KÊNIA

Antes de A Nobreza do Amor, Nikolly Fernandes já vivia a 'realeza' no Carnaval

REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Nikolly Fernandes em A Nobreza do Amor

Nikolly Fernandes em A Nobreza do Amor; antes da TV, atriz construiu a autoestima no Carnaval

GIOVANNA RIBEIRO, do Rio de Janeiro

giovanna@noticiasdatv.com

Publicado em 28/8/2026 - 14h00

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A coroa de Nikolly Fernandes, intérprete de Kênia em A Nobreza do Amor, não surgiu por acaso na televisão. Antes de encarar o papel de filha do vilão Jendal (Lázaro Ramos), que usurpou o trono do reino fictício de Batanga, a atriz já dominava as passarelas do samba --lugar onde as rainhas e reis desde sempre se pareceram com ela.

Prestes a assumir o posto de musa da Estação Primeira de Mangueira no Carnaval carioca de 2027, a artista contou como a escola de samba moldou não apenas sua identidade artística, mas também sua consciência social e política.

"Me dá vontade de chorar. Porque ainda é muito sensível falar sobre esse cargo que veio agora, e essa responsabilidade de musa que eu vou ter com o Carnaval de 2027, porque o Carnaval me estruturou como pessoa", disse ela, em conversa com o Notícias da TV nos Estúdios Globo.

"Eu acho que essa extravagância veio um pouco também dessa festa que é grande demais e que tem muito brilho e que sempre é iluminada. Então, de alguma forma sempre iluminou os meus olhos e fez com que eu quisesse estar tão iluminada quanto", completou.

Para Nikolly, o samba é um legado familiar que antecede qualquer conquista profissional. A transição do chão da ala de passistas para o posto de destaque traz à tona memórias afetuosas e a responsabilidade de honrar quem pavimentou esse caminho dentro de casa.

"Tem sido muito importante essa mudança de passista para musa, porque minha mãe fez parte do Carnaval por 19 anos. O Carnaval foi o ganha-pão da minha família durante muito tempo, ela era passista show, então ela viajava pra fazer shows e era o dinheiro que a gente tinha, minha mãe dançando e meu pai, que era musicista, também tocando. O samba e o Carnaval foram fonte de renda da minha família", relembrou.

Representatividade e militância sempre caminharam lado a lado na vida da atriz. Ao olhar para trás, ela reconhece que a construção do próprio empoderamento veio ao observar mulheres negras ocupando espaços de visibilidade máxima na Marquês de Sapucaí, como Juliana Alves e Evelyn Bastos.

"E eu me descobri enquanto uma mulher bonita, sensual, empoderada... muito do meu empoderamento veio do Carnaval, quando eu olhava exatamente para esses cargos, para a mulher que estava no cargo de musa, as mulheres que estavam no cargo de rainha e que eram negras. Na minha época eu tive grande influência de Juliana Alves e de Evelyn Bastos, que tá até hoje aí na Mangueira, que eram duas rainhas negras", explicou.

"Elas ocupavam o lugar de rainha e não só com o samba no pé e com a realeza e a nobreza que elas têm, como também com o lado social. Eram rainhas sempre posicionadas socialmente, que traziam sempre uma outra perspectiva para mim, para as outras meninas negras que estavam ali na comunidade, que estavam ali na ala de passistas", refletiu.

Essa consciência de classe e de raça encontrou eco na postura combativa que Nikolly adotou ao longo da vida. A Mangueira, segundo ela, funcionou como uma verdadeira escola de formação cidadã, preenchendo lacunas que o ensino tradicional muitas vezes deixa escapar.

"Para mim, é importante representar a Mangueira, porque é uma escola muito politizada, que sempre traz um lugar educacional, ela não entra só para fazer Carnaval e só pela festa, ela entra sempre para mudar o pensamento de quem está assistindo, para fazer com que você conheça algo que você não conhece, se conscientize sobre algo que você ainda não está sabendo", destacou.

"Eu sou uma menina muito militante desde nova, todos os lugares que eu ocupei, eu não deixava injustiça passar, se passasse eu falava e era bem emblemático. Eu sempre me colocava nesse lugar de não deixar nenhum preconceito passar pelas minhas vistas, nem comigo nem com quem estava perto de mim", disse ela.

"Isso veio do Carnaval, porque no Carnaval eu fiquei consciente sobre temas do povo preto e do meu povo que eu não sabia, porque não me era contado na escola, porque não era conversado com as pessoas mais velhas, então eu não tinha tanto conhecimento. E esse conhecimento veio através do Carnaval e através da Mangueira", completou a artista.

O orgulho de defender as cores da verde e rosa ganha contornos ainda mais especiais com o enredo proposto pela agremiação para 2027, que, segundo Nikolly, une fé, ancestralidade e protagonismo feminino.

O desfile terá o tema Oyá Por Nós e vai homenagear a orixá Oyá (também conhecida como Iansã), divindade das religiões de matriz africana associada aos ventos, às tempestades, aos raios e às transformações.

"Eu sempre acho que eu estou fazendo parte de algo revolucionário quando estou desfilando com a Mangueira. E esse ano nós vamos fazer mais uma revolução falando sobre poder feminino, sobre Oyá, e é muito lindo ver uma religião de matriz africana no centro das atenções, é emocionante", vibrou.

Empoderamento

A expansão de Nikolly nos palcos e telas também têm uma conexão direta com a história da personagem Kênia, papel que, segundo a atriz, abriu ainda mais espaço para que ela abraçasse integralmente seu próprio "tamanho" e personalidade sem medo de julgamentos externos.

"Eu sempre fui muito extrovertida, eu sou muito carinhosa também, amo criar relação, amo conhecer pessoas, amo estar perto. E a Kênia é muito assim. Mas, em muitos momentos da minha vida, eu já ouvi que eu poderia ocupar menos espaço, que eu poderia ser mais reprimida, que eu poderia ser um pouco menor dentro do meu trejeito, do meu tamanho, porque é isso, o meu cabelo é sempre muito grande, muito volumoso e eu tô sempre com muito adereço, com uma roupa que chega antes de mim", pontuou.

O processo de composição da personagem da novela das seis trouxe reflexões profundas para a atriz sobre resgate histórico, além de uma descoberta de raízes ancestrais. "As princesas e as rainhas africanas usavam muito ouro, tinham cabelos estruturais, cabelos grandes... Então a Kênia me mostrou isso, que eu nunca fui pequena e que eu não tinha que ser", revelou.

"Às vezes é 'muito' mesmo, mas eu sou essa pessoa de 'muito' mesmo e essa segurança de poder dizer agora: 'eu sou essa pessoa que realmente é muito, que vai chegar e não vai ser pequeno, não vai ser devagar', veio um pouco com a Kênia. Ela me deu esse empoderamento e essa autoestima", concluiu.

Leia também -> Resumo dos próximos capítulos de A Nobreza do Amor.

A Nobreza do Amor tem como protagonistas a princesa africana Alika, interpretada por Duda Santos, e o trabalhador brasileiro Tonho, vivido por Ronald Sotto. A trama conta com a direção artística de Gustavo Fernandez
e é ambientada na década de 1920.

A história escrita por Duca Rachid, Júlio Fischer e Elisio Lopes Jr se desenvolve em dois universos fictícios: o reino de Batanga, na costa ocidental da África, e a cidade de Barro Preto, localizada no Rio Grande do Norte.


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