogo muito rápido, eu tenho alguns textos de duas páginas inteiras em que eu não paro de falar. Minha namorada até brincou comigo outro dia: 'Você sabe que cavou a própria cova, né?'. E eu cavei mesmo (risos). Mas foi totalmente intencional", admite ele.
Apesar de a discussão sobre assédio ter se tornado o ponto principal das montagens de Oleanna, D'Souza acredita que o espetáculo vai muito além. "É claro que a peça ficou famosa por isso, mas ela é sobre relações humanas. É sobre questionar as relações de poder, o que você faz quando está numa posição de poder, até na linguagem como forma de exclusão", aponta ele.
Foi a possibilidade de levantar novos debates, inclusive, que incentivou o ator a comprar os direitos do texto original, do premiado dramaturgo norte-americano David Mamet, e de fazer a tradução dele para o Brasil. "Eu queria discutir as pequenas coisas que a gente faz quando está numa posição de poder, quais sãs as pequenas violências, as pequenas opressões..."
O homem hétero sempre esteve numa posição de poder e, agora, tem uma vontade quase reacionária de voltar a ser como era antigamente. E eu até entendo, mas a sociedade evoluiu, a gente tem que olhar as coisas que antes pareciam inofensivas, mas que nunca foram. Você fala: 'Ai, mas eu não tive a intenção'. A peça também debate a questão de intenção x opressão. Não importa a intenção, importa como a ação é recebida.
Velson D'Souza, que interpretou Silvio Santos (1930-2024) no musical Silvio Santos Vem Aí, acredita tanto em Oleanna que, no melhor estilo do comunicador, decidiu colocar dinheiro do próprio bolso no espetáculo. "A gente não tem patrocínio nenhum, é muito difícil captar, achar alguma marca que esteja disposta a investir. É complicado fazer teatro no Brasil, e eu tinha que começar de algum lugar. Já sei que, nessa temporada, a peça não vai se pagar, mas a esperança é de que ela viaje, vá para o Rio de Janeiro, quero levar para o interior também, e aí sim vamos torcer para que se pague", admite.
"Chega um ponto da carreira em não dá para ficar só esperando o telefone tocar. Graças a Deus, eu recebo muitas propostas de trabalho, tenho convites para televisão, cinema, musicais... Mas é sobre ter mais controle sobre minha carreira! Agora eu tenho um espaço onde dou aulas [o Espaço Co.Lab], uma companhia de teatro que está nascendo, tenho condições de contar as histórias que eu quero contar, de fazer as histórias que eu gostaria de fazer."
Oleanna abre essa nova etapa de controle sobre a carreira porque está na cabeça do ator há 15 anos. "Em 2011, quando eu estava no meu primeiro ano de mestrado, nos Estados Unidos, a gente estudou o texto tanto numa aula de História do Teatro quanto numa de Interpretação Contemporânea. E eu fiquei doido lendo aquilo! O texto me impactou lá atrás, e continua muito atual, infelizmente. As mesmas discussões se mantêm. Eu sabia que um dia ia fazer. Há dois anos comprei os direitos, e agora finalmente estamos aqui!", crava.
O espetáculo entra em cartaz no Teatro Vivo (Avenida Doutor Chucri Zaidan, 2460 - Morumbi, São Paulo - São Paulo) nesta sexta-feira, e a temporada continua até 7 de junho. As sessões acontecem sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 18h. Os ingressos custam R$ 100 (R$ 50 meia) e podem ser adquiridos no site da Sympla.
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